Caso Marielle Franco

Caso Marielle: O que se sabe até agora sobre o crime que completa um ano

A vereadora foi executada junto com Anderson Gomes no dia 14 de março de 2018 por disparos dados pelo policial reformado Ronnie Lessa

Mural com Marielle no Rio.
Mural com Marielle no Rio.SERGIO MORAES (REUTERS)

Marielle Franco, vereadora do PSOL, foi executada no dia 14 de março do ano passado, junto com Anderson Gomes, que dirigia o carro em que estava logo após participar de um evento na Casa das Pretas, no bairro da Lapa, no centro do Rio. Ela saiu por volta das 9 da noite do evento, e foi assassinada às 21h30, quando um carro com seus assassinos emparelhou com o veículo que a transportava. Marielle também estava sua assessora, Fernanda Gonçalves Chaves, que estava no banco de passageiros e sobreviveu. Marielle estava no banco traseiro, atrás de Fernanda. Os tiros foram dados na diagonal, por isso atingiram a vereadora e o motorista Anderson. O crime chocou o país pela frieza do assassinato que ganhou cujo político pelo papel de destaque que Franco vinha ganhando. Criada na favela da Maré, a vereadora era lésbica, ativista de direitos humanos e vinha denunciando a atuação truculenta da polícia em favelas do Rio, num momento em que começava a intervenção federal com apoio dos militares na cidade.

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Quem matou Marielle Franco e Anderson Gomes?

 O policial reformado Ronnie Lessa deu os 14 disparos no carro de Marielle Franco que matou também Anderson Gomes, que dirigia o carro onde estava a vereadora. A assessora de Marielle, Fernanda Gonçalves Chaves, sobreviveu. Lessa estava num carro Cobalt, dirigido por Elcio Vieira de Queiroz, um policial expulso da corporação. Ambos foram presos nesta madrugada dentra da operação Lume, uma força tarefa entre o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, e da Delegacia de Homicídios (DH) da Polícia Civil da capital.

Qual foi a motivação do crime?

Neste momento, o Ministério Público trabalha com a linha de que houve motivação torpe, que teria decorrido pelas causas abraçadas por Marielle no seu trabalho como vereadora. A polícia e o MP não descartam que pode haver um mandante do crime, algo que pode vir a ser esclarecido numa segunda fase da investigação do crime, que começa agora. O crime foi minuciosamente planejado por meses antes da execução sumária da vereadora e de Anderson, que fazia as vezes de motorista de Marielle no dia da sua morte.

Se houver mandante para este crime, como a polícia vai descobrir?

Nesta terça, foram expedidos 32 mandados de busca e apreensão para apreender documentos, telefones celulares, notebooks, computadores, armas, entre outros objetos que podem ajudar a esclarecer o crime. As buscas foram feita na casa dos dois agentes presos, e de pessoas que poderiam ajudar a esclarecer o crime, como um amigo de Lessa que guardou uma quantidade enorme de munições em sua casa a pedido do policial reformado. Nessa casa, no bairro do Meier, foram encontrados 117 fuzis desmontados, o que leva a crer que ele pode estar envolvido em tráfico de armas. O MP entende que agora a investigação entra numa nova etapa para apurar as motivações de Lessa e Queiroz.

Por que levou tanto tempo para se descobrir o crime?

O MP argumenta que a apuração só estava madura agora para ofertar denúncia contra os dois agentes responsáveis pela execução de Marielle e Anderson em função das evidências que levaram aos seus nomes. Foram ouvidas 230 testemunhas e revisadas 760 gigabites de imagens das ruas por onde o carro Cobalt percorreu para chegar aos assassinos. A análise das imagens mostrou artimanhas da dupla para confundir a apuração, como o celular e placa do carro clonadas. Segundo o MP, a denúncia seria apresentada nesta quarta, quando faltava um dia para o crime completar um ano. Mas houve vazamento de informações sobre os planos do MP, o que antecipou a prisão de Lessa e Queiroz para esta terça, com a apresentação da denúncia contra eles.

Quem são Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz?

Lessa é um policial reformado, de 48 anos, famoso por ser exímio atirador, segundo reportagem de O Globo. Egresso do Exército, ingressou na polícia militar em 1992, e tornou-se adido da polícia civil, na extinta delegacia de pressão a armas e explosivos (DRAE). Morava no condomínio Vivendas da Barra, o mesmo do presidente Jair Bolsonaro(PSL). As investigações, porém, não encontraram conexão nessa coincidência de endereço. Ele seria o mentor do crime que matou Marielle, planejado “meticulosamente” com meses de antecedência, segundo a polícia e o MP. A polícia descobriu que Lessa já monitorava a vereadora e aponta indícios de que havia um ódio a representantes da esquerda.  Queiroz, por sua vez, foi expulso da polícia em 2011, quando se tornou réu por suspeita de corrupção e ligação com o tráfico na operação Guilhotina, que atingiu a cúpula da Polícia Civil no Rio.

Há outros suspeitos?

As investigações sobre a execução da vereadora do PSOL e Anderson Gomes seguiram algumas linhas. Dois meses depois do crime de Marielle e Anderson, uma testemunha ouvida pela polícia federal e do Rio acusou o vereador carioca Marcello Moraes Siciliano, do Partido Humanista da Solidariedade (PHS), de ter tramado o assassinato junto com o ex-policial militar e miliciano Orlando de Oliveira de Araújo, o Orlando Curicica, hoje preso em Mossoró, no Rio Grande do Norte. A tese, a priori, perdeu força com a prisão de Lessa e Queiroz nesta terça. Outra linha de investigação é a participação do Escritório do Crime, grupo de matadores formados por policiais militares, ex-policiais e milicianos, que atua na região de Rio das Pedras. No dia 22 de janeiro deste ano, a Operação Intocáveis prendeu o major da Polícia Militar Ronald Paulo Alves Pereira, vulgo Tartaruga, apontado com um dos líderes da facção. Adriano da Nóbrega, que está foragido, seria outro cabeça do Escritório, acusado de extorsão de moradores e comerciantes, agiotagem, pagamento de propina e grilagem de terras. Nas conexões de Nóbrega, um detalhe que respingou no presidente Bolsonaro. A mulher e filha de Adriano, Danielle e Raymunda, respectivamente, trabalhavam até novembro no gabinete do hoje senador Flavio Bolsonaro.

Quem investiga o caso da morte de Marielle?

A delegacia de Homicídios da Polícia Civil do Rio de Janeiro com apoio do Grupo de e Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro.

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