Governo boliviano recrudesce perseguição a Evo Morales e a seu partido

Executivo provisório ativou uma ordem internacional de busca e captura contra o ex-presidente, acusado de terrorismo e rebelião

O ex-presidente de Bolívia, Evo Morais, é recibo por uma mulher depois de sua arribo ao aeroporto de Buenos Aires.
O ex-presidente de Bolívia, Evo Morais, é recibo por uma mulher depois de sua arribo ao aeroporto de Buenos Aires.REUTERS

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O Governo provisório da Bolívia intensificou a perseguição ao ex-presidente Evo Morales e seus colaboradores. O ministro de Governo (Casa Civil), Arturo Murillo, apresentou-se nesta quarta-feira aos jornalistas segurando um par de algemas e anunciou que acabava de ativar uma ordem internacional de busca e captura contra Morales, acusado de terrorismo e rebelião pelas autoridades que o sucederam. “Que venha, não tenha medo, vamos cuidar dele”, ironizou o ministro.

Além disso, as autoridades interinas estão analisando o patrimônio de todos os ex-ministros, vice-ministros, diretores, governadores e prefeitos ligados ao Movimento ao Socialismo (MAS), o partido de Morales. “Temos 600 pessoas investigadas, e é pouco", afirmou Murillo. O propósito dessa investigação é encontrar contas ou propriedades inexplicáveis que conduzam a novos processos por corrupção, além dos muitos já existentes.

Também foi detido o dono de um importante canal de televisão próximo ao Governo deposto, logo depois de ser acusado de enriquecimento ilícito por deputados do novo governismo. E, para completar o quadro, uma mulher foi presa no aeroporto de El Alto quando tentava viajar a Buenos Aires com 100.000 dólares não declarados. Ela é acusada de ligação com o ex-ministro Juan Ramón Quintana, atualmente retido na residência diplomática do México em La Paz, e de tentar levar o dinheiro a Morales para “financiar o narcoterrorismo”. Ela declarou que o dinheiro pertencia à filial boliviana da empresa petroleira venezuelana PDVSA e que o levava com a intenção de pagar contas dessa empresa na Argentina. A Polícia fez buscas nos escritórios da PDVSA em La Paz.

Outro alvo da perseguição judicial são os chamados “guerreiros digitais”, jovens que no passado trabalhavam fazendo propaganda para o MAS nas redes sociais — sendo que, nos últimos dias, alguns deles, continuaram publicando mensagens contra os adversários a partir de computadores do Estado que ainda estavam em suas mãos, e também a partir de máquinas particulares. Uma acusação contra eles aponta a intenção de provocar “animosidade” contra a presidenta interina, Jeanine Añez.

Além de policial e judicial, a pressão sobre o MAS é também política. Andrónico Gutiérrez, líder dos sindicatos cocaleiros e pré-candidato do partido esquerdista à presidência, anunciou que a partir de 22 de janeiro, quando terminaria o mandato de Morales, começará outra etapa da “resistência pacífica ao fascismo”, sugerindo que haverá mobilizações de protesto. Em resposta, o ministro Murillo tuitou: “Andrónico, cuidado, o radicalismo... põe em risco sua liderança e seu futuro”. Rodríguez teve que vir a público esclarecer que não pretendia cometer nenhum crime e denunciou que o Governo estava tentando asfixiar a liderança sindical com processos e detenções. O próprio Evo Morales foi acusado de terrorismo e rebelião porque o considera o organizador, a partir do exílio, do bloqueio rodoviário feito por camponeses que está impedindo a entrada de alimentos nas cidades, numa tentativa de desestabilizar Añez.

Os grupos de cidadãos que participaram das mobilizações contra Morales no ano passado, e que continuam mobilizados, cumprem um papel ativo em encurralar o MAS. Neste momento, patrulhas de moradores continuam cercando a residência oficial do embaixador do México em La Paz, onde se encontram refugiados vários ex-dirigentes desse partido. Os automóveis que entram e saem do bairro são revistados, para evitar fugas.

Outros grupos cercaram a casa do ex-ministro de Governo Carlos Romero, impedindo sua saída. Murillo disse não haver nenhuma ordem de detenção contra Romero, mas até agora as autoridades nada fizeram para impedir que os moradores imponham sua própria lei, de modo que o ex-funcionário se encontra sob uma espécie de prisão domiciliar informal.

Em Cochabamba, na região central do país, as patrulhas de moradores sitiam os escritórios da Defensoria do Povo, que consideram tendenciosa em favor do MAS, e também se manifestam contra os vereadores desse partido na Câmara, pedindo sua renúncia.

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