Eleições no Uruguai ameaçam pôr fim à hegemonia da esquerda e mudar todo o cenário político do país

O tradicional fair play da política uruguaia esconde uma eleição crucial e até mesmo trepidante em seus últimos momentos, pois tem sido disputada palmo a palmo, casa por casa

Daniel Martínez, candidato à presidência do Uruguai.
Daniel Martínez, candidato à presidência do Uruguai.Raúl Martínez (EFE)

Neste domingo, 27, os uruguaios votam nas suas eleições mais incertas, com a Frente Ampla (FA) em retrocesso e a direita apostando na união para impedir o quarto governo consecutivo da esquerda. Em meio às tensões no Chile, Equador, Argentina e Bolívia, um dos momentos mais duros da campanha uruguaia foi a publicação de um vídeo do Partido Nacional que mostrava os erros e fracassos do Governo, tendo como pano de fundo a valsa Danúbio Azul, de Johann Strauss. A FA respondeu a essa “campanha negativa” com outro vídeo, destacando suas conquistas com a mesma melodia, só que num trecho mais rápido. 

Desta vez, porém, o tradicional fair play da política uruguaia esconde uma eleição crucial e até mesmo trepidante em seus últimos momentos, pois tem sido disputada palmo a palmo, casa por casa. A governante Frente Ampla tenta conseguir mais eleitores, enquanto os três partidos da direita realizam contatos para organizar uma coalizão e se impor no quase certo segundo turno, previsto para novembro. Ninguém sabe o que acontecerá, mas as pesquisas indicam um mau resultado para a FA, que poderia perder a presidência e a maioria no Parlamento.

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Em muitos sentidos, o Uruguai se dá ao luxo de ter uma eleição como as do século XX, com uma clara leitura a partir das dinâmicas de classe social, divisões entre esquerda e direita, centro e direita, e partidos fortes que conseguem interpretar a sociedade. 

O retrocesso eleitoral da FA é o elemento-chave da contenda, com a emergência de um grupo de desencantados com a esquerda.

A arbitragem da classe média

Todos os estudos apontam que o Uruguai tem as menores diferenças sociais e a maior classe média da América Latina. O que as estatísticas não dizem é que, em todos os seus setores, a classe média uruguaia é uma das mais resistentes e sacrificadas que existem: paga impostos de todo tipo, cumpre normas e enfrenta gastos com combustível, comida e alojamento dignos do norte da Europa. Em troca, recebe serviços de saúde razoáveis, aposentadorias modestas e um marco de estabilidade que lhe permite progredir sem que o Estado frustre seus esforços. Essa mesma classe média arbitra, obriga a moderação dos políticos e se distancia da violência e da demagogia.

Nos últimos anos, uma parte dessa população disse não à FA, cujo modelo conseguiu manter o equilíbrio macroeconômico, com uma importante transferência de recursos e políticas aos mais pobres, agradando os mais ricos (especialmente os investidores internacionais) graças ao apoio dos setores médios. Mas a FA deu sinais que preocuparam a classe média, com casos de corrupção e má gestão (algo imperdoável no Uruguai), uma falta de impulso reformista, mais normas, novos impostos e um problema de insegurança pública que não pode ser contido.

Segundo o cientista político Gerardo Caetano, a maioria desses eleitores optou inicialmente pelo Partido Colorado, liderado por Ernesto Talvi, um destacado economista liberal que se apresentou como renovador da legenda, reivindicando um dos seus máximos dirigentes, José Batlle y Ordóñez (1856-1929), criador do Estado social e laico do Uruguai. Com o transcurso da campanha, no entanto, as coisas se complicaram para Talvi. Como indica o analista Alvaro Garcé, sua mensagem se tornou confusa para os eleitores de centro-esquerda, marcando uma queda do Partido Colorado nas pesquisas. 

Entre Piñera e o sexo

Nesse contexto, a última semana antes do pleito foi um calvário para a direita uruguaia. A explosão social no Chile e a reação do Governo de Sebastián Piñera, declarando Estado de emergência, foi um golpe para a oposição conservadora, especialmente para políticos como Talvi , que sempre reivindicaram o modelo chileno. Também colocou em questão a proposta de referendo de um dirigente do Partido Nacional para modificar a Constituição que, entre outras medidas, inclui militarizar as ruas para lutar contra a insegurança pública.

A FA aproveitou para mobilizar as suas bases, e 100.000 pessoas (incluindo muitos jovens) saíram às ruas para protestar contra a consulta popular, que será realizada no mesmo dia da eleição e, segundo as pesquisas, tem chances de ser levada em frente. 

Mas o Partido Nacional também enfrentou um escândalo sexual com poucos precedentes, quando vieram a público as gravações com a voz do prefeito de Colonia del Sacramento, o blanco Carlos Moreira. A primeira delas mostrava como o dirigente oferecia a renovação do posto de trabalho a uma mulher na Prefeitura em troca de favores sexuais; a segunda era explícita, com uma série de obscenidades ditas na mais pura gíria local. A reação do Partido Nacional foi clara, rápida e contundente, com a suspensão de Moreira. Mas também manchou uma boa campanha, na qual o candidato Luis Lacalle Pou havia encontrado o tom exato para se mostrar como um presidenciável confiável. Os candidatos encerraram a campanha na quarta-feira com grandes comícios, dando por terminada a valsa e esperando o som dos resultados do primeiro turno no domingo, que muitas vezes são definidores.