As outras vezes que pensamos ter encontrado vida extraterrestre

Até agora, foram detectados sinais indiretos atribuídos à atividade biológica fora da Terra, mas sempre estiveram longe de ser provas irrefutáveis

O vento solar, interagindo com a atmosfera de Vênus.
O vento solar, interagindo com a atmosfera de Vênus.ESA (Animation by C. Carreau)

É difícil imaginar uma descoberta mais excitante do que a vida extraterrestre. Sabemos que o cosmos inteiro é feito com os mesmo tijolos, átomos de hidrogênio que foram sendo acumulados até formar estrelas, que ao explodir produziram novos elementos que acabaram preenchendo a tabela periódica. Apesar da diversidade dos mundos que povoam o Sistema Solar, seus vulcões, suas planícies e seus oceanos são compostos dos mesmo materiais que a Terra. Em nosso planeta, entretanto, aconteceu algo, não muito depois de sua formação, que permitiu a algumas combinações de elementos ganhar vida e, após bilhões de anos de evolução, tornou possível o surgimento de primatas capazes de se perguntar se aquele fenômeno foi um milagre único ou a vida, como as montanhas, é frequente no universo.

Os cientistas nunca conseguiram explicar bem como podem aparecer seres vivos a partir de elementos inertes, mas há certo consenso em que pelo menos as formas mais simples de vida não deveriam ser uma raridade no cosmos. Os primeiros seres vivos, acredita-se, apareceram na Terra poucas centenas de milhões de anos depois de sua formação, há 4,54 bilhões de anos. Os primeiros animais, entretanto, precisaram de mais 3,5 bilhões de anos para surgir, e se passaram mais 500 milhões de anos até a ascensão humana. Os seres inteligentes são muito mais raros do que as bactérias.

Apesar do fascínio da descoberta de vida fora de nosso planeta, o processo para descobri-la pode não ser tão emocionante. Os alienígenas inteligentes são algo ainda não visto e pode ser que sejam encontrados em regiões inalcançáveis do universo. Os micróbios vão sendo descobertos pouco a pouco, através de seus sinais, muito antes de poder vê-los sob o microscópio. Quando chegarem ali, é possível que décadas e séculos estudando sua existência de maneira indireta tenham diluído a surpresa.

Na segunda-feira, a revista Nature Astronomy anunciou a descoberta na atmosfera de Vênus de fosfano, um gás que na Terra tem uma origem fundamentalmente biológica. Os autores sugerem que, uma vez descartadas outras possíveis origens para a substância, isso poderia ser um sinal de que nas partes altas da atmosfera, onde a temperatura e a pressão atmosférica são um pouco mais suportáveis do que na superfície, poderia existir seres vivos. Outros grupos tentarão melhorar as observações com telescópios terrestres e espaciais, mas somente uma missão ao planeta para pegar amostras confirmaria sem dúvidas a existência de vida extraterrestre.

Não é a primeira vez que se anuncia a descoberta de alienígenas microscópicos a partir de sinais indiretos. Em 1976, as sondas Viking pegaram amostras do solo de Marte à procura desse tipo de indícios. Em uma experiência liderada por Gilbert Levin, misturaram nutrientes marcados com carbono radioativo com amostras do solo. Dessa forma, observaram a produção de metano radioativo, um sinal interpretado, pelo menos momentaneamente, como um indício de que havia micróbios metabolizando os nutrientes e gerando o gás. Décadas depois, o consenso científico considera que esses resultados não são conclusivos, ainda que Levin tenha defendido que detectaram vida.

Duas décadas depois, no verão de 1996, um grupo de cientistas da NASA afirmou que havia encontrado micróbios fossilizados em uma rocha que veio há 13.000 anos de Marte encontrada na Antártida em 1984. Como em casos anteriores, as evidências eram indiretas. O meteorito continha partículas de magnetita, um mineral que às vezes se encontra nas bactérias terrestres. Com o tempo, se acumularam provas de que a magnetita não era como a que se encontra nas bactérias e que os cristais que formavam podiam se dever a outros processos químicos. Como seu colega Gilbert Levin, David McKay, o líder da equipe da NASA que assinou aquele anúncio de vida extraterrestre, defendeu seus resultados durante anos.

Muito mais longe, no satélite de Júpiter Europa, também foram encontrados rastros de enxofre que alguns cientistas atribuíram à atividade biológica. Esse elemento significaria que o oceano descoberto sob a superfície gelada dessa lua poderia ser habitável, mas como em ocasiões anteriores foram encontradas explicações mais simples do que a existência de vida.

Nas próximas décadas, existem planos para criar missões que procurem vida em Europa, mas a experiência dessa busca em mundos muito mais próximos como Vênus e Marte dá uma ideia das dificuldades dos caçadores de extraterrestres. Também há esperanças colocadas em muitos dos exoplanetas descobertos nos últimos anos, mas lá, mais uma vez, deverão ser encontrados sinais inequívocos de atividade biológica e visitar esses mundos, a anos-luz de distância, requererá tecnologias de viagem ainda não inventadas.

Se algum dia por fim for encontrada vida em Marte e Vênus, seria um indício de sua ubiquidade no universo, mas também da fragilidade das formas mais complexas quando as coisas ficam complicadas. Tanto Vênus como Marte foram mais habitáveis em suas origens, com oceanos que cobriam sua superfície. Naquelas primeiras centenas de milhões de anos de existência, como aconteceu na Terra, a vida pode ter aparecido. Depois, Vênus se transformou em um inferno provocado pelo efeito estufa e Marte perdeu atmosfera protetora à vida. É possível que no primeiro algumas bactérias se refugiassem nas camadas altas da atmosfera, onde a pressão e o calor são suportáveis para as mais resistentes. Em Marte, os micróbios teriam se retirado ao subsolo. Por enquanto, são hipóteses tão plausíveis como que a vida nunca chegou a surgir nesses mundos em que duas mudanças climáticas extremas a destruíram completamente.

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