“Em cinco anos, passar o dia no WhatsApp será tão mal visto quanto fumar num avião”

Em seu livro ‘Ser humanos’, o neurologista Facundo Manes defende as funções “insubstituíveis” da humanidade frente à tecnologia e alerta para os futuros efeitos da pandemia sobre a saúde mental

O neurologista Facundo Maes em Barcelona, esta terça-feira.
O neurologista Facundo Maes em Barcelona, esta terça-feira.CRISTÓBAL CASTRO

Foi em uma aula de Anatomia, no primeiro ano da faculdade de Medicina, que Facundo Manes (Buenos Aires, 52 anos) ficou fascinado pelos meandros do cérebro. “É o único órgão do universo que tenta entender a si mesmo”, diz com entusiasmo o médico, que se especializou em neurologia pela Universidade de Buenos Aires e prosseguiu seus estudos no campo da neurociência e a neuropsiquiatria nos Estados Unidos e Reino Unido.

Sentado em uma poltrona do imponente salão do Hotel Casa Fuster, em Barcelona, Manes esmiúça os segredos do órgão mais sofisticado do planeta, o que se sabe sobre ele, e o que ainda falta saber. Acaba de publicar na Espanha o livro ‘Ser humanos —todo lo que necesitas saber sobre el cerebro’ [Ser humanos —tudo o que você precisa saber sobre o cérebro, ainda sem tradução] um relato ágil sobre as principais descobertas da neurociência, no qual aproveita para fazer uma defesa das habilidades exclusivas do ser humano. Numa era conturbada, onde a tecnologia testa os limites da ciência e uma pandemia pôs o planeta em xeque, Manes convida à introspecção: “A maior força para o presente e para o futuro não é o computador mais sofisticado ou ter dinheiro ou poder, e sim pensarmos como humanos para combater a mudança climática, a desigualdade e enfrentar os grandes desafios da humanidade”.

Pergunta. O que e quanto sabemos sobre o cérebro?

Resposta. Avançamos nas últimas décadas mais do que em toda a história da humanidade. Mas nos falta uma teoria geral sobre o cérebro. A pergunta-chave é se o ser humano será capaz de entender seu próprio cérebro.

P. O que é o mais importante que ainda falta saber para dar um salto qualitativo na neurociência?

R. A consciência, o entendimento de como os circuitos neuronais dão lugar a este sentimento íntimo, privado, pessoal e subjetivo que você e eu estamos sentindo. Não temos nem ideia de como isso funciona.

P. Em seu livro, você diz que hoje o cérebro está sendo testado “de forma drástica”. O que isso significa?

R. Pela primeira vez na história, a evolução imediata do cérebro não será biológica. Há atualmente novas tecnologias com as quais estamos permanente conectados; os jovens são nativos digitais, e existe a interface cérebro-máquina [dispositivo que decodifica a linguagem do cérebro e conecta o órgão a um computador]: hoje é possível instalar eletrodos que registram o pensamento para mover um braço, um programa decodifica isso e um braço robótico se move obedecendo aos pensamentos dessa pessoa. A pergunta é: como vamos evoluir? A tecnologia moderna impacta nosso cérebro, embora não vá mudar sua estrutura. Estamos nos dirigindo a um mundo pós-pandemia onde valorizaremos o ser humano. Em cinco anos, passar o dia todo no WhatsApp será tão mal visto como fumar em um avião. A tecnologia não vai mudar a estrutura do cérebro, mas acredito que pela primeira vez estamos perante um dilema que possibilitará nossa evolução. Não será pela biologia como antes, mas sim pela interface cérebro-máquina. Pode haver um salto evolutivo para algo que não tinha acontecido.

P. Mas para onde? Porque esse salto pode ser para o bem ou para o mal.

R. Exato. O que acontece se isso que está sendo estudado para fazer o bem, para ajudar pacientes, for usado para modificar a atividade neural de uma pessoa no futuro? Por isso é necessário que cresça a neuroética, que é a avaliação ética dos avanços do estudo do cérebro.

P. Você fala em neuroarmas. O cérebro pode se transformar em uma arma de combate?

R. Faz sentido, porque a Agência de Pesquisa de Projetos Avançados em Defesa, que é uma instituição associada ao Departamento de Defesa norte-americano, está investindo muito em neurociência para aumentar a resiliência dos soldados. Talvez no futuro seja possível manipular a mente de alguns soldados com tecnologia. Atualmente esta área é embrionária, mas é preciso prestar atenção a ela. Talvez as guerras do futuro sejam neuroguerras, manipulando a mente do adversário ou aumentando a resiliência ou a resistência à dor dos soldados.

