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Marcelo Melo: “Guga foi exceção. Espero resultados na nova geração, mas sem almejar o número um”

Em entrevista ao EL PAÍS, tenista brasileiro com mais títulos no esporte falou sobre sua carreira, o momento do tênis no país e os planos para as Olimpíadas de Tóquio

Marcelo Melo comemora a conquista de Wimbledom em 2017.
Marcelo Melo comemora a conquista de Wimbledom em 2017.

Ser mais vitorioso do que Guga não é fácil. O maior símbolo do tênis masculino brasileiro, enquanto esteve no auge, conquistou 28 títulos jogando nas modalidades simples e dupla –entre eles, três Roland Garros (1997, 2000 e 2001) e um ATP Final Tour, disputado entre os oito melhores tenistas do ano, em 2000– e passou 43 semanas na liderança do ranking mundial da ATP, a Associação de Tenistas Profissionais. O catarinense é uma das maiores referências mundiais na história do esporte. Em números, no entanto, perde para outro brasileiro. Marcelo Melo (Belo Horizonte, 1983) ultrapassou, em janeiro 2018, seu ídolo. Jogando apenas a modalidade em duplas, Melo, hoje nono colocado no mundo, soma 32 títulos no circuito da ATP e 56 semanas na liderança do ranking mundial da Associação.

O próprio mineiro rechaça a vantagem. "O Guga é incomparável. Eu posso vir logo atrás", diz. Marcelo Melo começou jogando individualmente no tênis, mas logo migrou para as duplas por conta dos resultados obtidos e da "transição mais fácil". Melo atuou com os brasileiros André Sá (2007 a 2009) e Bruno Soares (2010 e 2011), com quem ainda faz dupla quando representa o Brasil na Copa Davis, torneio de tênis entre países, e nas Olimpíadas. O parceiro mais duradouro do brasileiro foi o croata Ivan Dodig, com quem jogou de 2012 a 2016 e, segundo o próprio, quando alcançou seu melhor nível de tênis e se tornou número um do ranking pela primeira vez, em 2015, já aos 32 anos. Melo desbancou os irmãos americanos Bob e Mike Bryan, que lideravam a classificação da ATP desde 2002.

Desde 2017, o mineiro joga com o polonês Lukasz Kubot. "Tive meu melhor ano em resultados com o Kubot, em 2017, quando ganhei Wimbledon e voltei a ser número um", afirma. Além da carreira, Marcelo Melo também falou ao EL PAÍS sobre o momento atual do tênis brasileiro, que teve apenas Thomaz Bellucci (atual 241º do mundo) figurando entre o top 20 no ranking de simples masculino da ATP desde a aposentadoria de Gustavo Kuerten e, entre as mulheres, tem Beatriz Haddad Maia (185ª no ranking feminino) como melhor colocada. "O Guga foi exceção da exceção. Países muito melhores que o nosso no tênis não conseguem revelar um jogador do mesmo nível. Espero bons resultados da nova geração de tenistas brasileiros, mas sem almejar que sejam campeões ou cheguem ao número um".

Pergunta. Você se considera o melhor tenista brasileiro da atualidade?

Resposta. Não. É difícil falar isso. Juntamente comigo, o Bruno [Soares, sexto no ranking atual] também tem resultados expressivos. Eu não gosto muito de falar que eu sou o melhor tenista brasileiro do momento. Mas com certeza eu estou entre os melhores.

P. Como você enxerga o momento do tênis brasileiro?

R. Eu acho que o tênis brasileiro está passando por uma entressafra. Alguns jogadores ainda estão jogando bem, como o [Thomaz] Bellucci e o Rogério Silva [165º do mundo]. Nas duplas, a gente mantém os resultados comigo e com o Bruno. E acho que, daqui a pouco, novos jogadores surgirão e os resultados vão começar a serem cada vez melhores.

P. Em setembro deste ano, o brasileiro Thiago Wild, de 18 anos, ganhou o US Open juvenil, um dos quatro torneios mais importantes da categoria. Você acompanhou? Que futuro vê nele?

R. Eu vi só um jogo dele lá, mas o conheço há muito tempo. Ele é uma das grandes promessas que nós temos e vem fazendo um trabalho muito bom. Acredito que tem chances de ter bons resultados no profissional.

