67ª Festival de San Sebastián

Filme brasileiro ‘Pacificado’ ganha a Concha de Ouro do festival de San Sebastián

O espanhol 'La Trinchera Infinita' leva os prêmios de melhor roteiro, direção e crítica internacional

O diretor Paxton Winters, com a Concha de Ouro e o telefone com que se conectou com os habitantes da Morro dos Prazeres, neste sábado em San Sebastián.
O diretor Paxton Winters, com a Concha de Ouro e o telefone com que se conectou com os habitantes da Morro dos Prazeres, neste sábado em San Sebastián.VINCENT WEST (REUTERS)

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O filme brasileiro Pacificado, do diretor norte-americano Paxton Winters, foi o grande vencedor do 67º Festival de San Sebastián. Graças ao seu mergulho na violência das favelas do Rio de Janeiro nos dias posteriores aos Jogos Olímpicos, o drama venceu a Concha de Ouro, o prêmio de melhor ator (Bukassa Kabengele) e o de melhor fotografia. Kabengele encarna um homem recém-saído da prisão que tenta recuperar a relação com a filha adolescente no meio do campo de batalha urbano. Os moradores da favela esperam que Jaca lidere de novo a luta, mas ele já é um homem pacificado, que deseja se distanciar da violência do crime.

Pacificado é produzido, entre outros, por Darren Aronofsky, e dirigido por Paxton Winters, um jornalista que viveu sete anos no Morro dos Prazeres, uma das cerca de mil favelas do Rio, onde filmou seu thriller, que utiliza algumas imagens reais de tiroteios. Essas sequências, rodadas pela equipe de Winters, mostram os enfrentamentos entre os membros do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) e pessoas armadas das favelas, dando ainda mais verossimilhança a um filme carregado, por outro lado, de verdade e firmeza. Winters desejava retratar “o sacrifício que significa escapar da violência e ao mesmo tempo manter a honra e a integridade” de seu protagonista nesse contexto, disse ele na apresentação à imprensa. “Meu papel consistiu sobretudo em escutar, observar, fazer perguntas. Sou apenas o canal. O filme é deles”, completou no palco Winters, que se conectou pelo celular com os moradores-atores da favela Morro dos Prazeres.

Quanto a Kabengele, o ator e cantor de origem congolesa, que interpreta desde 2003, recordou dias antes: “54% da população brasileira é negra, e a mortalidade atinge cifras assustadoras. São pessoas que só aparecem nos jornais quando se fala de criminalidade. O grande [trunfo] de Pacificado é que tem a coragem de se concentrar nas relações humanas, não nos tiros e explosões.” Kabengele não estava na cerimônia, e em seu nome foi lida uma mensagem que voltava a recordar essa desigualdade.

O outro filme premiado pelo júri, presidido por Neil Jordan, foi o espanhol La Trinchera Infinita, dirigido por Aitor Arregi, Jose Mari Goenaga e Jon Garaño, os responsáveis por Loreak e Handia. Eles levam à sua produtora Moriarti — em Pasajes, a pouco mais de quatro quilômetros de Kursaal, onde foi realizada a entrega dos prêmios — a Concha de melhor direção, o troféu de melhor roteiro (de Goenaga e Luiso Berdejo), o prêmio FIPRESCI da crítica internacional e o Feroz, da Associação dos Informadores Cinematográficos da Espanha. Goenaga dizia: “Pensamos que podíamos trazer uma narração da experiência de viver 33 anos encerrado, centrada em quem está dentro, que sente que o mundo de fora muda, a poucos metros dele, enquanto Higinio [o personagem] fica ali. É uma viagem psicológica.” Porque La Trinchera Infinita acompanha a vida de um topo [uma das tantas pessoas perseguidas pelo franquismo que se encerraram em suas casas à espera de tempos melhores] durante mais de três décadas, um homem interpretado por Antonio de la Torre, e sua esposa, a quem Belén Cuesta dá vida. Para os diretores, que dedicaram o prêmio de melhor realização à equipe e aos que sentem medo, Eem La Trinchera Infinita esse temor aflige Higinio, um medo universal e eterno da incerteza, do que há lá fora e do que possa ocorrer. Isto poderia ser extrapolado à atualidade da Espanha.”

