Eleições na Argentina

Macri tenta desesperadamente evitar um colapso econômico em seu mandato

Governo consegue dar alguma calma aos mercados depois do anúncio do reescalonamento dos pagamentos

Manifestação contra a política econômica do Governo argentino, na quarta-feira 28 de agosto em Buenos Aires
Manifestação contra a política econômica do Governo argentino, na quarta-feira 28 de agosto em Buenos Aires

A Argentina chegou ao limite. O reconhecimento de que, no curto prazo, não pode fazer frente às suas dívidas, juntamente com o anúncio de uma complicada renegociação com o FMI, deu ao Governo de Mauricio Macri um momento de respiro em pleno naufrágio. Também despertou o medo da introdução de controles cambiais e até de uma suspensão de pagamentos se o peso continuasse a se desvalorizar. Macri disse compreender a “preocupação e a angústia” dos argentinos e pareceu admitir que sua única ambição é chegar às eleições de 27 de outubro sem novos desastres e concluir seu mandato.

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Os mercados financeiros mantiveram uma estranha calma nesta quinta-feira. Os volumes de negociação foram muito baixos e o peso, depois de uma brusca queda inicial, se manteve a 60 por dólar. Para isso foi necessário que o Banco Central aumentasse os juros da dívida em letras para 79% e vendesse mais de 350 milhões de dólares de suas reservas. Para algumas operações a futuro, nos mercados de exportação agrícola, foi estabelecido um câmbio de 70 pesos por dólar em dezembro e de até 100 pesos por dólar em março de 2020. Essas são as expectativas. O risco-país, o prêmio que a Argentina pagaria se tivesse acesso ao mercado, subiu até 2.255 pontos (22,55%) e tudo indica que a tempestade não passou. Se o Fundo Monetário Internacional, que por enquanto evita comentar o pedido de renegociação, não desembolsasse em setembro os 5,4 bilhões de dólares que planejava liberar dentro de um empréstimo global de 57 bilhões de dólares (cerca de 22,51 bilhões de reais), a situação se agravaria com consequências imprevisíveis.

Os investidores permaneceram na expectativa e começaram a elaborar planos de cautela diante das novas medidas. Muitos deles pensavam que em pouco tempo seria inevitável algum tipo de controle cambial (não muito diferente do famoso cepo implantado por Cristina Kirchner em seu segundo mandato) e prepararam rotas de fuga para suas divisas. O diferimento da dívida afastou o temido fantasma do default, ou suspensão de pagamentos, mas não dissipou completamente os temores.

A estratégia da Macri consiste em manter a maior quantidade de reservas em dólares para defender o peso. Prefere não cumprir o prazo previsto com seus credores, uma decisão arriscada se considerarmos o longo histórico de calotes da economia argentina, a sofrer novas desvalorizações que levariam a inflação, já acima de 50% ao ano, a limites insuportáveis, e tornariam impossível pagar as dívidas contraídas em dólar. Também não está claro que essa defesa do peso tenha êxito. Tampouco está claro que Macri possa acordar com o peronista Alberto Fernández, provável vencedor das próximas eleições presidenciais, o decreto de diferimento de pagamentos. Fernández guarda silêncio “para contribuir com a tranquilidade”, mas não mostra nenhum entusiasmo em apoiar Macri nas horas críticas. Depois do discurso de Macri em que o presidente falou dos 59 dias que faltavam até as eleições, Fernández fez um comentário sarcástico: “Deve estar contando os dias”, disse.

O péssimo resultado nas eleições primárias realizadas em 11 de agosto (“que não passam de uma pesquisa”, segundo Macri) desmantelou uma presidência que há mais de um ano, desde o início da crise em abril de 2018, estava quase à deriva. O que o novo ministro da Fazenda, Hernán Lacunza, fez na noite de quarta-feira foi anunciar um programa de reestruturação da dívida sem acompanhá-lo, como é de rigor nesses casos, de um plano econômico coerente. A situação do Governo, condenado a administrar o dia a dia sem outro horizonte que não seja resistir até 10 de dezembro, se refletiu em algumas passagens da mensagem que Mauricio Macri dirigiu na quinta-feira aos argentinos. “Todos os dias estamos sendo melhores, chega de resignação, não vamos deixar que a resignação derrote a esperança, se chegamos até aqui é porque escolhemos o futuro e a paz”, afirmou, em um discurso no qual enfatizou a necessidade de “alcançar a tranquilidade” e “reduzir as incertezas”. Algumas dessas frases soaram muito extemporâneas.

O Congresso reabrirá nos próximos dias para debater o decreto sobre o diferimento da dívida. Lá se verá se a oposição, com mais cadeiras do que a situação, está disposta a assumir em conjunto com o Governo o desgaste de medidas com as quais, em termos gerais e de acordo com declarações anteriores de Alberto Fernández, ele não estaria em desacordo. O que pode acontecer no Senado e na Câmara é um consenso que leve a uma transição mais ou menos tranquila de uma administração a outra, ou a um recrudescimento da batalha eleitoral que deixaria a economia do país ainda mais exposta.

Cristina, Macri e a culpa

E.G., Buenos Aires

Cristina Kirchner tenta se manter à margem do debate político argentino. Até agora desenvolveu sua campanha eleitoral em segundo plano, para reduzir o efeito divisor de sua personalidade e dar maior visibilidade a Alberto Fernández. Assistiu à crise destes últimos dias em Cuba, onde visita a filha Florencia, em tratamento médico. Mãe e filha são processadas por corrupção. A ex-presidenta, no entanto, permanece em contato permanente com os seus. Depois do anúncio da renegociação da dívida, enviou a seguinte mensagem a um membro do Instituto Pátria: “Macri passou três anos me culpando por todos os erros que seu Governo cometeu, e este ano se dedica a colocar a culpa no futuro Governo de Alberto”.