Crise no Chile

Após dez dias de protestos no Chile, Piñera tenta salvar Governo com a mudança de oito ministros

Presidente dá cartada ousada para se blindar da pressão da oposição e garantir governabilidade com apoio de apenas 14% da população. Nova equipe inclui um ex-líder estudantil de 30 anos

Sebastián Piñera anuncia as mudanças em seu gabinete. Em vídeo, os protestos em Santiago de Chile. (atlas)

O presidente chileno, Sebastián Piñera, concretizou nesta segunda-feira sua mudança de Gabinete, 10 dias após a eclosão dos protestos no Chile que deixaram ao menos 20 mortos e atingiram a popularidade do mandatário, que se encontra com um histórico 14% de aprovação. O presidente fez movimentos em oito pastas, entre elas as do Interior e Fazenda. Com esta decisão, tenta se blindar para enfrentar a maior crise política e social que vive o país desde o regresso da democracia em 1990. O Partido Comunista e a Frente Ampla de esquerda buscam a saída de Piñera com a apresentação no Congresso de uma acusação constitucional, enquanto para esta terça-feira convocou-se um ato em frente ao Palácio de La Moneda, sede oficial do Governo. 

O movimento principal no Gabinete se tornou evidente ao decorrer dos dias: o mandatário não teve outra opção a não ser a de remover do cargo os ministros do Interior e Segurança Pública. Andrés Chadwick Piñera é o primo e homem de confiança do presidente, que já havia se recusado a retirá-lo do cargo em outras ocasiões. É substituído por Gonzalo Blumel, de 41 anos, que até agora desempenhava o papel de ministro da Secretaria Geral da Presidência, que coordena a relação entre o Executivo e o Congresso.

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A segunda mudança profunda foi a destituição de seu ministro de Fazenda, Felipe Larraín, depois deste acender a pólvora da indignação cidadã. Ao anunciar as cifras do IPC de setembro, Larraín fez um apelo "a comprar flores", cujo preço diminuía, "aos românticos” que se manifestavam. Foi visto como uma provocação por uma parte da população que se sente à margem do crescimento de Chile nos últimos 30 anos.

As mudanças coincidem com o pior momento para a popularidade de Piñera. De acordo com a pesquisa Cadem, divulgada no final de semana, o presidente chileno tem um respaldo de 14%, a cifra mais baixa que registra um chefe de Estado desde 1990. Um 78% da população o rechaça, superando o recorde que até agora registrava Michelle Bachelet, que obteve um 18% de apoio e um 68% de desaprovação em março de 2016, durante seu segundo mandato. O baixíssimo respaldo de Piñera mostra que tanto o presidente como seu Governo se encontram no centro do mal-estar da população.

A gestão da crise não ajudou. A demora em tomar a temperatura aos protestos, iniciadas a começos de outubro pelo aumento da passagem de metrô, o episódio da saída do presidente para comer pizza com a família quando a crise já estourava, a decisão –discutida ainda– de decretar o estado de emergência em diferentes regiões, e as declarações do próprio Piñera de que o Chile "está em guerra", são alguns exemplos. Seu pedido de perdão ante a população, que segue se manifestando nas ruas, e o anúncio de um pacote de medidas sociais, não foi suficiente.

Depois da manifestação pacífica da sexta-feira passada —que só em Santiago de Chile reuniu 1,2 milhão de pessoas— Piñera levantou o estado de emergência no país, que restringia as liberdades de traslado e reunião, e mantinha a metade do país sob controle dos militares. Mas, embora no país observem-se alguns sinais de maior normalidade no transporte e na abertura de locais comerciais ou postos de combustível, o Governo enfrenta uma nova complicação: as denúncias de atropelos dos direitos humanos que estariam cometendo a polícia e as Forças Armadas. De acordo com o Instituto Nacional de Direitos Humanos (INDH), registraram-se 1.132 pessoas feridas e 3.243 detidos, entre os que se contam 347 menores de idade. O organismo apresentou já 101 ações judiciais: cinco denúncias por homicídio, 18 por violência sexual e 54 por torturas, entre outras. Enquanto isso, o Governo espera a visita oficial da Alta Comissão das Nações Unidas para os Direitos Humanos, liderado por Michelle Bachelet, antecessora socialista de Piñera.

Piñera também fez mudanças da porta-voz do Executivo, de onde sai Cecilia Pérez e ingressa Karla Rubilar, que até hoje exercia como intendente da Região Metropolitana de Santiago e tinha um papel central como porta-voz do Governo no meio dos protestos. Ao mesmo tempo, a Secretaria Geral de Presidência fica a cargo de Felipe Ward, que até agora atuava como ministro de Bens Nacionais. Nessa pasta, assume o advogado Julio Isamit, de 30 anos, um ex-líder estudantil dos movimentos de protesto de 2006.

O presidente chileno castigou a desconexão de seus ministros com a cidadania. Outro dos que sai do Gabinete é Juan Andrés Fontaine, que liderava o Ministério de Economia. Sua permanência parecia insustentável desde que fizera um apelo aos moradores de Santiago para acordar  ainda mais cedo para ir a seus trabalhos e, dessa forma, não se ver afetados pela alta da tarifa do metro – válida em horários de pico. Suas palavras foram uma provocação para os cidadãos que, em média, podem chegar a demorar até duas horas em trânsito a cada amanhã. É substituído por Lucas Palácios, que atuava como número dois do Ministério de Obras Públicas. Piñera também destituiu Cristián Monckeberg do Ministério do Trabalho, que será substituído por uma de suas colaboradoras, a advogada María José Zaldívar, que até esta segunda-feira era a subsecretária de Previsão Social da mesma pasta. Em Esportes, Piñera tirou a jornalista Pauline Kantor para instalar Cecilia Pérez, que atuava como porta-voz e faz parte do círculo de confiança do presidente. Piñera, como em outras ocasiões, resistiu a tirar por completo do Gabinete.

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