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Crise no gabinete de Macri um dia após novo ‘tarifaço’ de energia

Javier Iguacel abandona o cargo de secretário depois de anunciar alta de até 55% na eletricidade e 35% no gás

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Javier Iguacel assume como ministro da Energia de Argentina, em 21 de junho de 2018 na Casa Rosada. EFE

Mauricio Macri fecha o ano com uma crise de gabinete. Seu secretário de Energia, Javier Iguacel, deixou o posto logo depois de fazer o trabalho sujo. Na quinta-feira, dia 27, em uma coletiva de imprensa, anunciou uma alta nas tarifas de eletricidade e gás respectivamente de 55% e 35% — acima da inflação projetada na Argentina para 2019 —, pagou o custo político do descontentamento social e, um dia depois, renunciou. As más relações com seu chefe direto, o ministro da Fazenda, Nicolás Dujovne, aplainou o caminho para sua saída apenas seis meses depois de assumir. No caminho, não suportou seu rebaixamento sem escalas de ministro a secretário em setembro, quando Macri decretou um plano de austeridade que eliminou 13 pastas do gabinete. No lugar de Iguacel assumirá Gustavo Lopetegui, que foi vice-chefe de Ministros e agora é homem de poder nas sombras.

A saída de Iguacel colocou em evidência as tensões em um Governo que encerra o ano no pior cenário possível. 2018 não foi fácil para Macri e os argentinos: do crescimento prognosticado há 12 meses, o país sul-americano passou por uma queda do PIB que rondará os dois pontos. A inflação passou de uma expectativa de 12% para quase 50%, o peso perdeu metade de seu valor e aumentaram a pobreza e o desemprego. Em meio à crise, a Argentina recebeu do FMI um resgate financeiro de 57 bilhões de dólares. A situação não é boa, e no ano que vem Macri tentará a reeleição. Por isso, o Governo decidiu dar todas as más notícias juntas, como o aumento de tarifas e uma alta de 38% no transporte público, que será efetivada em março.

Iguacel foi assim o portador das más notícias. Desde que Macri assumiu, o preço dos serviços públicos se multiplicou até por dez vezes, com o argumento de que o Estado não podia continuar pagando os subsídios que durante o kircherismo mantiveram inalteradas as tarifas domésticas e empresariais. O desgaste produzido pela política de aumentos, que também chegou aos combustíveis, custou o cargo do primeiro ministro da Energia, José Aranguren, e agora de seu sucessor. A renúncia de Iguacel deve ser lida também como um voto presidencial em favor do ministro da Fazenda, Dujovne, o rosto oficial diante do FMI. Dujovne manteve-se às turras com Iguacel porque sempre se opôs à manutenção do nível atual de aportes do Estado à exploração de Vaca Muerta, uma enorme jazida de gás e petróleo não convencional que promete grandes benefícios à Argentina.

“Por razões que expliquei ao Presidente, renunciei ao cargo de Secretário da Energia, colocando-me à disposição para continuar acompanhando a transformação que está sendo implantada. A tarefa de construir um país unido, honesto e justo é titânica. Exige paixão e perseverança”, escreveu Iguacel em sua conta do Twitter. Deixou assim a porta aberta para uma volta, apesar de talvez em posto de menor destaque. Sua relação com Macri se deteriorou em outubro passado, quando determinou sem consulta prévia uma compensação para as empresas de gás afetadas pela desvalorização do peso, que os usuários deveriam pagar em 24 parcelas. A ira popular obrigou o Governo a voltar atrás e deixou o Presidente enfraquecido em um tema especialmente sensível. Iguacel terá de esperar que Macri volte de suas férias na Patagônia para saber o que o destino lhe reserva.

A chegada de Lopetegui à Energia representa um grande êxito para o chefe dos ministros, Carlos Peña. Lopetegui foi seu braço direito até o ajuste de setembro e chegou a ter a seu cargo a coordenação das grandes obras de infraestrutura relacionadas ao setor de hidrocarbonetos. Mesmo não tendo sido totalmente do governo, agora terá orçamento próprio. Lopetegui herdará, além disso, a questão das tarifas resolvida, apesar de tudo depender de que as variáveis econômicas argentinas não voltem explodir.

Dezembro costuma ser um mês conturbado na Argentina. No fim do ano se concentram as reclamações sociais e ainda está na memória o dezembro tenebroso de 2001, quando o presidente Fernando de la Rúa abandonou a Casa Rosada de helicóptero. Qualquer possível excesso foi neutralizado desta vez com o dinheiro da ajuda social e a trégua com os movimentos piqueteiros. Os mercados também despediram-se do ano com calma, apesar das críticas à decisão de Macri de regulamentar esta semana uma lei de 2017 que estabeleceu um imposto à renda financeira, derivada de prazos fixos e bônus públicos. O peso ontem subiu 1,53% diante do dólar e a Bolsa teve alta de 2,6%. Uma lufada de ar fresco para a Argentina, no fim de um ano a ser esquecido.

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