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A luta de classes de Messi e Cristiano Ronaldo

Ausentes no clássico de domingo, o argentino opõe seu talento natural e seus direitos de nascença ao elevador social movido pelo esforço do português

Messi e Cristiano Ronaldo, no clássico de dezembro passado no Bernabéu.
Messi e Cristiano Ronaldo, no clássico de dezembro passado no Bernabéu. Getty

Gianni Brera, o grande cronista esportivo italiano, chamava Diego Maradona de “divino aborto”. Se Maradona tinha um dia particularmente brilhante, Brera o qualificava como “o aborto mais belo do mundo” e “anão legendário”. Nem é preciso esclarecer que Brera era um gênio no seu campo, seja ele qual fosse. Também projetou e batizou uma filosofia de jogo segundo os parâmetros físicos e mentais que, calculou de olho, os italianos possuíam (“camponeses fracos”, resumiu Enric González). Essa filosofia era o catenaccio, ferrolho: a equipe trancada atrás, dando chutões à espera de um miracolo, um milagre. Preso à sua ideia, se dedicava a atacar os italianos que jogavam futebol de um jeito “bonito”, e o alvo máximo de sua ira era Gianni Rivera, primeiro ganhador italiano da Bola de Ouro. Só 30 anos depois, quando Brera morreu num acidente de carro, soube-se que ninguém como ele admirara tanto a Rivera, cujas partidas assistia encantado, para, logo em seguida, desancá-lo no jornal. Isto conta González em Historias del Calcio, que acrescenta um detalhe que dá a medida do personagem: só falava com zagueiros e com treinadores que se negassem a colocar seus times jogando no ataque.

Na verdade, o catenaccio, como o nazismo, nasceu na Áustria, mas emigrou para começar a funcionar, o que transforma esse país num dos exportadores mais perigosos do continente. Foi o austríaco Karl Rappan, treinador da Suíça nos anos quarenta, que pôs de repente um marcador à frente da linha de três zagueiros; na Itália, Nereo Rocco coloca um homem atrás de quatro defensores. “Líbero”, batizou-o Brera, que ia dando nome às coisas conforme elas aconteciam; dele é o termo “contragolpe”. Subjazia uma ideia certa: as equipes pequenas, com físicos pouco privilegiados ou escassa qualidade, têm que competir com armas de pobres, e não cair na provocação dos elencos com abundância de recursos. Estas últimas eram as donas da bola, ou seja, do dinheiro e dos luxos; às primeiras, restava a pequena poupança, a solidariedade e o ressentimento.

“É a luta de classes!”, exclamou Toni Negri, filósofo de extrema esquerda, no Libération. “As pessoas são fracas e precisam se defender (…). O catenaccio nasceu em Veneza, uma terra que as pessoas se viam obrigadas a abandonar para emigrar porque não tinham o que comer; foram as grandes migrações dos pedreiros e dos sorveteiros para a Bélgica, Suíça, para a região do Reno. O catenaccio corresponde à natureza dessas regiões do norte [da Itália], de emigrantes fortes, duros, ferozes, porque tinham fome”. Ángel Cappa, em conversa com Ignacio Pato na Playground, discorda: “Jogo bonito de esquerda? Digamos que a esquerda tem maior respeito pela estética que a direita, que só pensa na eficácia”. E Valdano, pela boca de Vázquez Montalbán: “O futebol criativo é de esquerda, e o de força, malandragem e chutão é de direita”.

“Algo cheira a podre”

Martín Caparrós, no The New York Times, aponta o imperador nu: “O Brasil seria o futebol de esquerda em todo o seu esplendor: um futebol milionário, luxuoso, que pode se permitir qualquer vício. O uruguaio, por sua vez, seria de direita: trabalhador, humilde, esperançado. Mais extremos na divisão mais injusta: para ser de esquerda, é preciso ser rico e levar os melhores jogadores; a direita fica para os pobres que, como não podem tê-los para criar com elegância, não têm remédio senão brigar. Algo cheira a podre nesta luta de classes”.

O Barcelona x Real Madrid deste domingo será o primeiro desde 2007 sem Messi e Cristiano Ronaldo. Antes, havia se dissolvido a feroz luta de classes empreendida por Mourinho contra Guardiola; sem futebol para combatê-lo, pôs todos os recursos, incluindo Pepe com a cabeça enfaixada como meia criativo, para frear a superioridade culé. Já antes, pela Inter de Milão, seu centroavante Eto’o atuou no Camp Nou como segundo lateral direito. Não faltava dinheiro no Inter nem no Real, mas era impossível aproximar-se da qualidade do meio-campo barcelonista. Essa luta simbólica se projetava melhor nas estrelas de cada equipe. O talento natural e os direitos adquiridos ao nascer por Leo Messi; o elevador social e as conquistas futebolísticas de Cristiano Ronaldo à base do esforço.

Brera chamava Maradona de “divino aborto” porque o argentino era deformado e, entretanto, daquela figura anômala brotava um futebol perfeito, uma sinfonia divina. O que Brera não teria feito com Messi! E o que teria feito, entretanto, com Cristiano Ronaldo! A revista Líbero recordava recentemente uma das poucas confissões pessoais do jornalista: “Eu finjo maltratar aqueles por quem sinto paixão”.

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