Os outros dois filmes espanhóis tiveram uma sorte bem distinta. Mientras Dure La Guerra, de Alejandro Amenábar, terá a maior bilheteria no fim de semana, já que aproveitou o festival como plataforma de seu lançamento comercial. Mas não figura entre os ganhadores. Por outro lado, a lista inclui La Hija de Un Ladrón, da estreante Belén Funes, graças ao imenso trabalho de Greta Fernández, que protagoniza uma trama cujo início é similar ao de Pacificado: um pai sai da prisão, e uma filha espera reconstruir pontes emocionais. Foi a própria Greta que sugeriu o nome de seu pai, Eduard Fernández, para encarnar seu filho numa Barcelona no limite da pobreza, muito afastada de reflexões políticas e do procés (o processo independentista da Catalunha). Se a carreira de Greta começou com firmeza nos últimos três anos, a de Eduard o coloca entre os melhores atores espanhóis da história. É a primeira vez que um pai (em 2016, Eduard levou o prêmio com El Hombre de las Mil Caras) e uma filha ganham a Concha de melhor interpretação. Uma nervosa Fernández dividiu seu prêmio com uma grande estrela do cinema europeu, Nina Hoss, que em The Audition faz o papel de uma professora de violino obcecada com um de seus alunos.

Por reconhecimento, o segundo melhor filme do festival foi Proxima, de Alice Winocour, outro longa com a câmera colada no protagonista — neste caso uma astronauta francesa (estupenda Eva Green) a ponto de embarcar numa missão espacial de um ano e que encara a despedida de sua filha de sete anos. A pressão emocional dessa separação e os preparativos finais da viagem fazem tremer uma mulher mais forte do que pensam os que a conhecem. Nada a objetar sobre um filme interessante, que só tem um deslize — bastante importante — na parte final. Mas o arremate é irrepreensível, e em alto estilo. A propósito, apenas 11 mães foram ao espaço na história da humanidade.

Foi uma seção oficial bastante sem graça, com comentários não muito positivos emitidos pelo júri. O glamour tampouco salvou o festival, que, no entanto, deixou para a história uma foto poderosa: a de Penélope Cruz recebendo seu prêmio Donostia das mãos do músico Bono. O comitê de seleção terá que repensar onde pesca seus filmes. Por mais que haja outras boas seções em San Sebastián, um festival se mede por sua seção oficial. Com relação à cerimônia, foi rápida e eficaz, com um par de referências dos premiados argentinos à luta por uma lei sobre o aborto em seu país. O prêmio da RTVE – La Otra Mirada foi justamente para um documentário sobre o tema: La Ola Verde, de Juan Solanas.

Na seção Novos Diretores, o vencedor foi o chileno Algunas Bestias, de Jorge Riquelme Serrano, que conta no elenco com dois grandes atores como Alfredo Castro e Paulina García. É sobre uma família abandonada numa pequena ilha, situação que desperta o pior que há em seus integrantes. Na seção Horizontes Latinos, havia dois ou três grandes filmes, e um deles foi o premiado: o argentino De Nuevo Otra Vez, de Romina Paula. Na seção Zabaltegi - Tabakalera tampouco houve surpresas: Ich War Zuhause, aber, de Angela Schanelec, ganhadora do Urso de Prata na última Berlinale, levou a distinção principal.

Finalmente, o Prêmio do Público — com uma nota impressionante (9,19 em 10) — foi para os reis da bilheteria, os franceses Olivier Nakache e Éric Toledano, realizadores de Intocable y C'est La Vie, que em Especiales emplacam uma comédia que poderia ser resumida como o espanhol Campeones com meninos autistas.

Os vencedores

Concha de Ouro: Pacificado, de Paxton Winters.

Prêmio Especial do Júri: Proxima, de Alice Winocour.

Concha de Prata de melhor direção: A. Arregi, J. Garaño e J. M. Goenaga, por La Trinchera Infinita.

Oncha de Prata de melhor atriz: ex aequo Greta Fernández, por La hija de Un Ladrón, e Nina Hoss, por The Audition.

Concha de Prata de melhor ator: Bukassa Kabengele, por Pacificado.

Melhor roteiro: Luiso Berdejo e Jose Mari Goenaga, por La trinchera Infinita.

Melhor fotografia: Laura Merians, por Pacificado.

Prêmio Novos Diretores: Algunas Bestias, de Jorge Riquelme Serrano .

Melhor filme de Horizontes Latinos: De Nuevo Otra Vez, de Romina Paula..

Prêmio Zabaltegi – Tabakalera: Ich War Zuhause, aber, de Angela Schanelec.

Prêmio do Público: Especiales, de Olivier Nakache e Éric Toledano.

Prêmio da Juventude: Las Buenas Intenciones, de Ana García Blaya.

Prêmio FIPRESCI: La Trinchera Infinita.

Premio La Otra Mirada: La Ola Verde, de Juan Solanas.