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O recorde atômico da maratona de Eliud Kipchoge

Atleta queniano de 33 anos corre os 42,195 quilômetros em 2h1m39s, o primeiro recorde mundial abaixo das 2h2m, diminuindo em 1m18s a marca anterior

Eliud Kipchoge
Kipchoge cruza a linha de chegada em Berlim AFP

A maratona é uma corrida contra o relógio, de 42,195 quilômetros e Eliud Kipchoge é o melhor intérprete que ela já viu.

O campeão olímpico das Olimpíadas do Rio 2016 bateu o recorde mundial em Berlim em uma manhã de verão tardio, 20 graus às 11 da manhã, nem sombra de vento, deixando todo mundo memorizar uma marca atômica, 2h1m39s (um minuto e 18 segundos inferior ao recorde anterior, 2h2m57s, de seu compatriota Dennis Kimetto em 2014), um registro que como os recordes mundiais de Usain Bolt nos 100m e nos 200m resistirá como referência talvez durante décadas (a menos que no ano que vem, e também em Berlim, no mesmo circuito de rua plano em que foram batidos os últimos sete recordes mundiais, o mesmo Kipchoge, que já terá 34 anos, volte a batê-lo).

A marca é enorme, Kipchoge é enorme, o melhor maratonista de uma história que deixou gravada na memória coletiva nomes que já são mitos, como o dos etíopes Abebe Bikila, campeão olímpico em Roma 60 e Tóquio 64, com recordes mundiais nas duas vezes, e Haile Gebrselassie, que bateu duas vezes o recorde mundial, mas nunca foi campeão olímpico nessa distância.

Kipchoge correu à velocidade do raio nos primeiros 40 quilômetros (com parciais a cada cinco de 14m24s, 14m37s, 14m37s, 14m18s, 14m28s, 14m21s, 14m21s e 14m29s) e até acelerou, quase um sprint, nos últimos 2.195 metros, que correu em incríveis 6m8s, a um ritmo abaixo dos 14m em 5.000 metros. Conseguiu dessa forma seu verdadeiro objetivo, não só bater o recorde mundial e sim se transformar no primeiro homem que correu a maratona em menos de 2h2m. Depois, à sombra do Portão de Brandenburgo, comemorou sua vitória como um jogador que faz um gol decisivo e proclamou, “só posso dizer uma palavra: obrigado”.

Três corredores coelho começaram com ele, mas desde o quilômetro 26 correu sozinho. “Foi difícil ficar sozinho, sim”, disse Kipchoge, cuja primeira aparição estelar no mundo do atletismo ocorreu em 2003, quando com somente 18 anos derrotou dois dos maiores da história, Kenenisa Bekele e Hicham el Guerruj, na final dos 5.000m do Mundial de Paris. “Mas estava preparado para isso. Corri minha própria corrida, tal como havia preparado com meus treinadores”. É a quarta tentativa de recorde de Kipchoge em Berlim. Há três anos, a sola do tênis soltou e saiu enquanto corria e frustrou sua corrida (2h4m) e no ano passado a chuva e o vento tornaram o recorde impossível (2h3m32s).

“O espírito transporta o corpo, a força mental é essencial. Corro desconectado de meus pensamentos”, é o lema de Kipchoge, e seu espírito ascético e seu corpo finíssimo, nascido para a corrida de fundo, humanizam melhor do que ninguém os últimos avanços tecnológicos, tênis e bebidas que permitem que o estômago absorva todos os carboidratos que o organismo precisa para se repor, fundamentais na evolução das marcas na maratona.

Era a 12º maratona de Kipchoge, o atleta que mais próximo ficou, oficial e extraoficialmente, da barreira das duas horas, o Everest da distância. Em maio de 2017 correu a distância no circuito de Monza em 2h25s, mas a marca nunca foi homologada pois contou com vantagens excessivas, como um veículo Tesla a sua frente que lhe dava abrigo e vácuo, e corredores coelho que foram se alternando para poder aguentar seus ritmos inumanos. “Corri a maratona mais rápida da história, mas não é o recorde mundial”, disse antes de sua terceira vitória na maratona de Berlim. “Eu irei bater o recorde”. Correu com os mesmos tênis Nike usados em Monza e seu amortecimento interior, os mesmos trajes para esquentar braços e pernas com formatos aerodinâmicos e os mesmos líquidos.

Em sua primeira participação em Berlim, em 2014, sofreu a única derrota nas 11 maratonas que disputou. Foi em 2013. Foi vencido por Wilson Kipsang, que à época bateu o recorde mundial (2h3m23s). O mesmo Kipsang participou em 2018, já com 36 anos de idade. Acabou em terceiro (2h6m48s), superado pelo também queniano Amos Kipruto (2h6m23s)

A melhor corredora foi, como em 2017, a queniana Gladys Cherono (2h18m11s), à frente das etíopes Ruti Aga (2h18m 4s) e Tirunesh Dibaba, a rainha das provas de fundo nos estádios que não consegue manter o mesmo ritmo no asfalto (2h18m55s).

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