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Cientista chinês que modificou geneticamente dois bebês defende seu experimento

He Jiankui afirma que outros bebês com DNA editado estão sendo gestados

He Jiankui fala no congresso de Edição de Genoma Humano de Hong Kong.

O cientista chinês que afirma ter criado os primeiros bebês geneticamente modificados da história, He Jiankui, defendeu seu experimento e revelou que há uma segunda gestação “em suas primeiras etapas” com esse tipo de embriões. “Se a tecnologia estiver disponível, podemos ajudar as pessoas que dela necessitarem”, disse He durante apresentação na segunda Conferência de Edição de Genoma Humano, que acontece nesta semana em Hong Kong.

Diante de um auditório de 700 lugares completamente lotado, incluindo uma enorme presença de jornalistas, He Jiankui explicou que trabalhou em sua experiência com sete casais nos quais o homem é portador do vírus da AIDS, mas não a mulher —um casal adicional decidiu abandonar o estudo. Aparentemente tranquilo, desculpou-se por ter anunciado a experiência poucos dias antes do congresso, sem avisar os organizadores, e disse ter enviado um artigo com os dados do trabalho para a avaliação de uma revista científica que ele não identificou.

A falta de concretude caracterizou a maioria de suas respostas às numerosas perguntas dos presentes. Insistiu em dizer que a cada etapa da sua pesquisa consultou colegas chineses e estrangeiros, mas em nenhum momento os identificou. Também assegurou que tinha antecipado seu estudo numa conferência em Nova York no ano passado, mas tampouco nisso ofereceu detalhes.

Por que considerou que essa pesquisa era medicamente necessária, e por que escolheu centrar-se no gene usado como porta de entrada para o vírus HIV no organismo? Segundo ele, foi por causa da discriminação que os soropositivos enfrentam e da prevalência da doença. “Sinto-me orgulhoso. Sinto-me ainda mais orgulhoso porque o pai [das meninas gêmeas nascidas do experimento] achou que tinha perdido a esperança na sua vida.”

O geneticista, formado nas universidades norte-americanas Rice e Stanford, surpreendeu o mundo na segunda-feira ao anunciar o nascimento, “há algumas semanas”, de Nana e Lulu, duas gêmeas chinesas submetidas a manipulação do gene CCR5, que serve como porta de entrada para o ataque do vírus HIV ao sistema imunológico humano. Segundo He, as meninas se encontram em perfeito estado de saúde, na sua casa, e sua experiência não provocou nenhuma mutação indesejada.

“Não se trata de criar bebês de design, apenas uma criança saudável”, defendeu o geneticista chinês

O cientista, que voltou dos EUA para a China em 2012, recrutou sete casais heterossexuais de voluntários para seu teste. Em todos eles o homem era portador do vírus da AIDS. Até obter a gestação com sucesso dos embriões em “Grace”, a mãe das gêmeas, utilizou 11 embriões em seis tentativas de implantação.

Nos vídeos publicados no YouTube, He Jiankui afirma estar disposto a assumir as críticas e a polêmica em torno de um passo que considera cientificamente necessário. “Não se trata de criar bebês de design, apenas uma criança saudável”, argumenta. Sua técnica não busca “melhorar a inteligência, mudar a cor de olhos, a aparência nem nada similar. Não se trata disso”. Seu método, insiste, “pode ser a única maneira de curar algumas doenças”.

Mas seu anúncio motivou críticas contundentes. Um grupo de 122 cientistas chineses assinou uma carta de repulsa qualificando o experimento como “loucura” e lamentando a mancha que He Jiankui jogou sobre a reputação da pesquisa neste país. As autoridades científicas ordenaram a abertura de um inquérito sobre os testes conduzidos por He.

A universidade onde ele trabalhava como professor associado, a Universidade do Sul de Ciência e Tecnologia, desvinculou-se dele ao apontar que o geneticista se encontra de licença desde fevereiro. E inclusive o hospital com o qual He havia supostamente colaborado denunciou uma possível falsificação de assinaturas no documento de um comitê de ética que dava aval ao trabalho.

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