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TRIBUNA i

Bolsonaro e o futuro do pluralismo

A democracia pluralista é um acidente histórico ou um equilíbrio que resistirá aos embates populistas?

Jair Bolsonaro durante a posse do general Fernando Azevedo e Silva como ministro da Defesa.
Jair Bolsonaro durante a posse do general Fernando Azevedo e Silva como ministro da Defesa. REUTERS

Começou 2019 e poucas horas depois Jair Bolsonaro já era oficialmente presidente do Brasil. O evento nos ofereceu o quadro perfeito para formular a questão-chave do ano que começa: a democracia pluralista é um acidente histórico ou um equilíbrio que resistirá aos embates populistas?

Convida a ser pessimista o número crescente de países em que um setor da população com suficiente poder e a intenção de conservá-lo veio desmontando as instituições que serviam como salvaguarda do equilíbrio. Uma lista não exaustiva incluiria Filipinas, Rússia, Turquia, Hungria, Polônia, Venezuela e Nicarágua. Mas a competição se manteve em outros lugares: Equador, Argentina, Estados Unidos, Reino Unido, Áustria e Grécia são lugares onde projetos não liberais se dobraram com o peso do conflito estável e a consequente alternância.

De que lado o Brasil ficará? E o México, onde AMLO [Andrés Manuel López Obrador] oscila entre o pragmatismo e a tentação de uma hegemonia partidária que lembra muito o PRI, que dominou o país durante a maior parte do século XX? O que acontecerá em exceções que deixam de sê-lo, como a Espanha, onde 2019 terminará com um partido de extrema-direita com uma plataforma consolidada?

É provável que não haja uma resposta única para todos esses lugares. Sabemos, por exemplo, que os cordões sanitários, as alianças propluralistas, consolidam um bloco disposto a defender as instituições, mas ao mesmo tempo reforçam e alimentam os argumentos antiestablishment. O colaboracionismo de pluralistas e populistas, pelo contrário, exige soluções a quem que cresceu graças a um discurso de emenda à totalidade. Pede-lhe a tomada de decisões, o cumprimento das expectativas criadas. Bolsonaro, por exemplo, terá de prestar contas no fim do ano e o mais provável é que elas não batam. O mesmo acontecerá com AMLO. Como tampouco baterão para os líderes liberais, certamente: veja-se o caso de Macron na França. No entanto, dar poder a um grupo que aspira a não cedê-lo jamais tem o evidente problema de que talvez o consiga.

Em outras palavras: não existem estratégias simples, que sirvam para qualquer ocasião e circunstância. A consequência é que a esperança do pluralismo, no Brasil e no mundo inteiro, reside em que sempre haja alguém disposto a tomar o poder daquele que o tiver naquele momento. O conflito permanente e fragmentado, maldição inevitável de qualquer sociedade humana, é também a única garantia do seu sucesso.

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