Seleccione Edição
Login

Protesto por assassinato de jovem em supermercado questiona por que a morte de negros não comove o país

Manifestantes protestam em frente a filiais da rede Extra contra o assassinato de Pedro Gonzaga, asfixiado no RJ por um segurança na frente da mãe da vítima que tinha problemas com drogas

Ato em filial no Extra na Barra da Tijuca, onde Pedro Gonzaga morreu, no dia 17 de fevereiro
Ato em filial no Extra na Barra da Tijuca, onde Pedro Gonzaga morreu, no dia 17 de fevereiro Ponte Jornalismo

“A nossa morte é política, a nossa morte é institucionalizada, nossas mortes não podem passar em branco”, gritavam em coro, emocionados, centenas de pessoas em frente à porta da filial da rede de supermercados Extra, do Grupo Pão de Açúcar, na Barra da Tijuca, na zona oeste do Rio de Janeiro, na tarde deste domingo, 17. Ali, diversos manifestantes negros se colocaram em memória e protesto no local onde o jovem Pedro Gonzaga, de 19 anos, morreu na quarta-feira, 14, após ser imobilizado por Davi Ricardo Moreira Amâncio, segurança da Group Protection, que presta serviços para o estabelecimento.

Os presentes se concentraram por volta das 12h em frente aos portões do mercado, na Avenida das Américas, com diversos cartazes. À medida que o número de participantes foi aumentando, a empresa fechou as portas. Cantando a música de 'A Carne', que ficou conhecida na voz de Elza Soares, aproximadamente 400 pessoas ocuparam o estacionamento do mercado em marcha cobrando justiça pela morte do rapaz e contra o genocídio do povo negro. “Minha preocupação é muito grande principalmente porque quando eu olho pra minha favela e vejo gente morrendo sem ter nenhum tipo de resposta do governo, a gente vê que é realmente nós por nós. Se nós, pretos, não nos unirmos para fazer essas mudanças, vamos continuar morrendo”, declarou Rene Silva, jornalista do Voz das Comunidades e um dos organizadores do ato.

Manifestantes entram em estacionamento do supermercado no Rio
Manifestantes entram em estacionamento do supermercado no Rio Ponte Jornalismo

Os manifestantes também colocaram seus corpos numa intervenção para simular o assassinato de jovens negros, jogaram tinta vermelha na placa do Extra e fizeram um abraço coletivo em memória a Pedro. “A morte de Pedro Gonzaga é a morte de todos nós porque a gente tem o direito de entrar em um supermercado e não ser confundido com bandido”, disse o youtuber e ativista Spartakus Santiago.

A manifestação terminou pacificamente com duas faixas da avenida ocupadas, em que os nomes de Marielle Franco, Amarildo, Claudia, dentre outros foram entoados com forte emoção.

Cartaz de manifestante faz referência à música “A Carne”
Cartaz de manifestante faz referência à música “A Carne” Ponte Jornalismo

Em São Paulo, o ato aconteceu na filial do Extra na Avenida Brigadeiro Luís Antônio, próximo à Avenida Paulista, região central da capital.

“É fundamental que a gente reivindique a responsabilização das instituições porque poderia ter acontecido com qualquer pessoa negra”, afirma Raquel Virginia, da banda 'As Bahias' e a 'Cozinha Mineira'. “Eu já fui perseguida quando fui a um supermercado a ponto de um segurança apontar uma arma para mim. Não é possível admitir uma tortura com nossos corpos, uma tortura que foi filmada”, prossegue em referência ao vídeo em que Pedro aparece por baixo do segurança e uma testemunha alerta “tá sufocando ele” e outra diz “ele está roxo”.

A mãe do rapaz que acompanhou toda a situação havia explicado que o filho é dependente químico, teve um surto e afirma que ele não estava armado. O segurança Davi Amâncio alegou que Pedro tentou furtar sua arma e teria fingido uma convulsão. O delegado Cassiano Conte, responsável pelo caso, declarou que Davi “se excedeu na legítima defesa” e o segurança está respondendo por homicídio culposo (sem intenção de matar) em liberdade após ter pago 10.000 reais de fiança, três horas depois de ter sido detido.

