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Gustavo Kuerten: “Nenhum tenista ama tanto Roland Garros como eu”

Guga foi número um durante 43 semanas e conquistou três títulos de Roland Garros

Roland Garros 2015
Kuerten, nas arquibancadas da quadra Philippe Chatrier.

Apesar de apalpar a região abdominal, “estou engordando um pouquinho”, diz, Gustavo Kuerten (Florianópolis, Brasil; 38 anos) é quase uma cópia do tenista que levantou três Copas dos Mosqueteiros (1997, 2000 e 2001) e conquistou o público de Paris com o coração que desenhou com sua raquete no saibro da quadra Philippe Chatrier. Desengonçado, com o cabelo revolto e uma faixa na testa, foi durante 43 semanas o número um do mundo. Agora, aposentado, Guga relaxa na arquibancada, toca guitarra e escreve. Dia 7 de junho entregará o troféu que um dia foi seu.

Pergunta. Deixou o tênis em 2008. O que você faz agora?

Resposta. Sou pai de família, um homem muito feliz. Depois de muitos anos de um lado para o outro, quero agora ficar com meus dois filhos, mesmo que ainda continue muito ligado ao tênis. Também trabalho com minha fundação, na qual ajudamos 700 crianças. Agora estamos construindo uma escola de tênis no Brasil, e o objetivo é criar 30 por todo o país. Também estou envolvido com o Comitê Olímpico para os Jogos Olímpicos de 2016 no Rio de Janeiro.

P. Sente falta das quadras?

R. Às vezes leio: Kuerten, ex-tenista, e não consigo acreditar... É tão apaixonante o que se vive ali embaixo, no jogo, que preciso fazer muitas coisas para poder preencher o vazio que o tênis deixou.

P. Joga tênis de vez em quando?

R. Ainda não posso. Operei o quadril há dois anos e coloquei uma prótese, de forma que preciso fazer duas horas diárias de reabilitação. Infelizmente, faz tempo que não saboreio a sensação de rebater a bolinha.

O título de 1997 foi incrível. De repente, descobri que tinha recursos para fazer qualquer coisa”

P. Como foi recebido em Paris?

R. Aqui me sinto em família, como em minha própria casa. Aqui conquistei os maiores títulos de minha carreira e tudo é muito especial para mim, desde que vim pela primeira vez, aos 15 anos. Não é somente a quadra central, mas todo o complexo. Cada lugar de Roland Garros me traz recordações inesquecíveis. Aqui a magia flui: as plantas, as flores, as pessoas... Tudo. Tudo me traz ótimas sensações. Nenhum tenista ama tanto Roland Garros como eu.

P. Ninguém esperava sua vitória em 1997.

R. Foi impressionante, a maior façanha de minha carreira. Tinha 20 anos e estava na 66° colocação do ranking, mas então comecei a fazer coisas que não sabia que podia fazer. De repente tinha recursos, jogadas e soluções para os momentos mais complicados, algo inédito para mim. Mas, sendo honesto, esse triunfo de 1997 foi o que de mais incrível aconteceu na minha carreira.

Kuerten comemora sua vitória contra Bruguera em 1997. ampliar foto
Kuerten comemora sua vitória contra Bruguera em 1997. efe

P. Por que diz isso?

R. Penso que ainda não compreendia a magnitude do torneio e por isso joguei sem nenhum tipo de pressão. Ganhei de Björkman, Kafelnikov, Muster, Medvedev… e de Bruguera. É impossível saber por que eu ganhei nesse ano. Mas, de repente, tive um grau de inspiração que me levou a alcançar uma dimensão que nunca imaginei atingir. Depois repeti em 2000 [contra Magnus Norman] e 2001 [Alex Corretja], mas não foi a mesma coisa. O que fiz em 1997 foi muito estranho, muito especial.

P. “Agora as garotas vão aparecer por todos os lados”. Guillermo Villas tinha razão quando disso isso ao entregar-lhe o troféu?

R. Não me lembro bem o que ele me disse, então não posso responder... [dá uma piscadela]. A única coisa que me lembro é de como fiquei assustado ao ver duas lendas como Guillermo e Bjorn Borg a meu lado.

Na minha época jogávamos ao nível máximo por 40 minutos, agora os jogos demoram quatro horas”

P. Depois, em 2001, venceu Corretja na final. Tinha fixação com os espanhóis?

R. [Risos] Não. Simplesmente, nessa época e até hoje, se não ganhar dos espanhóis não ganha o torneio. É a escola que domina o circuito há muitos anos e aqui, em Paris, é a mesma coisa. Para ser campeão aqui é preciso ganhar dos espanhóis. Primeiro ganhei de Sergi e depois de Corretja. Contra este eu era favorito, mas me surpreendeu: podia perfeitamente me vencer, mas tive sorte. Ele estava quase ganhando o segundo set, mas consegui virar. As coisas não iam nada bem, mas no final venci.

P. Qual sua opinião sobre o tênis atual?

R. A consistência mudou muito. Basicamente, o que nós fazíamos durante 30 ou 40 minutos eles agora fazem durante quatro horas. O nível de jogo é impressionante. Agora disputam batalhas renhidas, iguais do primeiro ao último ponto. Na parte técnica, o nível cresceu muito. O que nós fazíamos ao nível máximo de forma intermitente eles fazem regularmente.

P. Você confia em Nadal?

R. Falam dele porque é extraordinário, porque o que fez não é normal. Se qualquer jogador normal fizesse o que ele está fazendo diriam que está jogando bem. É a consequência de ser um jogador único. O que Rafa faz ninguém pode fazer, nunca mais vai acontecer. O que fez é especial. É preciso dar-lhe tempo, pelo menos mais três anos para ver o que faz e, então, avaliar seu rendimento. Ele foi capaz de superar diversas situações que muitos outros não conseguiram. Quando falo sobre ele só posso reverenciá-lo. Vou admirá-lo minha vida inteira.

P. Sem ficar em cima do muro. Nadal ganha ou não há quem possa derrotar Djokovic?

Vou admirar Nadal toda minha vida. É extraordinário e é preciso dar-lhe pelo menos mais três anos de tempo”

R. Novak é fascinante. A última vez que estive dentro de uma quadra foi exatamente em uma exibição que fizemos juntos, no Rio. É uma incógnita. É quase impossível vencer Rafa aqui, de modo de que Nole (apelido de Djokovic) não está muito tranquilo. Da maneira como chega, provavelmente é o favorito esse ano, mas nunca se sabe. Nadal nunca pode ser dado como vencido. Isso é Roland Garros, só perdeu uma vez aqui.

P. E você, nos seus bons tempo, poderia vencer Nadal?

R. Talvez... Sim, pode ser que sim. Fui criado com essa mentalidade e sempre acreditei muito em mim mesmo, então por que não?

P. Um brasileiro no tênis. E, ainda por cima, vencendo. Por que escolheu a raquete e não o futebol?

R. Por um motivo muito simples: comecei porque sou muito diferente, porque minha cabeça não funciona muito bem, sabe? Sempre fui anticonvencional, então escolhi o tênis. Sou assim, estranho. É como me expresso habitualmente [risos].

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