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A carnificina de Daniela Thomas

‘O Banquete’, segundo longa-metragem da diretora, retrata os jogos de poder midiático, político e social dos anos 1990

Cena de 'O Banquete', filme de Daniela Thomas.

Uma mosca desavisada pousa sobre uma planta carnívora e é devorada. Em seguida, entra em cena —em uma escura sala de jantar—  a anfitriã da mansão, Nora (interpretada por Drica Moraes) que observa e chora. Esses planos iniciais alertam ao espectador do perigo que espreita à beira da mesa d'O Banquete de Daniela Thomas, que, dois mil anos depois, reinterpretou o clássico de Platão em um encontro de amigos que comem, bebem, fumam, falam de filosofia e orgias, trocam ofensas e declarações de amor. A obra chegou aos cinemas nesta quinta-feira.

Com o pretexto de comemorar os dez anos de matrimônio de um casal de amigos, sentam-se à mesa os peões da elite brasileira da década de 1990: um advogado (Caco Ciocler), jornalistas (Fabiana Guglielmetti e Gustavo Machado, além da própria anfitriã), uma prima donna do teatro nacional (Mariana Lima) e o poderoso (ainda que sem diploma) editor de um veículo impresso, prestes a ir preso por publicar uma carta aberta contra o então presidente Fernando Collor de Mello.

Enquanto suam, se descabelam e se assediam —em todos os sentidos—, falando de vaginas e pênis, Sócrates e Platão, os comensais vivem o suspense de que a qualquer momento a polícia pode irromper pela porta para levar ao Carandiru o personagem, interpretado por Rodrigo Bolzan. Ele lembra, tanto biográfica como fisicamente, Otavio Frias Filho, diretor da Folha de S. Paulo morto no mês passado, que, em 1991, publicou no jornal uma carta contra Collor por "intimidar as ações da imprensa". Thomas afirma que Mauro, personagem do filme, não está inspirado apenas na figura de Frias Filho, mas, ainda assim, retirou a obra da competição em Gramado, onde seria exibida um dia depois do falecimento do jornalista, aos 61 anos, por um câncer. "Há no filme situações inspiradas nas que ele protagonizou na vida real e eu achei que seria inapropriado possibilitar uma sobreposição entre ficção e realidade num momento trágico como este", explica.

O contexto político da época é o pano de fundo do banquete que se desdobra como um teatro gravado, composto por dois planos sequência de uma hora cada, filmados por Thomas e pelo diretor de fotografia, Inti Briones. Inicialmente pensado para os palcos, a diretora demorou 20 anos em realizar o projeto como queria, no qual os atores fossem os senhores da obra e com ensaios feitos em volta da própria mesa usada no filme, tendo como único cenário a espelhada e sombria sala de jantar. "Ao cabo das duas semanas, o jantar estava pronto, a dinâmica azeitada e foi só filmar, em takes longuíssimos num set de 360 graus, sem equipe alguma visível. Não havia diretor no set, dando orientações. Eu ficava atrás de uma parede, comunicando-me exclusivamente com o Briones, por rádio, e assistindo ao take por um monitor", conta ela a experiência que descreve como "incrível".

A narrativa verborrágica do filme está centrada principalmente na figura de Nora, senhora do banquete que, como a planta carnívora que decora a mesa, seduz e ataca seus convidados. Isso permite que os espectadores possam se imiscuir nos desejos, vinganças, orgasmos, traições e velhos e novos rancores dos personagens. Com muita teatralidade, humilhação e golpes baixos, O Banquete recria o efeito ratoeira de filmes como Deus da Carnificina (Roman Polanski) e o ar claustrofóbico de O Anjo Exterminador (Luis Buñuel). Thomas conta que manter os personagens presos à mesa, ainda que fossem alvos das mais baixas ofensas, foi seu principal desafio. Se alguém se levanta, o jogo acaba. Esta é a sensação ao longo das quase duas horas de filme.

A diretora regressa ao cinema depois da polêmica estreia em 2017 de Vazante, sua primeira obra solo, que retrata o Brasil colonial e escravocrata de 1820 e que foi acusada de ser racista. Agora, ela mostra uma elite brasileira que, apesar da vulgaridade nos gestos e gostos, ela não considera decadente. "Ao contrário, a elite que eu busquei  retratar é a que esteve e permaneceu no poder no Brasil por décadas. Uma elite esclarecida, paulistana, uspiana, que sempre se considerou progressista", diz Thomas, acrescentando que tal elite está, atualmente, sob ameaça de um um grupo "anti-intelectual, que vem ganhando enorme força, e quer redirecionar as políticas públicas do Brasil que a elite retratada no filme foi instrumental em produzir".

Thomas acredita que o Brasil atual não cabe na mesa daquele banquete, cujo diálogo foi escrito com a "maior verossimilhança" com as muitas reuniões de artistas e intelectuais que ela, filha do cartunista Ziraldo, presenciou em sua própria casa. Se retratassem o país atual, afirma, os personagens estariam "acuados, atônitos, inseguros com o futuro do país". O convite de Nora, quiçá, não estaria fora de lugar: “Vamos beber enquanto o navio afunda”.

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