Academia anuncia um novo Oscar para o filme mais popular

Hollywood tenta reconquistar a audiência perdida na transmissão da cerimônia de premiação

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A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas continua em luta para reconquistar a popularidade perdida do Oscar. Por isso, a instituição anunciou nesta quarta-feira, 8, uma nova categoria, que premiará o melhor entre os filmes mais populares. Um novo quesito que se somará às 24 categorias já existentes. Por enquanto, a Academia não forneceu detalhes, nem mesmo quais filmes poderão aspirar à estatueta, nem quem se encarregará da indicação e posterior seleção. Mas por trás da notícia está a necessidade que a Academia sente de incluir entre seus prêmios esses outros filmes que, há anos, ficam de fora. A necessidade, por exemplo, de que em 2019 Pantera Negra esteja entre os filmes indicados.

Trata-se de uma decisão que gerou polêmica dentro do setor, mas já era esperada. A Academia deseja frear o rápido declínio dos prêmios mais populares do cinema. Ou, pelo menos, o declínio da sua transmissão televisiva. Embora o Oscar continue sendo considerado um indicador de qualidade dos méritos de um filme, o público há tempos deixou de se interessar por uma cerimônia que não reflete seus gostos. Os anos em que o Oscar era dado aos grandes blockbusters, como Titanic (11 estatuetas em 1998), Gladiador (5 em 2001) e O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei (11 em 2004) ficaram para trás. Nas últimas edições, o Oscar de melhor filme foi para títulos como Moonlight, Spotlight e A Forma da Água, cujos méritos ninguém discute, mas que foram ignoradas pelo grande público. Enquanto isso, filmes campeões de bilheteria, como Guardiões da Galáxia e Star Wars: O Despertar da Força, passaram em branco pelo Oscar. Só foram recordados na hora de premiar seus méritos técnicos, fazendo ouvidos moucos ao gosto do público ou mesmo da crítica.

A Academia tentou solucionar essa divisão entre os gostos dos acadêmicos e do público aumentando para 10 o número de indicados ao troféu de melhor filme. A decisão, tomada em 2009, foi uma resposta à ausência de Batman: O Cavaleiro das Trevas. Uma medida que abriu as portas à indicação (mas não à vitória) de filmes populares como Avatar, Perdido em Marte, A Origem e Mad Max: Estrada da Fúria. Mas, na última edição, a soma da bilheteria de todos os indicados mal chegava à arrecadação de uma das principais estreias do ano. Um reflexo, segundo a crítica, de que filmes como Lady Bird – A Hora de Voar e Me Chame Pelo Meu Nome são ótimos para desfrutar nos famosos screeners, vídeos que os acadêmicos recebem para assistir no conforto das suas casas. Mas não motivam praticamente ninguém a ir ao cinema.

“Escutamos quem fala em melhorias para manter a relevância do Oscar e da nossa academia em um mundo que está mudando”, disseram o presidente da instituição, John Bailey, e sua executiva-chefe, Dawn Hudson, numa carta conjunta dirigida aos membros com o anúncio da nova categoria. No mesmo comunicado, a direção da Academia salientou que a cerimônia continuará durando três horas, após as críticas recebidas pela última edição, em que o espetáculo se prolongou por quase quatro.

A 90ª edição do Oscar foi a menos vista na história dessa transmissão. Foi acompanhada por 26,5 milhões de telespectadores nos EUA, com uma queda de 19% em sua audiência.

Limite de tempo

Entretanto, esse limite de tempo se choca com o acréscimo de uma nova categoria. A Academia está cogitando entregar estatuetas menos populares fora da transmissão, durante os intervalos comerciais, oferecendo essa informação na Internet. Quem escolherá quais categorias ficarão de fora da transmissão é outro dos enigmas. Embora os atores formem o contingente mais numeroso entre os quase 7.000 integrantes da Academia, os diferentes grupos estão representados de maneira equitativa na direção da instituição. E os profissionais ligados às categorias técnicas costumam estar mais envolvidos no dia a dia da Academia que os atores, a face mais visível da organização.

Contudo, as críticas não tardaram a ser ouvidas. Para o crítico Steve Pond, a Academia põe a sua credibilidade em risco. “Assusta que pela primeira vez pareça disposta a considerar a popularidade como um critério de seleção após 90 anos falando de arte”, disse. Os membros também se deixaram ouvir, alguns do anonimato, criticando esse populismo que vai contra tudo o que eles sempre defenderam e que parece ter como prioridade uma boa transmissão televisiva, em vez de defender a excelência do cinema. E outros, como o diretor Jorge Gutiérrez, expressaram sua preocupação no Facebook. “Temo que os curtas de imagem real, documentário e animação ficarão de fora da cerimônia”, lamentou o realizador de O Livro da Vida. “Pessoalmente, acho que precisamos pensar numa cerimônia em streaming, ou não temos futuro.”