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Macri se rende ao populismo econômico em ano eleitoral

Presidente argentino anuncia plano de controle de preços para aliviar a crise de seu Governo

O presidente Mauricio Macri, em março, durante ato público na província de Jujuy (norte).
O presidente Mauricio Macri, em março, durante ato público na província de Jujuy (norte).

Mauricio Macri dispara seus últimos cartuchos. Tendo de enfrentar uma inflação que está deixando seu Governo nas cordas, o presidente argentino anunciou um plano para congelar preços e tarifas que se parece muito com o que ele prometeu que nunca faria: a intervenção nos mercados, tradicionalmente associada com o peronismo e o populismo. Segundo Macri, trata-se de "promover alívio a curto prazo" para uma população asfixiada pela recessão e pelo aumento dos preços. Não é difícil deduzir que o plano, estabelecido por seis meses, ou seja, até as eleições presidenciais de outubro, também visa melhorar suas chances de permanecer no cargo.

Esperava-se um discurso ou algum tipo de intervenção solene, talvez na companhia de um grupo de governadores provinciais. Mas o que os argentinos viram foi um vídeo de propaganda que a Casa Rosada postou no Facebook. Jaime Durán Barba, o equatoriano que administra a estratégia eleitoral de Macri, planejou uma reunião entre o presidente e uma família do bairro Colegiales, de Buenos Aires. "Temos que passar pela tempestade", diz Macri no vídeo. "Todos nós precisamos de um alívio", acrescenta, um plano de contenção de preços "até que as medidas básicas comecem a funcionar". A dona de casa, com a filha nos braços, responde: "Precisávamos ouvir algo assim". A maioria dos cidadãos talvez tivesse feito um comentário menos complacente.

Depois que o vídeo foi transmitido, os ministros Nicolás Dujovne (Fazenda), Dante Sica (Produção e Trabalho) e Carolina Stanley (Desenvolvimento Social) apresentaram os detalhes do programa. Consiste, de acordo com Dujovne, em um "acordo de cavalheiros" com produtores e distribuidores para congelar por seis meses os preços de dezenas de produtos básicos, como óleo de cozinha, farinha, macarrão, arroz, leite, açúcar, conservas e erva-mate, bem como as tarifas de eletricidade e gás, as passagens do transporte público e os cartões do celular pré-pago. O Estado assumirá os aumentos tarifários previamente acordados com as empresas de eletricidade, o que implicará um custo para o Tesouro de cerca de 9 bilhões de pesos (cerca de 815 milhões de reais).

Preparam-se também medidas complementares, tais como descontos em lojas para 18 milhões de beneficiários da ajuda da Seguridade Social (Anses), reduções no preço dos medicamentos para cerca de cinco milhões de pessoas em situação de pobreza, ajuda às pequenas empresas para o pagamento de dívidas tributárias e um modesto plano de subsídio para a compra da primeira casa que beneficiaria cerca de 10.000 famílias. Os ministros indicaram que não estão apenas tentando aliviar a situação econômica dramática da sociedade argentina, mas reativar um consumo que está afundando: em março, caiu 8,9%.

As empresas concordaram em controlar certos preços por diferentes razões. Principalmente, porque preferem respaldar Macri ao invés de assumir o risco do retorno de Cristina Kirchner. Vários já aplicaram previamente aumentos que lhes permitirão resistir bem ao congelamento. Nenhum dirigente deixou de perceber que a intervenção do Governo nos preços, embora disfarçada de "acordo de cavalheiros", cheira precisamente a kirchnerismo e manobra quase desesperada. Há um ano, pouco antes do início da crise, a reeleição de Mauricio Macri parecia quase garantida. Agora é muito duvidosa, mesmo sem se saber ainda quem ou quais serão seus rivais peronistas em outubro.

O Governo Macri insiste que está trabalhando para o futuro, que as medidas macroeconômicas vão acabar dando frutos e que o plano de controle de preços não é nada mais do que uma ponte para uma situação estável no final do ano. O inquilino da Casa Rosada sofre, no entanto, de um problema de credibilidade. Macri chegou à presidência garantindo que o controle da inflação, que atormentou Cristina Kirchner no final de seu mandato, seria "fácil". Agora, admite que é muito difícil.

O homem que se gabava de gestão econômica viu a economia estourar em suas mãos e agora depende do Fundo Monetário Internacional, que emprestou 57 bilhões de dólares (cerca de 220 bilhões de reais) ao país e mostrou uma benevolência incomum, mas também impõe medidas de austeridade que levaram a uma recessão profunda: a economia argentina se contraiu 3,5% em 2018 e não irá muito melhor este ano.

O chefe do Gabinete Macri, Marcos Peña, repete de vez em quando que Cristina Kirchner será a rival peronista em outubro e que a rejeição a ela conduzirá à reeleição de seu chefe. As coisas não são tão claras. Kirchner ainda não entrou na corrida. E as pesquisas atuais não garantem que Macri sequer supere o primeiro turno.

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