Adeus a ‘Orange is The New Black’, a série que mudou o mundo desde a prisão

O drama que há seis anos descobriu o potencial de 'streaming' se despede com uma última temporada que se estreou nesta sexta

Amanda Fuller e Danielle Brooks na sétima temporada de 'Orange is The New Black'. Em vídeo, o trailer da sétima e última temporada. JOJO WHILDEN | netflix

Quando, há alguns anos, a produtora de televisão Jenji Kohan cruzou com um livro sobre uma garota de Boston que passara um ano na prisão —por ter lavado dinheiro para o negócio de sua namorada— , e decidiu adaptá-lo para a televisão, não podia imaginar até que ponto ia mudar (para sempre, e para bem) a história deste meio.

Ou talvez sim. Orange is The New Black era a primeira série que se disponibilizava, logo na estreia, por completo. Ou seja, os capítulos tinham a missão de prender tanto que o espectador iria querer consumi-los um após o outro, em uma maratona de 13 horas que, àquela altura, parecia algo maluco. Em um primeiro momento, a série explodiu com sua vertente cômica do tema—era divertido ver a uma patricinha do Brooklyn entrar em uma prisão lotada de mulheres e receber umas sandálias de dedo—, mas Kohan sempre teve claro que tinha em suas mãos uma arma. E que a pretendia usá-la.

Moldada nas salas de roteiristas de séries como The Fresh Prince of Bel-air e Friends, Kohan acabava de se despedir de Weeds , e aterrissava na então (2013) ainda pouco conhecida Netflix —a única plataforma que aceitou seu show— com o livro de Kerman. Era uma história de mulheres em que as mulheres seriam de todas partes, tamanhos e tipos. Um autêntico cavalo de Troia que planejava reconstruir desde dentro o conceito da personagem feminina na televisão e, ao fazê-lo, permitir que suas espectadoras se sentissem, finalmente, representadas. Queria fazer justiça com os centenas de tipos de mulheres que Hollywood ignorava: mulheres pobres, gays, vítimas de transtornos mentais, idosas, imigrantes, negras, latinas, transexuais...

Pensemos no que ocorria em 2013. Era o ano de Mad Men e Breaking Bad. De Game of Thrones e House of Cards. Aqui, a história de amor —quase todas elas— era uma história de amor entre mulheres —e, por isso, o que ocorre entre Piper (Taylor Schilling) e Alex (Laura Prepon) nas seis primeiras temporadas é quase uma obra de arte, uma ode ao amor que não tem nada além do que este próprio amor—. E o sistema social que se dava no microcosmos da prisão imitava o macrocosmos do mundo real, mas que, mais uma vez, estava integralmente formado por mulheres, explorando assim infinitas possibilidades narrativas que até a sua última temporada permaneciam inéditas.

Aí estão, por exemplo, a amizade maternal que se dá entre Red (Kate Mulgrew) e Nicky (Natasha Lyonne), a amizade fraternal que provocou o asfixiante motim da quinta temporada (todo um tour de force estilístico que funciona como um angustiante experimento para o espectador) entre Taystee (Danielle Brooks) e Poussey (Samira Wiley), mas também o ódio mortal que se gera entre Maria Ruiz (Jessica Pimentel) e Glória Mendoza (Selenis Leyva) é portentoso e, ao mesmo tempo, compreensível em um sistema no qual se você não devora, te devoram. O ódio está por todas as partes e, quase sempre como na sociedade da qual foram apartadas, tem relação com o local de que cada uma procede. O racismo sistêmico é um dos vilões que enfrentam as personagens, sem chegar a derrotá-lo jamais, embora consigam extingui-lo por momentos, como se extinguissem às vezes um fogo que jamais deixará de arder.

Seus mais de 105 milhões de espectadores —segundo a Netflix— viram, nestes seis anos, como uma comédia por momentos hilária virava cada vez mais uma dura e explícita denúncia social, elevando a consciência sobre o sistema de prisões norte-americano e, por extensão, sobre um neoliberalismo que esquece como é fácil converter uma pessoa em um número a colocar em uma beliche cada vez menor, ao qual alimentar com uma comida que ninguém cozinha, um número que talvez nunca mais seja nada além de um número. E aqui se diria que Orange is The New Black levou ao espectador cada vez mais longe em seu desejo de transformar esses números —a base de uma maior consciência—, em pessoas de carne e osso, com batimentos cardíacos, com todos seus horripilantes defeitos, encantadoras...

A prisão de Litchfield fechará suas portas em breve —nesta sexta, estreou na Netflix seus últimos 13 últimos capítulos, nos quais Piper voltará a ser livre e a cruzar com o, sem dúvida, desagradável mundo exterior, tão ou mais contaminado pelo ódio como o que ela deixou lá dentro. Mas suas internas vão se misturar com a gente para sempre. E não só no sentido figurado. Já estão por todas partes. Natasha Lyonne é a protagonista (e diretora e autora) de um dos hits do ano, Boneca Russa. Samira Wiley é a Moira de The Handmaid's Tale. Uzo Aduba (cuja personagem Suzanne já lhe rendeu dois Emmys) está a ponto de estrear uma série na FX. Dascha Polanco (Daya Diaz) é uma das estrelas de In The Heights. A nomeação ao Tony de Danielle Brooks (Taystee) levou-a a protagonizar o musical A Cor Púrpura, na Broadway. Mas é que, além disso, Orange foi uma pedreira. Por seu seu desafio ao sistema (de dentro do próprio sistema), nesta semana, a escritora Judy Berman, a considerava a série da década. E não podemos estar mais de acordo.