Crise Econômica mundial

Alemanha caminha para recessão e Governo prepara estímulos na economia

Riscos de guerra comercial e de Brexit sem acordo deterioram o cenário econômico mundial. Banco Central Europeu, EUA e China também já planejam medidas

Jens Weidmann, presidente do Bundesbank.
Jens Weidmann, presidente do Bundesbank.picture alliance (picture alliance via Getty Images)

Os tambores da crise começaram a ressoar. Os investidores tentam decifrar se o tam tam tam é apenas uma ameaça passageira ou o prelúdio de algo pior. O Bundesbank admitiu nesta segunda-feira que a Alemanha pode entrar em recessão a partir do terceiro trimestre. A anemia da primeira economia europeia ameaça infectar o restante do continente. Ao mesmo tempo, o comércio mundial se deteriora por causa dos riscos da guerra comercial e do Brexit. Nesse cenário, a Alemanha admite que está preparada para injetar 50 bilhões de euros (226 bilhões de reais) em sua economia e assessores do Banco Central Europeu (BCE) discutem um novo pacote de estímulo para setembro. Enquanto isso, a China e os EUA também planejam medidas para contornar a desaceleração.

Os riscos estão se materializando. O Banco Central alemão, o Bundesbank, admitiu nesta segunda-feira que o país está caminhando para uma recessão técnica — quando a economia recua por pelo menos dois trimestres consecutivos. "O desempenho da economia poderia voltar a cair levemente", admitiu a instituição presidida por Jens Weidmann em seu último boletim mensal. Nuvens escuras pairam sobre o país, cujo setor manufatureiro, especialmente a indústria automobilística, sofre uma forte ressaca. As novas restrições sobre o uso de motores a diesel, a crise de reputação nesse setor, o impacto da tensão comercial entre os EUA e a China no comércio e o medo do Brexit enfraqueceram a outrora poderosa indústria alemã, muito dependente das exportações. No último trimestre, a economia alemã já caiu um décimo (-0,1%).

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Para enfrentar o risco de recessão, os países e os bancos centrais estão preparando planos de estímulo fiscal. O Governo de coalizão de Angela Merkel planeja uma injeção de até 50 bilhões de euros para combater a perda de dinamismo da economia. Isso foi confirmado no domingo pelo ministro das Finanças alemão, Olaf Scholz, que admitiu que o Executivo poderia lançar um pacote de estímulo semelhante ao adotado durante a crise financeira de 2008. Scholz lembrou que a Alemanha tem margem fiscal para esse plano, já que sua dívida pública é de 58%, abaixo do limite de 60% fixado nas metas de estabilidade da União Europeia.

Grande incerteza

Os especialistas ainda não sabem se o que está por vir é uma tempestade de verão ou um ciclone gigantesco. "Este ano a zona do euro é o exemplo perfeito da lei de Murphy; tudo o que poderia dar errado está dando errado", diz o último relatório do Bank of America (BofA) & Merrill Lynch Global Research. Em vez de um verão tranquilo, estamos enfrentando uma tempestade perfeita com um aumento da incerteza, com dados econômicos ruins, sinais de deterioração e preocupação política em nível mundial e nacional", acrescenta a análise do banco de investimento.

À preocupação da Alemanha se somam as dúvidas da Itália. O país transalpino está estagnado depois de não ter crescido no último trimestre e também flerta com a recessão em meio a uma grande instabilidade política.

Neste contexto de queda da atividade na Europa, o ex-comissário europeu Olli Rehn sugeriu na semana passada que o BCE prepare outro plano de estímulo para a próxima reunião, em 12 de setembro. Rehn, que é o presidente do Banco Ventral da Finlândia e membro do conselho do BCE, é uma das vozes mais autorizadas da instituição. “É preferível que o BCE se exceda suas novas medidas a desapontar as expectativas do mercado", disse ele a The Wall Street Journal. Os fracos dados da inflação divulgados nesta segunda-feira pelo Eurostat dão mais razão aos planos de apoio do BCE.

China e EUA se ressentem

A economia da China também sofre com o embate comercial que o país mantém com o presidente dos EUA, Donald Trump. Para evitar que perca mais força, Pequim alterou nesta segunda-feira o instrumento com o qual determina suas taxas de juros, para ampliar o acesso de empresas e famílias ao crédito. Na prática, essa medida implica uma redução no custo dos empréstimos e se soma à injeção de dinheiro que o banco central do gigante asiático introduziu em sua economia.

As nuvens também começam a aparecer nos EUA. Os feiticeiros de Wall Street estão preocupados porque seus sinais divinos revelam que uma crise se avizinha. É assim que os especialistas interpretam o fato de que a curva da taxa de juros dos títulos se inverteu. Atrás desse tecnicismo se esconde a preferência dos investidores por títulos de longo prazo em vez dos de curto prazo porque intuem que a situação pode piorar em poucos meses. Na Casa Branca rejeitam que o país sucumbirá a uma crise. "Não vejo uma recessão", disse o principal conselheiro econômico de Trump, Larry Kudlow, na semana passada. No entanto, ele reconheceu que, se as coisas piorarem, estudará a possibilidade de uma nova redução de impostos, que seria compensada pelas tarifas obtidas dos produtos chineses.

Além disso, os principais dirigentes dos bancos centrais se reúnem esta semana em Jackson Hole (Wyoming), onde compartilharão suas impressões sobre o futuro econômico e falarão sobre os próximos planos de estímulo.

Retomada nas Bolsas

As principais bolsas de valores do mundo tiveram um dia de lucro nesta segunda-feira. O Ibex 35 cresceu 0,73% e recuperou parte do terreno perdido na semana anterior. Os aumentos em Frankfurt e Paris foram ainda maiores, 1,32% e 1,34%.

"Os investidores estão recuperando a confiança graças aos sinais de apoio lançados tanto pelos bancos centrais como por vários governos", disse ontem Felipe López-Galvez, analista do Self Bank. "Frankfurt é muito sensível às informações sobre a guerra comercial e começou a considerar um possível programa de estímulo fiscal do Governo de Merkel", acrescentou. A rentabilidade da dívida também se recupera ligeiramente porque os investidores voltaram aos mercados de renda variável.

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