P. Em 2010, Tiago Fernandes foi o primeiro brasileiro a vencer um Grand Slam juvenil, o Australia Open. Fernandes, entretanto, se aposentou aos 21 anos depois de uma passagem ruim do juvenil para o profissional. O que o Wild tem que fazer para não repetir os mesmos erros de Fernandes?

R. São jogadores com um perfil bem diferente. O Wild tem uma equipe muito boa com ele agora e os tempos são outros. Com certeza, o Fernandes serve de exemplo negativo e positivo. É importante ele continuar focado e sonhando que pode ser um grande profissional.

P. Como é esse momento de profissionalização do tenista?

R. Essa transição é um dos momentos mais complicados. Você começa a viver uma experiência completamente diferente quando se profissionaliza. Não significa que, se você teve uma boa carreira juvenil, você vai ter uma boa carreira profissional. E é o momento onde eles acabam se perdendo um pouco. Para mim, esse momento também foi complicado. Acabei tendo uma transição mais fácil da simples para a dupla do que do juvenil para o profissional.

P. Por que sua carreira deu mais certo nas duplas?

R. Optei por jogar somente em dupla por conta dos resultados expressivos que tive na sequência com o André Sá na época. Foi a escolha mais fácil. Chegou um momento em que eu tive que escolher entre jogar em duplas ou jogar simples, e a dupla estava valendo mais a pena porque os torneios da dupla também começaram a ser torneios de nível maior, que não me permitiam conciliar com a carreira simples em campeonatos menores. Então acabei escolhendo na época ficar nos torneios maiores de dupla.

P. Guga é uma referência para você?

R. Sempre. Cheguei a jogar duplas uma vez com ele em um torneio challenger [os menos exigentes da ATP] e contra ele no US Open, nas duplas em 2007 [Kuerten era parceiro do americano Robby Ginepri, enquanto Melo jogava com Sá. Os dois brasileiros venceram por três sets a zero]. Foi estranho jogar contra ele porque era um ídolo, mas eu já conhecia ele há um bom tempo.

P. Desde Guga, só o Thomaz Bellucci chegou ao top 20 no ranking masculino de simples. A cobrança para que nasça um 'novo Guga' é exagerada?

R. O tênis é um esporte muito complicado. O Guga foi a exceção da exceção. Virar número um do mundo do jeito que foi... países como os EUA e a Espanha tentam fazer outro jogador de alto nível e não conseguem. A Espanha tem uma safra enorme de jogadores, muito maior que a do Brasil, e só o [Rafael] Nadal que foi [número um]. Espero que outros vão vir, mas não é uma fórmula fácil. Isso mostra o quanto Guga foi grande e importante pro tênis. Agora está chegando uma safra nova de bons jogadores e espero que comecem os resultados, mas sem almejar que eles serão número um ou campeões. É passo a passo, iniciando pelos campeonatos menores.

P. A realidade brasileira dificulta o surgimento de tenistas do nível do Guga?

R. Eu não sei se é a realidade do Brasil que faz diferença. Países com estrutura muito maior, que são muito melhores no tênis [que o Brasil] não conseguem gerar gente do nível do Guga. A gente tem uma Confederação hoje mais estruturada que na época do Tiago Fernandes, o que pode ajudar o Wild também. É importante acreditar que eles possam chegar lá. Se o Guga naquela época chegou, hoje a estrutura é muito melhor.

P. Como foi superar sua referência nos títulos e semanas como líder do ranking?

R. Eu não falo que superei o Guga. Posso superar em títulos ou semanas como número um, mas o Guga foi o Guga. É difícil me comparar com ele. No simples e na dupla, cada um seguiu seu caminho. Eu acho que ele continua sendo uma referência brasileira e eu posso vir atrás mas, mesmo que tenha passado nos números, o Guga é incomparável.

P. Você chegou à liderança em 2015, já aos 32 anos, idade considerada avançada para o esporte em alto rendimento. Por que o auge foi tão tarde?

R. Meu auge foi ano passado [2017]. Por conta dos resultados resultados, foi o melhor ano da minha carreira, também pela experiência que tive no circuito e a maneira que consegui jogar com o [Lukasz] Kubot, meu parceiro atual. Quanto à idade, você pode ver que o [Roger] Federer tem jogado bem até hoje, com 36 anos [o suíço fechou 2018 em terceiro no ranking]. A idade não é um fato relevante, mas acho que tem deficiências que vamos acumulando com o tempo. Penso em jogar tênis pelo menos até as Olimpíadas de Tóquio, em 2020.