Raquel Virginia, da banda As Bahias e a Cozinha Mineira
Raquel Virginia, da banda As Bahias e a Cozinha Mineira Ponte Jornalismo

Os manifestantes se concentraram por volta das 14h em frente aos portões do mercado. Em meio a falas emocionadas e gritos de “Marielle perguntou, eu também vou perguntar: quantos mais vão morrer para essa guerra acabar?”, houve um momento em que os participantes queriam entrar no supermercado. Na ocasião, houve tensão com a Polícia Militar, que apresentava um contingente de pelo menos 20 profissionais que não estavam autorizando a entrada no estabelecimento, que até então não estava fechado.

A reportagem presenciou uma policial ameaçando jogar bombas para dispersar os manifestantes, já que a PM também não estava permitindo a ocupação das faixas da Avenida Brigadeiro Luis Antônio. Com isso, um grupo acabou subindo a avenida com destino ao MASP (Museu de Arte de São Paulo) enquanto outro permaneceu em frente ao mercado.

Apesar dos ânimos exaltados, a PM acabou não impedindo o trajeto do grupo, que seguiu até o museu sem ocorrências. Já os que ficaram em frente ao Extra fizeram com que o mercado ficasse fechado por cerca de três horas e finalizaram o evento aos gritos de “a gente tem que existir e resistir”.

‘Por que as mortes de negros não comovem?’

Além das capitais fluminense e paulista, protestos foram marcados no mesmo dia nas cidades de Recife (PE), Belo Horizonte (MG), Fortaleza (CE) em decorrência da repercussão do caso, principalmente nas redes sociais, onde diversos artistas e personalidades públicas se manifestaram. Na sexta-feira, 16, duas hashtags se destacaram: #VidasNegrasImportam, uma tradução de Black Lives Matter, em referência ao movimento negro norte-americano, e #ACarneMaisBaratadoMercado, alusão à icônica canção 'A Carne'.

“Não é errado se comover com animais, é também muito importante, mas o que a gente questiona é por que as mortes de negros não comovem? Por que valem menos?”, critica Douglas Belchior, professor de História e militante da Uneafro. “Isso demonstra uma completa desumanização do povo negro e uma comprovação de que a vida negra não têm valor numa sociedade racista e isso é histórico porque a questão racial é um pano de fundo para todas as relações sociais e para todos os conflitos sociais no Brasil”, prossegue. “Nós somos apagados na indústria cultural, nos programas de televisão, mais diretamente com a ação da polícia, com péssimo atendimento da saúde pública, porque é o Estado matando, e o Estado também mata quando não faz nada para mudar isso”.

O jurista e presidente do Instituto Luiz Gama, Silvio Almeida, também destaca que é necessário compreender que as mortes de negros não são casos isolados e que partem de uma estrutura de poder. “As instituições têm como modus operandi a discriminação. Na segurança em geral se coloca sempre como um fator desestabilizador alguém que é negro. O negro é o que precisa ser vigiado, sempre alguém que precisa estar em primeiro plano quando se faz políticas de segurança”, explica.

Além disso, o jurista enfatiza que essas relações de poder também são incorporadas pela própria população negra. “O fato do segurança ser negro reforça ainda mais de que o racismo é produzido por estruturas, que faz com o negro não tenha dimensão da maneira que ele age com seu próprio sofrimento. O agente ser negro não faz com que ele fuja da dinâmica institucional e quando se apaga esse componente, a gente acaba reforçando um discurso racista, justamente para que negros e negras continuem se matando”, pontua.

“É muito importante que se faça esse ato. A gente tem que começar a lembrar que esse supermercado é uma das empresas de um grupo que é muito maior e que é dono de outras empresas também. Tem que entender como a economia funciona sempre a partir desses lugares, que são lugares de reprodução de fatores discriminatórios”, finaliza Almeida.

Texto originalmente publicado no site da Ponte Jornalismo

MAIS INFORMAÇÕES