Prêmios Ig Nobel

O orgasmo que descongestiona o nariz e outras exóticas descobertas premiadas com o Ig Nobel

Reconhecimento aos trabalhos científicos mais insólitos do ano incluiu também um estudo sobre as bactérias dos chicletes jogados no chão em diferentes países

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Dizia o escritor Alfred Jarry no seu livro póstumo Artimanhas e opiniões do dr. Faustroll, patafísico, escrito no final do século XIX, que esta disciplina, atribuída por ele ao fictício investigador, era “a ciência das soluções imaginárias”, baseada, segundo seus múltiplos seguidores em todo o mundo, na busca pela estranheza existente no cotidiano, pela singularidade oculta no habitual. Com esta filosofia, a Universidade Harvard (Estados Unidos) acolhe anualmente o Ig Nobel, prêmios que se contrapõem à famosa versão original da Academia Sueca. Os prêmios buscam, segundo Marc Abrahams, editor e cofundador da revista de humor científica que os concede, a Annals of Improbable Research, “fazer rir e, depois, pensar”. O orgasmo como descongestionante nasal; por que os pedestres não se chocam; a importância de transportar rinocerontes por via aérea de cabeça para baixo —essas são algumas das investigações distinguidas neste ano com a dúbia honraria, que consiste em um diploma em PDF e uma cédula de 10 trilhões de dólares zimbabuanos (que valia menos de dois reais quando saiu de circulação, em 2015).

Como todos os anos, a cerimônia de entrega do Ig Nobel (trocadilho com a palavra ignóbil) termina com o bordão de Abrahams: “Se você não ganhou um prêmio esta noite, e especialmente se ganhou, que tenha melhor sorte no ano que vem”. Os ganhadores foram os seguintes:

Medicina. O sexo melhora a função nasal? O prêmio distingue um estudo alemão, turco e britânico com 18 casais, que segundo seus autores demonstra que o orgasmo pode ser tão efetivo como os descongestionantes nasais e melhorar a respiração pelo nariz durante até uma hora depois da relação. O trabalho foi publicado na Ear, Nose & Throat Journal.

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Ecologia. O bacterioma do chiclete descartado. A equipe do espanhol Manuel Porcar, da Universidade de Valência, e da empresa Darwin Bioprospecting Excellence foi premiada pelo uso da análise genética para identificar as espécies de bactérias nos chicletes grudados no chão de cidades de vários países. O estudo The wasted chewing gum bacteriome foi publicado pela Scientific Reports, do grupo Nature.

Biologia. Uma análise acústica comparativa do ronronar de quatro gatos. A pesquisa sueca levou esta categoria dos prêmios por analisar as variações em torno do ronronar e também dos cantos, falas, gorjeios, brincadeiras, murmúrios, miados, gemidos, chiados, assobios, uivos, grunhidos e outros modos de comunicação entre gatos e humanos. A comparative acoustic analysis of purring in four cats saiu na Proceedings Fonetik.

Química. O cheiro do público no cinema como ferramenta para classificar filmes. Uma equipe da Alemanha, Reino Unido, Nova Zelândia, Grécia, Chipre e Áustria decidiu que o aroma corporal dos espectadores é significativo para conhecer o gênero de um filme e a idade recomendada para vê-lo. O estudo, Proof of concept study: testing human volatile organic compounds as tools for age classification of films, publicado na PLoS One, argumenta que a análise do ar nos cinemas, através dos testes de aroma corporal do público, revelam os níveis de violência, sexo, comportamento antissocial, uso de drogas e linguagem inapropriada no filme projetado.

Economia. A obesidade dos políticos de um país é um indicador da corrupção. Esta é a premissa da investigação de um grupo francês, suíço, australiano, austríaco e tcheco que lhe valeu a distinção. Segundo o estudo, Obesity of politicians and corruption in post Soviet countries, publicado na Economics of transition and institutional change, as imagens de 299 ministros de 15 países que fizeram parte da União Soviética demonstram que a massa corporal está “altamente relacionada” com indicadores convencionais de corrupção.

Paz. Os homens desenvolveram barbas para se protegerem dos socos na cara. A revista Integrative Organismal Biology, da editora Oxford Academic, publicou Impact protection potential of mammalian hair. Segundo os autores deste estudo, frente às teorias que atribuem a barba a um sinal de masculinidade, “esta pode servir, de maneira similar ao cabelo comprido da juba de um leão, para proteger áreas vitais como a garganta e a mandíbula de ataques letais”. A experiência consistiu em golpear uma estrutura similar a um osso com e sem cobertura capilar.

Física. Por que os pedestres colidem ou não entre si. Outra equipe internacional (da Europa, Estados Unidos e Taiwan) foi premiada por seus experimentos tentando compreender por que os transeuntes não esbarram constantemente uns nos outros. A Physical Review publicou Physics-based modeling and data representation of pairwise interactions among pedestrians, onde se conclui que “as forças sociais podem atuar tanto no caminho previsto como no caminho efetivamente caminhado”. Neste mesmo campo, mas na modalidade de cinética, foi premiado um estudo contrário sobre por que os pedestres, às vezes, se chocam. Mutual anticipation can contribute to self-organization in human crowds saiu na Science Advances.

Entomologia. Baratas nos submarinos. De novo a Oxford Academic emplacou um prêmio, desta vez com a sua publicação Journal of economic entomology, pelo artigo A new method of cockroach control on submarines, um estudo sobre os tratamentos para dedetizar essas embarcações.

Transporte. Transporte aéreo de rinocerontes de cabeça para baixo. Com uma importante participação africana, ausente em outras categorias, este último prêmio foi para um estudo publicado na BioOne, The pulmonary and metabolic effects of suspension by the feet compared with lateral recumbency in immobilized black rhinoceroses (‘Diceros bicornis’) captured by aerial darting. Este experimento analisou os efeitos do transporte aéreo em animais previamente anestesiados, concluindo que a posição do deslocamento é mais importante que o produto usado para adormecer os paquidermes.

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