Cúpula do G20 no Japão

Guerra comercial entre China e EUA monopoliza o G20

Secretário do Tesouro dos EUA considera que “90% do caminho” para um acordo entre as duas potências já foi percorrido

Aposentadas japonesas dançam nas ruas da Osaka, Japão, para recepcionar os líderes do G20.
Aposentadas japonesas dançam nas ruas da Osaka, Japão, para recepcionar os líderes do G20.JORGE SILVA (REUTERS)

As bandeirolas já estão penduradas no aeroporto de Osaka, no Japão. As hostesses esperam, sorridentes. O aparato de segurança está a postos. O presidente francês, Emmanuel Macron, foi o primeiro a chegar. Tudo está preparado para a 14ª cúpula do G-20, as economias que reúnem 85% da riqueza mundial. Um evento que, segundo o secretário do Tesouro dos EUA, Steven Mnuchin, será “muito importante”, mas cujo ato principal, para o qual todos esses olhares estarão voltados, será uma reunião fora do programa: a dos presidentes dos EUA, Donald Trump, e da China, Xi Jinping, para tentar resolver uma guerra comercial e tecnológica mútua que ameaça arrastar consigo toda a economia global.

Mnuchin disse à rede de televisão CNBC nesta quarta-feira, dois dias antes do tiro oficial de largada da cúpula, que Pequim e Washington já têm “quase 90% do caminho” percorrido na direção de um possível acordo entre Washington e Pequim. “Acredito que haja uma via para completá-lo”, acrescentou. “A mensagem que queremos ouvir é que eles querem retornar à mesa de negociações e continuar. Acredito que se apresenta um bom resultado para sua economia e para a nossa, para conseguir um comércio equilibrado e continuar desenvolvendo esta relação”, afirmou Mnuchin.

As conversações foram interrompidas em maio passado, quando tudo parecia apontar para um acordo entre as duas maiores economias mundiais, por causa de desacordos fundamentais entre os dois governos, mas as palavras de Mnuchin, um dos principais negociadores nesse processo, abrem um novo otimismo sobre a possibilidade de que os dois presidentes possam chegar a algum tipo de entente cordial em Osaka. Os dois governos confirmaram que Trump e Xi têm uma reunião marcada, a primeira em mais de seis meses. Provavelmente ocorra no sábado, após os encontros multilaterais.

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Nos últimos dias, e depois de quase dois meses de deterioração contínua na relação, ressurgiram os sinais para o otimismo. Haviam transcorrido quase oito semanas em que Washington acusava Pequim de ter renegado compromissos previamente assumidos de reformar suas leis e permitir a concorrência em igualdade de condições no mercado chinês. O Governo de Xi Jinping, por sua vez, acusava Washington de perseguição e de exigir termos que ameaçavam sua soberania nacional.

Mas os dois presidentes conversaram por telefone na semana passada, num indício de que nenhum dos dois países quer ver uma deterioração ainda maior nas relações. Os negociadores-chefes das duas capitais, o vice-premiê chinês Liu Hei, Mnuchin e o representante de Comércio Exterior dos EUA, Robert Lighthizer, conversaram por telefone ainda nesta semana.

A Trump não convém manter uma briga prolongada com Pequim, agora que lançou sua campanha para a reeleição em 2020. Depois de os dois países elevarem mutuamente suas tarifas, em maio – sobre mercadorias num valor de 200 bilhões de dólares no caso dos EUA, e 60 bilhões no caso da China –, o setor agrícola e os Estados tradicionalmente eleitores dos republicanos começaram a sentir os efeitos. As pesquisas não vão tão bem quanto o antigo magnata da construção esperava. E ele tem pressa, especialmente com outras frentes não só abertas, como as da Síria e Coreia do Norte, como também em carne viva, como o do Irã.

Xi, por sua vez, tampouco necessita agora de um confronto comercial ou tecnológico que possa afetar o bom andamento da sua economia e a geração de emprego. Conforme disse na conversa da semana passada com Trump, citada pela agência oficial chinesa Xinhua, “a cooperação é algo que interessa tanto à China como aos EUA, ao passo que o confronto prejudica a ambos”.

Nenhuma das partes está inclinada a fazer gestos muito substanciais. Nem Trump quer aparecer como brando com a China perante seu eleitorado, nem Xi aceitaria ter de recuar frente a Washington depois de caracterizar a ruptura das negociações como um passo necessário para defender sua soberania.

A China, pela boca do vice-ministro de Comércio Wang Shouwen, expressou nesta segunda-feira em uma entrevista coletiva em Pequim sua intenção de fazer concessões – não especificou quais –, desde que sejam correspondidas.

O influente blog Notas de Taoran, do jornal China Economy Daily, disponível na rede social Weixin, insiste em que “algumas pessoas” nos EUA não entendem a determinação da China em manter sua posição. “Se o lado norte-americano não mudar sua maneira de pensar e seus métodos, então tudo o que ocorrerá nos assuntos comerciais entre os EUA e a China será que continuará o intercâmbio de pontos de vista e a manutenção das posições, e não haverá progressos”.

Apesar do otimismo de Mnuchin, a maioria dos analistas considera como resultado mais provável que Xi e Trump não fechem um acordo e se limitem a pactuar uma mera trégua, similar à adotada na cúpula anterior do G20 em Buenos Aires, quando acordaram um prazo de três meses para negociar antes de se imporem mutuamente novas tarifas.

Segundo o presidente do Conselho Empresarial China-EUA, Craig Allen, “o problema é que não há tempo suficiente para negociar um acordo completo, só para tratar dos próximos passos sobre como, quando, onde e por que voltar à mesa de negociações”.

Mas é possível, talvez, que os dois líderes cheguem a algum acordo sobre a Huawei, a joia da coroa tecnológica chinesa, ameaçada de sofrer um embargo tecnológico de Washington a partir de 19 de agosto, por alegadas razões de segurança nacional.

Uma repetição de Buenos Aires seria o mais provável, observa Matthew Goodman, do Centro de Estudos Estratégicos Internacionais (CSIS, na sigla em inglês) em Washington. “Os dois líderes se reuniram, concordaram que tinham que retomar algum tipo de conversações comerciais e encarregaram seus ministros de Comércio de apresentarem um acordo em determinado prazo”.

Qualquer que seja o acordo resultado, “não resolverá os problemas imediatos”, acredita Goodman. Tampouco os de fundo. São muito amplas as “profundas diferenças estruturais”. Mas, se não obtiverem coisas mais tangíveis, as duas partes vão ganhar algo que querem: tempo.