P. O seu melhor nível de tênis veio com o Kubot?

R. Com o [Ivan] Dodig também. Com o Kubot foi o melhor ano, com os melhores resultados. Com o Ivan eu ganhei Roland Garros e me tornei número um do mundo. Meu plano para 2019 é continuar com o Kubot.

Melo e Kubot.
Melo e Kubot. Divulgação

P. Qual a diferença dos parceiros brasileiros com os estrangeiros?

R. A cultura é diferente. O André Sá e o Bruno Soares eu conheço desde a adolescência. Eu sempre tento me adaptar o máximo possível a cada um deles e é bem difícil encontrar um parceiro igual, cada um tem sua personalidade. Mas todos foram bons parceiros e consegui aprender bastante.

P. Por que a parceria com o Bruno Soares não foi além de dois anos?

R. O Bruno na época quis procurar outro parceiro porque achou que com outro parceiro ele teria melhores resultados. Foi por esse motivo que jogamos apenas dois anos. Por mim, a parceria na época teria continuado. Mas também não afetou nossa relação. Tem que saber quando chega em um ponto como esse. Acabou sendo muito bom para nós dois, tivemos vários resultados expressivos depois disso. E logicamente isso não impede de jogarmos juntos Copa Davis e Olimpíadas.

P. Quais as diferenças entre representar o Brasil na Copa Davis e no circuito internacional da ATP?

R. É muito diferente jogar por equipes e individualmente. O mais importante é representar o Brasil da melhor maneira possível. É diferente principalmente nas Olimpíadas, onde temos outros brasileiros de outros esportes. As Olimpíadas são muito importantes porque temos poucas chances na vida, se tiver sorte. Perdemos duas vezes nas quartas de final [com o Bruno Soares], inclusive no Rio, e ficamos a um passo da medalha. Fizemos o possível mas o tênis é assim mesmo, estamos de cabeça tranquila. É difícil falar o que deu errado, acho que fizemos o que tínhamos que fazer na preparação e perdemos para duplas que vinham jogando muito bem. Os melhores momentos na Davis, por outro lado, foi quando ganhamos da Espanha, em 2014, e dos irmãos Bryan nas duplas contra o Estados Unidos, na casa deles, em 2013.

P. Na final feminina do US Open 2018, Serena Williams levou uma advertência do juiz português Carlos Ramos por ter recebido instruções de seu treinador em quadra, algo que é proibido no tênis. Revoltada, Williams, que também é conhecida por levantar bandeiras feministas no esporte, chamou Ramos de "mentiroso", o acusou de machista e acabou punida mais duas vezes na partida antes de perder a final para Naomi Osaka, de 20 anos. O que achou do episódio?

R. Não estava assistindo o jogo e só vi depois. Acho importante valorizar a vitória da Osaka, porque ganhar um Grand Slam em cima da Serena Williams deve ter sido muito especial, independente das circunstâncias. Tomara que a conquista dela não fique manchada por esse episódio. O juiz [que participou do caso] é excelente, já fez jogos meus e é muito respeitado entre todos os tenistas.

P. Em 2018, perdemos Maria Esther Bueno, outra ícone do tênis brasileiro. Qual é a importância dela para o esporte?

R. Eu conhecia a Maria Esther por causa dos torneios onde a encontrava. É uma referência enorme para todos nós, não só os brasileiros. Ela foi homenageada em Wimbledon, e isso dá uma dimensão do que ela foi. Que sirva de inspiração para as meninas brasileiras e outros tenistas por tudo que ela fez em sua carreira.

P. No que diz respeito à estrutura do tênis feminino brasileiro, que apresenta resultados piores que o masculino, as mulheres recebem menos apoio que os homens?

R. É difícil analisar o tênis feminino porque eu não tenho participado muito. Acompanho por notícias e não sei como está a estrutura, mas tenho certeza que a Confederação Brasileira de Tênis vem fazendo o máximo possível para dar o melhor à elas. A Bia [Haddad Maia] vem jogando muito bem depois que se recuperou da lesão nas costas, mas é difícil acompanhar.

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