O Natal mais austero da Venezuela

O jantar natalino é uma tradição difícil de conservar em um país com a economia em queda livre

Voluntários distribuem refeições em Caracas, em maio de 2018
Voluntários distribuem refeições em Caracas, em maio de 2018C. JASSO (REUTERS)

A comemoração do Natal já não é a mesma na Venezuela. Raiza Escobar, professora aposentada, de 61 anos, começou a comprar desde novembro, aos pouquinhos, especiarias e frutas. Só assim conseguiu preparar algumas hallacas, o prato típico de dezembro no país com as maiores reservas de petróleo do planeta. "Consegui os temperos com o dinheiro do bônus de Natal. Gastei tudo nisso." A hiperinflação e a escassez ameaçam as comemorações natalinas: no mês passado, os preços subiram 144%, segundo cálculos da Assembleia Nacional, controlada pela oposição, diante da falta de transparência dos dados do Governo. E as famílias venezuelanas precisam do dinheiro extra para poder comprar o necessário para as comemorações desta época do ano.

As promoções praticamente não existem na Venezuela: tudo aumenta de preço a uma velocidade incontrolável. "Comprei azeitonas por 1.990 bolívares soberanos no final de outubro e agora custam 14.000", lembra Raiza. Os alimentos são uma aposta inatingível na economia, de longe, com o pior desempenho na América Latina. Um pão de presunto, outro prato típico da véspera de Natal e fim de ano, tem um custo superior ao salário mínimo. Uma trabalhadora como Coromoto Gómez, mãe de três filhos, teria que trabalhar um mês e conseguir mais 1.000 bolívares para ter um pão de presunto em sua mesa. Ela confessa que teve que vender uma TV antiga para "comer algo diferente" de um prato de arroz e grãos nesta segunda-feira, 24. "Antes não tínhamos problemas, mas agora somos escravos da inflação. Meus filhos se preocupam mais com o que vão comer do que com os brinquedos", diz.

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Sob essas circunstâncias, muitas associações tentam suprir a escassez de alimentos. No último fim de semana, a associação Alimente a Solidariedade doou para várias famílias de comunidades pobres centenas de pães de presunto preparados por voluntários. Mas a ajuda não chega a todos: Gómez, que mora no bairro de baixa renda Petare, não recebe nenhum tipo de ajuda. Em sua comunidade, os organizadores do programa governamental CLAP (Comitê Local de Abastecimento e Produção) distribuíram alguns pernis a custos subsidiados que tiveram de dividir em dois devido à escassez. A mesma queixa foi feita em várias províncias venezuelanas.

A desaceleração da sexta maior economia da América do Sul impossibilita, para muitos, a compra de presunto a preços de mercado. "Não queremos presentes, mas poder ganhar bem e comprar o que precisamos", acrescenta Gómez. Mas, na Venezuela, nem sempre é possível comprar o que se quer, e sim o que está disponível. Em uma loja de brinquedos em Galerías Ávila, no bairro Candelaria de Caracas, bonecas expostas em uma vitrine quase vazia estão à venda com cartazes que explicitamente alertam para defeitos no funcionamento. Nesse shopping existem apenas corredores desolados, mas, no outro extremo de Caracas, na avenida Sabana Grande, as lojas estão cheias de clientes depois de uma súbita redução dos preços de alguns produtos por ordem do Governo. É a última medida da Administração venezuelana em sua corrida contra o que considera uma "guerra econômica", supostamente incentivada por empresários e opositores, mas que tende a enfraquecer o frágil setor de comércio.

Os estoques são tudo menos substanciais. As importações do setor privado caíram 90% em dezembro em relação ao ano anterior, segundo María Uzcátegui, presidenta da organização empresarial Conselho de Comércio e Serviços. Um mal leva a outro: as vendas também registraram queda de mais de 60%, e quatro de dez lojas fecharam no ano passado. A causa está em um conjunto de fracassos econômicos, entre eles um plano de "recuperação" financeira adotado em 20 de agosto que, paradoxalmente, agravou a crise.

O obscuro panorama financeiro desencoraja muitos, mas não Raiza e seu marido, Leovardo Cardona: comemorarão o Natal com um mecanismo para evitarem "submergir por causa da depressão". A família decorou a casa e até ajudou nas decorações do bairro. "Desta vez, não vamos comemorar como em outros tempos, mas queremos espantar a tristeza vivida no país", diz Cardona. Entre seus planos está o de se comunicar por vídeo com duas filhas que moram no exterior e se despedir de seu único filho que permanece na Venezuela. Cardona emigrará em janeiro.

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