72º Festival de Cannes

Brasileiro Karim Aïnouz ganha mostra Um Certo Olhar em Cannes

‘A Vida Invisível de Eurídice Gusmão’ conquista o prêmio principal do júri na competição paralela

Karim Ainouz entre Julia Stockler e Carol Duarte, que atuam em 'A Vida Invisível de Eurídice Gusmão'.
Karim Ainouz entre Julia Stockler e Carol Duarte, que atuam em 'A Vida Invisível de Eurídice Gusmão'.STEPHANE MAHE (REUTERS)

A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, do cearense Karim Aïnouz, conquistou o prêmio principal da mostra Um Certo Olhar, competição paralela do Festival de Cannes. É a primeira vez que um filme brasileiro ganha essa competição, a segunda mais importante do festival. "É importante que este prêmio de fato possa servir para incentivar o futuro do cinema brasileiro, a diversidade da cultura brasileira", disse o cineasta após a premiação. "E que a gente tenha um Brasil melhor que o que a gente tem agora. Queria dedicar especialmente a minha amada Fernanda Montenegro e para todas as mulheres do mundo", completou, fazendo menção à atriz que faz uma breve participação no filme.

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Aïnouz conta a história de Eurídice e Guida, duas irmãs de personalidades distintas que sofrem na sociedade machista da década de 1950 no Brasil. A história é baseada no livro homônimo de Martha Batalha. Aïnouz é famoso por filmes como Madame Satã (2002), O céu de Suely (2006) e Praia do futuro (2014). Foi o grande nome da noite de sexta-feira em Cannes, mas a mostra paralela distribuiu menções especiais aos outros competidores.  Os espanhóis Oliver Laxe e Albert Serra conseguiram dois dos prêmios concedidos pelo júri presidido pela cineasta libanesa Nadine Labaki. O filme O Que Arde, de Laxe, levou o Prêmio do Júri, e Liberté, de Albert Serra, um Especial do Júri.

O prêmio de melhor interpretação foi para Chiara Mastroianni (por Chambre 212), o de melhor direção ficou com Kantemir Bagalov (o diretor de Tesnota), por Beanpole. Além disso, o júri — do qual também faziam parte o diretor argentino Lisandro Alonso, a atriz francesa Marina Foïs, o diretor belga Lukas Dhont e o produtor alemão Nurhan Sekerci-Porst — decidiu outorgar outros três troféus: a La Femme de Mon Frère, de Monia Chokri; The Climb, de Michael Angelo Covino, e Jeanne, de Bruno Dumont. O júri de Um Certo Olhar só tem a obrigação de dar o prêmio ao melhor filme, os demais são por iniciativa própria.

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De acordo com a ordem com que o júri anunciou a lista de vencedores, o filme do espanhol Laxe foi considerado o segundo melhor da mostra e o de Serra, o terceiro. Há alguns dias, o cineasta galego explicou que a obra representava seu regresso a casa, para a Galícia, depois de 10 anos vivendo no Marrocos. "É a minha casa e ao mesmo tempo não é, porque um cineasta é sempre um estrangeiro, ele deve manter uma distância para filmar".

Com O Que Arde, Laxe conquista mais um prêmio no festival francês: com seu primeiro filme, Todos Vosotros Sois Capitanes (2010), levou um dos prêmios Fipresci da crítica internacional. Com o segundo, Mimosas (2016), ganhou o Grande Prêmio da Semana da Crítica. No filme o diretor conta a volta para casa, depois de cumprir sua sentença, de Amador, um piromaníaco que, como dizem ao seu lado, "quase queima meia Lugo". Em sua cidade é esperado por Benedita, sua mãe, tão velha quanto cheia de energia. A já complexa inclusão de Amador se agrava quando irrompe um novo incêndio. O Que Arde tem um poder visual exuberante e um som, tanto o do ambiente como da música, muito cuidadoso. "Não justifico o piromaníaco, mas acho que há mundos difíceis, que temos de cortar a cadeia da dor. Por isso não há dialética, o telespectador tentará entender todos", disse o diretor.

Liberté descreve uma noite em uma floresta europeia do século XVIII onde os iluminados expulsos da corte de Luís XVI estão envolvidos com o cruising (sexo em locais públicos). "Na verdade, o que eles dizem é mais transgressivo do que o que se vê”, dizia Serra em sua promoção em Cannes. O filme desenvolve uma ideia que ele apontou na instalação Personalien, em fevereiro, no Reina Sofía. "Gosto mais do filme do que da instalação, porque é mais duro. Se em Personalien havia prazer culpado por parte do espectador, e você participava um pouco disso, aqui em Liberté a frontalidade da tela leva à alteridade com os personagens. E eu pude contar um pouco mais dessa evolução histórica, que conduzi até o trash”, afirmou na ocasião.

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