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TRIBUNA i

Jazz não, por favor… Somos brasileiros

O 'Rio Montreux Jazz Festival' começa nesta quinta-feira com uma lista de atrações artisticamente questionável, em que o jazz brilha por sua ausência

O músico brasileiro Hermeto Pascoal é uma das atrações do festival
O músico brasileiro Hermeto Pascoal é uma das atrações do festival

Ele é vendido como “o maior festival de jazz do mundo”. Um exagero, claro. “Quando pensamos no Rio Montreux Jazz Festival”, diz Marco Mazzola, diretor artístico do evento, “decidimos seguir as tradições do Festival na Suíça, trazendo toda a essência e o conceito de lá para cá”. Dito e feito: o primeiro Rio Montreux Jazz Festival começa nesta quinta-feira, 6 de junho, com as apresentações de Amaro Freitas, do Quarteto Jobim e Maria Rita interpretando, supõe-se, as faixas do clássico Elis & Tom (1974); e o violonista de heavy metal de amplo espectro Steve Vai. Serão 4 dias de shows distribuídos em três palcos – batizados de Ary Barroso, Tom Jobim e Villa-Lobos – erguidos no espaço Pier Mauá, e vários outros espalhados pela cidade. Entre as atuações gratuitas e pagas serão mais de 40 atrações.

O evento, de dimensões desconhecidas no país, conta com um amplo elenco de patrocínios privados através da Lei de Incentivo à Cultura do Governo Federal e do Ministério da Cidadania, com apoio institucional do Governo do Estado do Rio de Janeiro, através da Secretária de Cultura e Economia. A pergunta do internauta – “o que o Ministério da Cidadania tem a ver com um festival de jazz?” – é respondida pelo secretário estadual de Cultura do Rio, Ruan Lira: “O festival vai totalmente na linha de raciocínio do Governo, que é o de botar o Rio num corredor cultural internacional”.

Frente a isso está a realidade de uma lista de atrações artisticamente questionável, em que o jazz brilha por seu ausência, a não ser que consideremos como jazz, por exemplo, a música de Frejat, ex-parceiro de Cazuza no Barão Vermelho, em seu encontro com a cantora Pitty e Zeca Baleiro. Porque, no RMJF, será possível escutar de tudo – como a cantora de soft soul & RB Corinne Bailey Rae, que se diz muito contente de participar do evento: “Adoro tocar em festivais de jazz! Eles são realmente diversificados hoje em dia, sempre tem algo de pop, de hip-hop, de soul...”

“Diversificação” é a palavra.

Montreux: crônica de uma deserção

Começando pelo princípio. Claude Nobs, um funcionário com iniciativa ligado ao setor do turismo, organizou em 1967 o primeiro festival de Jazz de Montreux, com a presença, entre outros, do saxofonista Charles Lloyd.

Os dois primeiros anos foram de calma. Montreux oferecia um jazz de qualidade ao gosto da maioria, em um cenário simplesmente idílico (o cassino dessa cidade suíça), e o plus de uma produção esmerada. Até que, em 1969, Nobbs recebeu o chamado de Deus: “Por que não incluir um show do Deep Purple entre uma coisa e outra?”. As plácidas águas do lago Leman tremeram: heavy metal e jazz?... E por que não?

Durante um tempo, Nobs conseguiria manter o frágil equilíbrio entre as propostas jazzísticas mainstream e o resto. Foram os anos de glória do festival, transformado em vitrine da música popular brasileira no exterior, por obra e graça do próprio Marco Mazzola; o espaço para os encontros improváveis, uma janela aberta para o mundo… “Todas as músicas têm lugar em Montreux” proclamava Nobs, orgulhoso. Todas, menos o jazz. De modo que Montreux terminaria virando o modelo a seguir para os tantos festivais ecléticos que começaram a proliferar pelo continente europeu: o primeiro festival de jazz sem jazz da história, mas quem precisa de jazz podendo ter Elton John, David Bowie, Queens of the Stone Age, The Chemical Brothers…?

Hoje, a marca “Montreux Jazz” conta com franquias abertas em Tóquio, Detroit, Singapura, Marrakesh e Abu Dabi, o que diz muito sobre o afinado faro comercial de Mathieu Jaton, o sucessor de Nobs, morto enquanto esquiava em 2013. “Como acontece na maioria dos casos de festivais gringos que anunciam uma edição por aqui, vende-se uma marca, mas o conteúdo e a experiência são bem diferentes”, escreve Franklin Costa, autointitulado especialista em festivais, no seu site.

A miragem de um ‘jazz brasileiro’

A questão surge inevitavelmente: é desse festival que o Brasil e o Rio realmente precisam? Francamente, é de se duvidar.

O que se vê no país é uma oferta jazzística fossilizada e autorreferente, marcada por uma dependência doentia em relação aos EUA, e, em muitos sentidos, notoriamente deficiente (daí a lista praticamente inexistentes de casas de jazz dignas desse nome no Rio e em São Paulo). As exceções cabem nos dedos de uma mão. “Aqui, quem faz algo diferente paga por isso”, bradava um irritado Hermeto Pascoal alguns anos atrás, logo antes de completar 80. Sinal disso é que a recente passagem por Rio e São Paulo do quinteto Atomic, máximo expoente do efervescente free jazz nórdico, foi olimpicamente ignorada pela mídia local, em comparação ao aparato que cercou as atuações do simpático e previsível Ron Carter.

E, de fato, o programa do primeiro RMJF oferece um amplo leque de velhas glórias do jazz fusion, algumas decadentes – como Stanley Clarke, Al Di Meola –, outras nem tanto – John Scofield, junto com a repetição do encontro entre o cubano Chucho Valdés e Ivan Lins (com disco gravado em Havana no ano de 1996). Não parece muito para a ambição de fazer do Rio um “corredor cultural internacional”. “Reunir um monte de artistas da velha guarda para embalá-los como o Montreux Jazz Festival do Brasil”, diz Franklin Costa, “é reduzir demais o papel do jazz e também do que o festival poderia entregar”.

Mais interessante, a representação brasileira inclui um número variado de propostas não exatamente alternativas, mas razoavelmente estimulantes, cuja relação com o jazz é apenas circunstancial. Ironia do destino, para ouvir o jovem porta-estandarte do jazz carioca, o pianista Jonathan Ferr, será preciso ir ao próximo Rock in Rio.

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