Um Governo que dissemina pânico entre quem produz pesquisa no Brasil

Alastra-se o temor de que o corte das bolsas se estenda em breve àquelas já concedidas. Tudo é incerto

Estudantes de escolas públicas protestam no Rio de Janeiro no dia 6 de maio.
Estudantes de escolas públicas protestam no Rio de Janeiro no dia 6 de maio.Silvia Izquierdo (AP)

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Desde o anúncio do corte de bolsas futuras de pesquisa pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), na semana passada, a medida já tem gerado seus efeitos pretendidos. O congelamento de mais de 3.000 bolsas foi eficaz em elevar o tom do pânico patrocinado pela atual administração federal em relação à produção acadêmica do conhecimento no Brasil.

A promessa de enxugar gastos em diversos ministérios poderia até soar atraente, mas merece desconfiança quando firmada por autoridades que se esforçam mal ao disfarçar a existência de viés ideológico no anúncio sobre o corte de repasse a apenas determinadas universidades, como a UnB, a UFF e a UFBA.

Tem sido devastador acompanhar relatos de amigos que perderam renovação de bolsas de pós-doutorado. Amigos que se desdobravam para manter suas pesquisas enquanto esperavam por bolsas de mestrado e doutorado que seriam concedidas em breve e que foram informados de que não há mais bolsas.

Apenas no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade de São Paulo, onde realizo o doutorado, houve o corte de nove bolsas da noite para o dia. São projetos de uma vida, daqueles que conheço de perto, dentre colegas negros e indígenas que finamente haviam conseguido chegar à USP por meio de políticas de inclusão. Soube há pouco que foram recuperadas graças à rápida ação do Programa e de sua secretaria. Isto porque, como em grande parte dos casos, não são “bolsas ociosas”, ao contrário de como foram classificadas pelo Ministério da Educação, pois aguardavam os trâmites burocráticos para serem transmitidas a novos ingressantes assim que os atuais beneficiários concluíssem suas pesquisas.

Alastra-se o temor de que o corte das bolsas se estenda em breve àquelas já concedidas. Tudo é incerto. A vagueza das declarações oficiais a e inexistência de indicadores de impacto das ações tomadas incide negativamente no debate público, substituindo fatos e dados por bravatas. Até agora, não houve qualquer esclarecimento sobre quais atividades desenvolvidas nas universidades são entendidas como “balbúrdia” pelo Ministro da Educação.

Caso ocorra um apagão geral na pós-graduação brasileira, isso tiraria o sustento, na mesmo momento, de cerca de 200.000 pesquisadores e pesquisadoras. Chegam aos montes os anúncios de freelas e bicos vindos de amigos com mais de 10 anos de dedicação à pesquisa e à docência. Em algumas universidades, o cenário é ainda mais sensível. Desde a semana passada as aulas noturnas foram suspensas na UFBA, pois não se pode garantir o pagamento do salário dos seguranças.

O que era ameaça se concretizou. O aumento de debates sobre depressão e suicídio na pós-graduação é apenas parte das consequências do sufocamento da atividade de pesquisa e docência superior. A evasão de graduandos e pós-graduandos em 2019 ainda está para ser mensurada. Entre futuros estudantes de ciências humanas e sociais aplicadas cresce o receio de obter um diploma que o habilitará a uma profissão que já virou ou pode virar alvo de ataques do presidente da República. Pesquisas na área da saúde, como vacinas para o vírus Zika, podem ser interrompidas já no mês que vem caso o cenário não seja revertido.

Para o Ministério incumbido de zelar pela educação brasileira, nós profissionais do ensino e da pesquisa somos todos custos contingenciados sem previsão. Nossa resposta contra o desmonte da ciência brasileira se dará nas ruas, longe das salas, núcleos e laboratórios. Caso contrário, logo não sobrarão nem seus tijolos.

Lucas Bulgarelli é bacharel em direito (USP), mestre e doutorando em Antropologia Social (USP).