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Dois crimes sórdidos alimentam a polarização política nas redes sociais

Morte do ator Rafael Miguel por disparos feitos pelo sogro e assassinato de criança por mãe e a companheira dela têm sido usados para reforçar pautas de direita e de esquerda

Familiares e amigos acompanham o sepultamento dos corpos do ator Rafael Henrique Miguel e de seus pais, João Alcisio Miguel e Miriam Selma Miguel, na zona sul de São Paulo.
Familiares e amigos acompanham o sepultamento dos corpos do ator Rafael Henrique Miguel e de seus pais, João Alcisio Miguel e Miriam Selma Miguel, na zona sul de São Paulo. ESTADÃO CONTEÚDO/SIGMAPRESS

Em um Brasil que permanece polarizado mesmo sete meses após as eleições presidenciais, nem mesmo os casos graves de violência — que costumam comover todo o país — têm escapado de sucumbir ao centro da disputa de narrativas ideológica travada principalmente na Internet. Nos últimos dez dias, pelo menos dois crimes foram repercutidos por políticos e ativistas em seus perfis nas redes sociais para alimentar bandeiras de direita e de esquerda. De um lado, o assassinato do ator Rafael Miguel por tiros supostamente disparados pelo sogro rapidamente se tornou argumento contra a política de liberação de armas do Governo Bolsonaro. Do outro, o assassinato do menino Rhuan — cuja própria mãe é acusada de esquartejar seu corpo e amputar seu pênis — chegou a ser associado à "ideologia de gênero" pelo deputado Eduardo Bolsonaro.

Rosana Auri da Silva Candido está sendo investigada por matar e esquartejar o filho Rhuan Maycon junto com a companheira Kacyla Priscyla Santiago Damasceno Pessoa. Elas admitiram terem praticado o crime na noite do dia 31 de maio, no Distrito Federal, enquanto a criança estava dormindo, e teriam tentado queimar as partes do corpo em uma churrasqueira da residência, onde também vivia a irmã de criação de Rhuan, de oito anos. A Polícia ainda investiga as causas do assassinato e trabalha com a hipótese de que as duas mulheres teriam matado a criança "para cortar gastos" após o corte da pensão paga pelo pai do garoto. As acusadas contaram ao Conselho Tutelar que, cerca de um ano antes do crime, Rhuan teve o pênis cortado por elas em um procedimento feito em casa porque o menino teria dito que queria ser uma garota.

O caso ganhou ampla repercussão nas redes sociais dos eleitores de Bolsonaro, que usaram o crime para criticar políticas de diversidade de gênero. Em um vídeo de pouco mais de dois minutos, o filho do presidente Jair Bolsonaro, Eduardo, comparou o espaço dado a este crime pela mídia ao tratamento aos crimes envolvendo as famílias Nardoni e Von Richthofen. "Não está tendo a mesma repercussão na imprensa, por quê? Por que um ano antes, a mãe do Rhuan e sua companheira acabaram fazendo uma cirurgia caseira de mudança de sexo, isso nas palavras dela. Ele foi bizarramente assassinado, esquartejado, mas esse crime parece que não está ecoando tanto na imprensa", criticou. "Se você puxar um pouquinho, se raciocinar um pouquinho, você vai conseguir conectar esse caso à ideologia de gênero. Ou você não consegue conectar essa amputação de pênis com nenhum projeto da deputada Erika Kokay [PT] e Jean Willys [PSOL]?”, disparou o deputado contra dois políticos opositores de sua família.

Eduardo Bolsonaro se referia a um projeto de lei em tramitação na Câmara dos Deputados que estabelece o direito à identidade de gênero definida como cada um sente e não necessariamente ao sexo de nascimento. O projeto não dispõe especificamente sobre crianças, mas foi relacionado ao caso Rhuan pelo parlamentar para criticar as políticas de identidade de gênero, uma pauta que costuma ser atribuída à esquerda e à qual o clã Bolsonaro historicamente tem se colocado contra. O vídeo do deputado do PSL rapidamente passou a ser replicado em perfis e canais de direita nas redes sociais, dando corpo a uma narrativa contra o que eles chamam de "ideologia de gênero".

"O que é prejudicial não é repercutir um caso como este, mas usá-lo como centro do debate sobre as políticas públicas. Não dá pra planejar uma política efetiva com base em casos individuais", diz o sociólogo Ignácio Cano, professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Segundo ele, usar casos de repercussão na disputa de narrativas ideológicas cumprem mais uma função retórica e ignoram estudos e comprovações científicas para de fato debater ações que possam evitar esses crimes e melhorar a segurança. "Há um disparo de mensagens em massa em que o importante é o número de likes, em como (a narrativa) reflete nas redes sociais e conquista a opinião pública. Isso evidencia muito mais essa disputa pela narrativa ideológica do que gera impacto sobre alguma política pública", afirma.

Cano diz que esta é uma estratégia que tem sido amplamente utilizada no espectro da extrema direita, mas que também é uma estratégia pontual de lideranças mais alinhadas ideologicamente à esquerda. "Grupos políticos acusam o inimigo de ideologização e tudo que fazem é profundamente ideológico. Fatos como esses são usados para alavancar a ideologia quando interessa", analisa. Um exemplo disso é o uso de outro crime grave para combater a política de armas do presidente Bolsonaro.

O ator Rafael Miguel, que interpretou o personagem Paçoca no último remake da novela Chiquititas, estava com os pais João Alcisio Miguel e Miriam Selma Miguel próximo ao portão da casa da namorada, na zona Sul de São Paulo, quando foi surpreendido por disparos feitos pelo sogro, Paulo Cupertino Matias. Eles haviam ido até o local na tarde do último domingo para conversar com a família dela sobre o relacionamento dos dois, que não seria aceito por Matias. Ao encontrá-los conversando com sua esposa, Matias começou a atirar sem dizer nenhuma palavra, informa o boletim de ocorrência registrado na polícia. Rafael e os pais morreram no local. O autor dos disparos (que já tinha passagem pela polícia por roubo, lesão corporal e ameaça) fugiu após o crime e ainda segue foragido.

Não demorou para que o caso ganhasse uma robusta repercussão nas redes sociais. Nas postagens, internautas apoiavam-se neste crime para criticar a política de liberação de armas defendida pelo presidente ultradireitista Jair Bolsonaro, antes mesmo de saber mais detalhes do crime ou a procedência da arma. "Não é todo mundo que tem estrutura emocional para ter uma arma em casa", comentou um usuário do Twitter. "Ainda tem gente que defende a liberação de armamento pesado para a população. O povo está perdendo a noção", opinava outro internauta, entre dezenas de postagens que em geral traziam a preocupação de casos como este. Neste caso específico, especialistas apontam que armar a população não garante redução da violência.

Para o sociólogo Ignácio Cano, o problema é que essa guerra de narrativas ideológicas que colocam casos isolados no centro do debate encontra um contexto no Brasil, mas também em outros países, de se implementar políticas públicas mais baseadas nos "achismos" e nas posições individuais do que propriamente em estudos e pesquisas que apontem a probabilidade de eficácia das medidas. "Trump, nos Estados Unidos, também segue essa lógica quando se posiciona sobre os imigrantes. São ditas coisas que nunca chegam a ser cientificamente demonstradas. Você tem autoridades públicas com um discurso que não tem nada a ver com as burocracias do estado. O importante é se você concorda ou não com determinada política", explica. Para ele, esse tipo de estratégia, na qual se coloca casos de grande repercussão no centro do debate de políticas públicas, tem função muito mais de retórica ideológica do que de contribuir de fato para ações construtivas na área de segurança, diz.

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