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As suas plantas também vão virar ciborgues

A mistura do vegetal com o digital dá cada vez melhores resultados: plantas robotizadas, canções ao ritmo do seu metabolismo...

Audrey II, a planta carnívora de 'A Pequena Loja dos Horrores' (1986);
Audrey II, a planta carnívora de 'A Pequena Loja dos Horrores' (1986);

Elowan é um antúrio. Como os outros de sua espécie, tem folhas grossas de cor verde escura, e o que seria sua flor —que na realidade se chama espata— é rosa chiclete. Mas o corpo desta planta não termina aí. Nem sequer se completa com seu vaso de cerâmica branca. Elowan tem rodas e as dirige com prazer. O sol vem do Leste? O antúrio motorizado desliza nessa direção. Cai a tarde? Segue para o oeste.

Acontece que Elowan é um ciborgue. Tem sensores que interpretam seus sinais elétricos internos e o conduz na direção da luz. Seu criador é Harpreet Sareen, do grupo de Interfaces Fluidas do MIT Medialab. Segundo ele, a planta é "uma tentativa de demonstrar o que poderia significar o aumento da capacidade da natureza" por meio da tecnologia.

Temos outra tentativa. O Matadero Madrid, na capital espanhola, possui atualmente um jardim ciborgue completo, com propostas como as de María Castellanos e Alberto Valverde (uh513). "Por meio de sensores, medimos as oscilações elétricas das plantas conectadas, mostrando deste modo suas reações bioquímicas à presença de seres humanos, outros seres vivos e o ambiente que as rodeiam. Todas essas informações são processadas e traduzidas em vibrações, movimentos e sons, que permitirão aos cidadãos perceber as plantas por intermédio dos diferentes elementos propostos, construindo um sistema complexo e interespécie, que propicia a comunicação entre humanos e plantas", explica Castellanos.

Esses sistemas e aqueles que dão vida robótica a Elowan são o produto do que no MIT se define como "botânica ciborgue", uma disciplina que, explicam, nos permite a apropriação da capacidade natural das plantas para nossas funções de interação. Castellanos e Valverde trabalham nisso há uma década. Com Clorofila 3.0 (2009) traduziram em som as mudanças que ocorriam na planta. Em Symbiotic Interaction (2016) incorporaram interfaces corporais. The Plants Sense combinou os dois anteriores em um jardim interativo capaz de reagir ao seu entorno e compartilhar essas respostas com os visitantes, através de wearables.

Jardim biônico de María Castellanos e Alberto Valverde.
Jardim biônico de María Castellanos e Alberto Valverde.

Para o Matadero Madrid criaram outra obra que combina todas as suas pesquisas anteriores: As Plantas Também Olham para as Estrelas. Diálogos Interespecíficos para um Jardim Biônico. Sua criadora a descreve como "um sistema complexo e interespécie que promove a comunicação entre os humanos e as plantas, alcançando assim uma melhor compreensão da linguagem vegetal e, por conseguinte, da natureza, inalcançável sem a ajuda dos sistemas robóticos".

Ritmos e luzes de origem vegetal

"A arte nos permite imaginar novos mundos e nos perguntar a nós mesmos e ao público sobre diferentes futuros possíveis", pondera Castellanos. As aplicações desse futuro em que a tecnologia não só amplia o humano ao se hibridizar com ele, mas acaba se enredando com as plantas, já estão se materializando fora do mundo da expressão artística.

Se você quer saber como é o som de uma planta, não precisa ir muito longe. Graças à Internet e à equipe da gravadora Data Garden, é possível acessar um serviço de streaming exclusivo para esses sons. As melodias psicodélicas transmitidas no canal são possíveis graças ao MIDI Sprout, um dispositivo com duas sondas que medem as mudanças na corrente elétrica que percorre as folhas das plantas e as convertem em mensagens de controle legíveis para sintetizadores e computadores. O resultado pode ser usado para produzir música e até vídeo.

Dois anos atrás, Seon-Yeong Kwak, pesquisador do MIT, demonstrou a viabilidade de empregar plantas como fontes de luz, por meio de nano partículas que, uma vez integradas às folhas, faziam com que elas brilhassem. "Nosso trabalho abre as portas para a iluminação de ruas, que não terá nada mais do que árvores tratadas", disse na época Michael Strano, professor de engenharia química na mesma instituição.

Para os artistas que integram o uh513, isso está apenas começando. “Quanto mais soubermos sobre as plantas, mais saberemos sobre a natureza, e isso nos permitirá entendê-la melhor. Acreditamos que as plantas são seres vivos muito mais sensíveis que os humanos às mudanças que ocorrem no meio ambiente. Uma melhor compreensão das plantas poderia nos ajudar a antecipar essas mudanças”.

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