Venezuela

As cartadas de Juan Guaidó para que os protestos na Venezuela não esfriem

O presidente interino continua percorrendo o país no âmbito de sua anunciada Operação Liberdade

Juan Guaidó, no sábado, em um ato com simpatizantes em Maracaibo
Juan Guaidó, no sábado, em um ato com simpatizantes em MaracaiboFernando Llano (AP)

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Abriu-se caminho entre analistas e ativistas na Venezuela para uma preocupação: que os chamados a protestos feitos por Juan Guaidó se tornem rotineiros. E também que os desmandos chavistas possam resistir ao embate do líder político reconhecido como presidente interino por mais de 50 Governos e que as hesitações da comunidade internacional abram caminho para uma decisão judicial que permita ao Estado bolivariano encarcerá-lo sem consequências.

Guaidó continua percorrendo o país no âmbito de sua anunciada Operação Liberdade e os chamamentos que faz continuam sendo conscienciosamente atendidos por muitas pessoas. Suas falas ocorrem principalmente em regiões empobrecidas que foram chavistas e onde agora é recebido com fervor, sem a presença de coletivos paramilitares ou da Guarda Nacional. Juan Guaidó está operando em meio a enormes dificuldades logísticas e com um feroz veto nas mídias oficiais. Às vezes até com dificuldades para contratar equipes de som para seus discursos na rua.

Os níveis de resposta a suas convocatórias continuam bons, mas para muita gente vai ficando claro que será necessário aumentar a pressão política em alguns decibéis. Poucos conseguem responder como. Guaidó pediu à população que se organize nos Comitês de Ajuda e Liberdade e foi explícito e reiterativo no momento de exigir compromisso. “Não venho pedir-lhes paciência. Venho pedir-lhes organização”, repetiu em suas recentes falas em Caricuao, San Martín e Petare, em Caracas, e em sua mais recente visita a Maracaibo, uma das cidades mais castigadas pelo colapso do país. Assegurou que já há mais de mil núcleos formalizados.

O fato é que, dois meses depois, apagões nacionais incluídos, Juan Guaidó está na rua, mas Nicolás Maduro continua no Palácio de Miraflores. Não parecem existir as certezas de antes em relação à iminência de um desenlace. Muitos começam a retomar seus trâmites para ir embora do país. Guaidó — cujo entorno está convencido dos riscos de estancamento — fez alusão em várias ocasiões à iminência da “fase final” da Operação Liberdade, mas ainda não formalizou providências, anúncios concretos nem datas específicas.

Contudo, é justo afirmar que no entorno dos políticos de oposição que acompanham Guaidó não há nada parecido ao desespero. Todos interpretam que o jogo continua completamente aberto e com opções. O fim do ruído em relação à possibilidade iminente de uma intervenção internacional fortaleceu o consenso sobre a necessidade de trabalhar a frente interna, mobilizando as massas, procurando fomentar um estado de consciência e atacando progressivamente vontades do estado chavista.

A chegada da Cruz Vermelha e o ingresso em massa da ajuda humanitária ao país, autorizados finalmente por Maduro, foram interpretados como um sucesso político, reivindicado pelas demandas de oposição e que compensa moralmente os esforços feitos na fronteira do mês anterior.

O mesmo acontece com o reconhecimento na Organização de Estados Americanos (OEA) com Gustavo Tarre Briceño, o novo embaixador designado por Guaidó para o organismo, e as declarações feitas por Michelle Bachelet e António Guerres nas Nações Unidas, em relação à magnitude social e econômica da crise venezuelana, que afundam ainda mais Maduro na zona de descrédito. A pressão internacional está criando sérias complicações ao envio das cargas de petróleo que a Venezuela faz a Cuba.

Entrincheirado, ainda que ainda com respaldo político, o Governo de Nicolás Maduro apresenta-se cada vez mais exposto diante da magnitude da crise, da qual procura se desligar. As tendências do descontrole cotidiano na Venezuela ultrapassaram todos os limites. Alguns especialistas vêm alertando quanto à iminência de uma crise adicional no serviço da gasolina, devido à queda do PDVSA e dos efeitos das sanções.

O líder bolivariano mantém intacto o poderio de seu eficaz aparato de inteligência e a simpatia expressa dos comandos militares. Maduro foi expandindo e depurando a existência de batalhões de civis armados como instrumento repressivo e de coação. Conserva certo níveis de adesões em algumas entidades federais pequenas e médias, de caráter rural, e demonstrou sua capacidade de resistir em condições adversas, administrando o caso e o esgotamento de seu oponente.