P. Com relação aos problemas de saúde mental, que também são doenças do cérebro, o que se sabe?

R. Sabemos, sobretudo, detectá-los melhor do que antes, e sabemos que todos têm um componente biológico subjacente. Mas ainda nos falta um marcador biológico, como existe no caso do diabetes. A saúde mental é uma das áreas em que será preciso investir mais. As pandemias mudam as sociedades, para o bem ou para o mal. Depois da peste negra chegou o Renascimento, que foi algo bom. Nesta pandemia, o impacto para a saúde mental durará mais do que a pandemia. Hoje ele impacta sobretudo cinco grupos: os jovens, porque foram pegos numa etapa de desenvolvimento cerebral e modulação das emoções; as mulheres, porque aumentou a violência doméstica; os idosos, porque havia uma epidemia de solidão antes da pandemia que se agravou; os profissionais da saúde e os pobres.

P. Os especialistas já dizem que estamos em uma pandemia de saúde mental ruim. Como se confronta isso?

R. Em uma pandemia, a resposta à saúde mental deve ser tão importante como a vacinação. Não se pode separar a saúde física da saúde mental. É preciso fazer uma grande campanha de psicoeducação, dar ferramentas às pessoas para detectarem o estresse, a angústia, a ansiedade, e poder enfrentá-los.

P. Você repete no livro que o cérebro é um órgão social. Mas a pandemia nos levou ao isolamento. Como essa crise sanitária afetará o cérebro?

R. O que o vírus fez foi pegar o que há de mais importante na nossa espécie, que é o contato humano, e usá-lo contra nós. Ainda continuamos sem nos abraçarmos nem nos tocarmos. E isto é muito importante porque, assim como a sede é um alarme biológico que nos recorda que precisamos nos hidratar, a solidão é um alarme biológico que nos recorda que somos seres sociais. O órgão mais complexo do universo é um órgão social, e a pandemia o que fez foi evitar o contato social e aumentar a solidão. E a solidão crônica é um fator de mortalidade tão importante como a obesidade ou o tabagismo, e mais importante que a poluição ambiental. Se você estudar crises, guerras, epidemias e pandemias, há uma boa notícia: os seres humanos são seres adaptativos e resilientes.

P. Mas se somos seres sociais, e o altruísmo ativa os sistemas de recompensa, por que vivemos em um mundo tão individualista?

R. É o fator humano. Acredito que há uma crise de empatia na sociedade atual. Vivemos na melhor época da história da humanidade, e temos ansiedade, estresse… Temos vieses, vemos vida através de óculos que vamos construindo à medida que crescemos: construímos preconceitos, muros… A maior parte da decisão humana não pode ser analítica ou racional, porque exige um gasto mental, e temos recursos cognitivos limitados. Então vivemos de forma automática, com hábitos. Há um fator humano que influencia nossa conduta e nos leva à falta de empatia, mas a boa notícia é que isso pode ser modificado.

P. Somos nosso pior inimigo?

R. Sim, e isso nos faz, ao mesmo tempo, mais infelizes. Porque o que nos dá bem-estar é o oposto. Estamos talvez vivendo mais automaticamente do que precisamos para desfrutar da vida. Estou certo de que em cinco ou dez anos vamos valorizar muito o ser humano. Essa conversa será o que haverá de mais cool e sofisticado.

Inscreva-se aqui para receber a newsletter diária do EL PAÍS Brasil: reportagens, análises, entrevistas exclusivas e as principais informações do dia no seu e-mail, de segunda a sexta. Inscreva-se também para receber nossa newsletter semanal aos sábados, com os destaques da cobertura na semana.

Mais informações

Arquivado Em

Recomendaciones EL PAÍS
Logo elpais

Você não pode ler mais textos gratuitos este mês.

Assine para continuar lendo

Aproveite o acesso ilimitado com a sua assinatura

ASSINAR

Já sou assinante

Se quiser acompanhar todas as notícias sem limite, assine o EL PAÍS por 30 dias por 1 US$
Assine agora
Siga-nos em: