Como a maior floresta do planeta está morrendo

A poluição escurece a atmosfera do Ártico com uma névoa que está matando as árvores do norte

As árvores estão morrendo num raio de dezenas de quilômetros da cidade de mineração Norilsk, na Sibéria.
As árvores estão morrendo num raio de dezenas de quilômetros da cidade de mineração Norilsk, na Sibéria.Alexander Kirdyanov

Uma das poucas consequências positivas do aquecimento global era, segundo os cientistas, que as florestas colonizariam as partes mais frias do planeta. No entanto, agora um estudo mostra como a poluição está obscurecendo a atmosfera nas regiões árticas, bloqueando os raios do sol e impedindo a fotossíntese. A consequência é que milhares de quilômetros quadrados de floresta boreal já morreram e o escurecimento do céu impede que os reforços cresçam.

A taiga é uma vasta superfície arbórea, principalmente de coníferas, que margeia o Círculo Polar Ártico. O nome, de origem russa, se referia originalmente às florestas boreais da Sibéria, que ultrapassam a floresta amazônica em extensão. Mas taiga também são as árvores dos países nórdicos, do norte do Canadá e do Alasca. As condições são tão difíceis ali que elas sobrevivem dormentes a maior parte do ano, crescendo apenas durante o verão. Com o aumento das temperaturas por causa das mudanças climáticas, esperava-se que a ampliação desse período de tempo acelerasse o desenvolvimento florestal e sua expansão para novas terras. Mas a taiga está regredindo desde os anos 1970. Por quê?

Os cientistas apontam para a poluição gerada pelo homem tanto in situ como de muito longe. Eles verificaram isso analisando a espessura dos anéis e a densidade da madeira de centenas de árvores mortas e algumas dezenas de vivas. Todas eram alerces ou abetos siberianos que cresciam em um raio de 150 quilômetros de Norilsk. Localizada no centro da Sibéria, esta cidade aparece na Wikipedia como o centro urbano de mais de 100.000 habitantes que fica mais ao norte do planeta.

É também um dos maiores complexos de mineração do mundo, onde são extraídos metais como níquel, cobre, platina e a maior parte do paládio utilizado no planeta. Sua extração e beneficiamento emitiram 1,8 milhão de toneladas de poluentes somente em 2018, sendo 98% na forma de dióxido de enxofre.

Os resultados desse trabalho local, mas com implicações mundiais, mostram altas concentrações desses metais e enxofre na madeira das árvores mortas. Também os solos aparecem contaminados, o que complica o surgimento de novas árvores. Segundo publicou a revista científica Ecology Letters, a mortalidade é maior quanto mais perto das minas, chegando a 100%.

Mas as emissões têm um efeito ainda mais profundo e de longo alcance: estão escurecendo a atmosfera. A maior presença de aerossóis gera uma névoa que enreda ou reflete boa parte da radiação solar. Além disso, as partículas de dióxido de enxofre funcionam como núcleos de condensação, gerando cada vez mais nuvens. O resultado é o curto-circuito da fotossíntese.

“No artigo mostramos que a dissociação entre o crescimento das árvores e o aumento da temperatura se deve, pelo menos em parte, à poluição atmosférica”, diz em email o ecologista da Universidade Federal da Sibéria e coautor do estudo Alexander Kirdyanov . “Norilsk é apenas uma pequena parte do problema. Na realidade, o Ártico se tornou uma espécie de reservatório de poluentes e aerossóis emitidos não apenas por instalações da região ártica, mas também de latitudes mais baixas da América do Norte, Europa e Ásia”, acrescenta. Uma vez lá, os padrões dos ventos árticos, quase circulares, espalham a poluição.

A altíssima mortalidade observada em torno de Norilsk é um fenômeno local, lembra Kirdyanov. “No entanto, se você perguntar sobre a incapacidade das árvores de acompanhar o aumento contínuo da temperatura, esse fenômeno já foi observado em muitas regiões da zona boreal”, esclarece.


“À medida que a poluição do ar se acumulava no Ártico em razão de padrões de circulação [atmosférica] em larga escala, estendemos nossa pesquisa para além dos efeitos diretos do setor industrial de Norilsk e vimos que nas altas latitudes do norte as demais árvores também estão sofrendo”, afirma, em uma nota da Universidade de Cambridge, o professor Ulf Büntgen, coautor do estudo.

Büntgen sabe que a floresta amazônica recebe maior atenção da mídia e do público, “sendo muito menos conhecido o papel ecológico e climático da floresta boreal, o maior bioma do planeta”. Mas sua deterioração acelerada pode ter consequências tão grandes quanto a perda da amazônica. “Esperamos que nosso trabalho contribua para despertar a consciência internacional sobre as consequências nocivas das emissões antropogênicas no Ártico e que suas consequências podem ter dimensões globais”, opina por email.

O pesquisador florestal Raúl Sánchez, da Universidade Pablo de Olavide, não vinculado ao estudo, lembra que se esperava que “as árvores desta região crescessem com o aquecimento, mas o aumento das emissões reduz a radiação, a fotossíntese e, portanto, o crescimento”. Além disso, ele comenta que a névoa ártica “coincide com as poucas semanas em que poderiam crescer e, a tudo isso, devemos somar os incêndios”. A consequência de médio prazo será a realimentação do aquecimento global: “Vai alterar todo o ciclo do carbono, o sequestro de CO₂ [dióxido de carbono] que era esperado com a expansão da floresta não vai ocorrer, mas, sim, a liberação de CO₂ ocorrerá com a morte da taiga”.

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