Aquecimento global

Aquecimento atual é o mais universal e intenso em 2.000 anos

Períodos anteriores de frio ou calor excepcionais foram regionais ou não ocorreram em todos os lugares ao mesmo tempo, enquanto o atual afeta 98% do planeta de uma só vez

Pessoas se refrescam nas fontes dos jardins do Trocadero, em Paris.
Pessoas se refrescam nas fontes dos jardins do Trocadero, em Paris.Rafael Yaghobzadeh (AP)

Há pelo menos 2.000 anos o mundo inteiro não atravessava um período tão quente. Esse é o principal resultado de uma pesquisa que reconstruiu a evolução das temperaturas médias anuais entre os anos 1 e 2000 da nossa era. Apesar da variabilidade natural do clima, nestes dois milênios houve cinco grandes períodos, três quentes e dois predominantemente frios. Mas, segundo este estudo, os quatro anteriores tiveram um impacto continental ou não se deram em todas as regiões de forma simultânea. Apenas o atual aquecimento está afetando 98% do planeta, e de uma só vez.

Os primeiros registros oficiais das temperaturas usando termômetros só começam em meados do século XIX. São os anos em que a Revolução Industrial, com suas máquinas queimando carvão, se universaliza, assim como seu impacto. Para poder comparar, era preciso reconstruir as temperaturas do passado. Foi o que fez um grupo de cientistas recorrendo a mais de 700 registros de cinco origens muito diferentes: anéis das árvores, acúmulo mineral nos exoesqueletos dos corais, os anéis de crescimento de moluscos centenários, os sedimentos em lagos e as sucessivas capas de gelo nos polos e geleiras.

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Assim puderam estimar a evolução térmica anual desde o ano 1, tanto regional como globalmente. Mas é afastando o foco até períodos de uma ou várias décadas como vão emergindo cinco pequenas eras climáticas. Pequenas no sentido geológico do termo, não em escala humana. Por exemplo, a chamada Pequena Era Glacial se estendeu do século XIV até bem entrado o século XIX. Antes, haviam ocorrido o Período Quente Romano, que coincidiu com o esplendor de Roma, o Período Frio da Idade das Trevas (os quatro séculos posteriores) e o Ótimo Climático Medieval (de 900 a 1300, aproximadamente).

"Durante o Ótimo Medieval, a temperatura era muito similar à atual", diz Juan José Gómez, o físico do Grupo de Modelização Atmosférica Regional da Universidade de Múrcia (Espanha) e coautor do estudo. Mas esse aquecimento esteve muito localizado nas regiões continentais do norte e no Atlântico norte.

Com a Pequena Era Glacial acontece o mesmo. Até agora, os cientistas podiam discutir sua duração, sua intensidade ou quando começou. Mas ninguém negava seu caráter universal. Entretanto, este trabalho, publicado na revista Nature gradua essa universalidade. Os anos mais frios do período não ocorreram ao mesmo tempo em todas as partes: o mínimo na maior parte do Pacífico foi no século XV, no noroeste da Europa e em boa parte da América do Norte se deu no XVII, e só chegou ao resto do planeta no XIX.

"Sim, houve uma era glacial, mas em momentos diferentes", comenta Gómez. "Essa falta de coerência se repete nos diversos períodos climáticos do passado: houve regiões mais frias (ou quentes) que outras, mas o esfriamento/aquecimento não aconteceu em todas as partes de uma só vez", acrescenta este físico que lidera um projeto para jovens cientistas da Fundação Séneca.

Os anos mais frios da Pequena Era Glacial ocorreram em épocas diferentes em cada continente

Entre os fatores que influem no surgimento e manutenção de um período quente ou frio se destacam a atividade solar e o vulcanismo. A Pequena Era Glacial, por exemplo, estaria relacionada a uma série de mínimos de manchas solares. Erupções vulcânicas como a dos montes Pinatubo (Filipinas) e Eldgjá (Islândia) reduziram a temperatura média global em 0,3o C no caso da primeira e em até 2o C a segunda, embora só no Hemisfério Norte. Mas, para Gómez, a variabilidade natural não é capaz de explicar o que está acontecendo desde o século XX.

"O aquecimento atual é globalmente sincrônico: o período mais quente de 51 anos dos últimos 2000 anos ocorreu durante o século XX em mais de 98% do planeta", recorda por e-mail Raphael Neukom, principal autor do estudo. "As taxas de aquecimento durante os tempos pré-industriais foram de aproximadamente 0,6o C por século, atualmente a taxa de aquecimento é de ao redor de 1,7o C. Isto é muito mais do que poderíamos esperar só pela variabilidade natural", acrescenta este pesquisador do Centro Oeschger para a Pesquisa da Mudança Climática da Universidade de Berna (Suíça).

Só a Antártida vinha escapando do aquecimento global. Os últimos estudos mostram, entretanto, que está perdendo gelo desde o começo deste século.
Só a Antártida vinha escapando do aquecimento global. Os últimos estudos mostram, entretanto, que está perdendo gelo desde o começo deste século.Luis Almodóvar

O estudo mostra, de fato, que os 10 últimos anos do século XX, os 30 últimos e os 50 últimos estão entre os mais quentes desde ano 1. E este aquecimento ocorre simultaneamente na Amazônia, na Europa Central, no longínquo Ártico e no Sudeste Asiático: 98% da superfície do planeta sofre o aquecimento, ficando à margem só a Antártida. Algo, aliás, que os últimos estudos, com dados posteriores a 2000, também começou a se questionar.

“O clima de hoje se distingue por sua tórrida sincronia global”

Em um comentário também publicado pela Nature, o paleoclimatologista Scott St. George, da Universidade de Minnesota (EUA), escreve que "a conhecida máxima de que o clima está sempre mudando é bem certa. Mas inclusive quando ampliamos nossa perspectiva até os primeiros dias do Império Romano, não vemos nenhum evento que seja nem remotamente parecido, seja em grau ou extensão, com o aquecimento das últimas décadas. O clima de hoje se distingue por sua tórrida sincronia global".

Embora os autores não se dediquem a identificar as causas dessa mudança global, tudo aponta para as atividades humanas. "Esta pesquisa deveria calar de uma vez os negacionistas climáticos que mantêm que o atual aquecimento faz parte de um ciclo climático natural", diz o professor de climatologia Mark Maslin, do University College de Londres, que acrescenta: "Este trabalho mostra a crua diferença entre as mudanças regionais e localizadas do clima do passado e o verdadeiro efeito global das emissões antropogênicas de gases de efeito estufa".

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