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Ana Amélia, o amuleto de Alckmin para atrair bolsonaristas

PSDB desiste de fortalecer ex-governador no Nordeste e formaliza chapa com senadora sulista conservadora

Eleições 2018
Ex-presidente FHC e Alckmin ladeiam Ana Amélia, candidata a vice. AP

“Tenho ao meu lado a vice dos sonhos de todos os brasileiros”, discursou Geraldo Alckmin, em Brasília, na cerimônia do PSDB que o oficializou neste sábado como candidato à Presidência pela segunda vez. Ele se referia à sua recém-escolhida candidata a vice, a senadora gaúcha Ana Amélia, do PP. “Ana Amélia é empoderamento”, seguiu o tucano, usando, não por acaso, uma palavra cara ao movimento que quer fortalecer a presença na política das mulheres: elas são a maioria do eleitorado e a maioria dos indecisos atualmente.

Em princípio, Ana Amélia, 73 anos e em seu primeiro mandato como senadora, contava com forte restrição de seu partido, que preferia indicar uma mulher do Nordeste, como a vice-governadora do Piauí, Margarete Coelho. Pesou, entretanto, a vontade do tucano de tentar avançar sobre o eleitor conservador que migrou do PSDB para Jair Bolsonaro (PSL), de extrema-direita, assim como o de tentar reforçar sua proximidade com mulheres e com a região Sul do país. Três lideranças tucanas ouvidas pelo EL PAÍS disseram que o movimento de aproximação com Ana Amélia é o claro sinal de que faltava um nome de peso no Nordeste e que, nesse cenário, ele preferiu reforçar a verve direitista do PSDB do que apresentar um vice inexpressivo. “Vencer no Nordeste vai ser difícil. O PT ainda tem a preferência lá. E a Ana Amélia vai agregar em áreas que só o Bolsonaro estava de olho, nos mais conservadores”, disse um líder tucano.

Bolsonaro lidera as pesquisas eleitorais em que Lula não é apresentado como o nome do PT. Alckmin não chega aos 10% das intenções de votos e amarga a quarta colocação, atrás de Marina Silva (REDE), e Ciro Gomes (PDT). “O nosso candidato não precisa ser do Nordeste, o que ele precisa é olhar para o Nordeste com atenção”, minimizou o presidente do DEM e prefeito de Salvador, Antônio Carlos Magalhães Neto.  Outros aliados também elogiaram. “Faltava a cereja do bolo. Esta é a cereja do bolo da candidatura Geraldo Alckmin”, afirmou Gilberto Kassab, presidente do PSD.

Fama na TV e gafe sobre Al Jazeera

Jornalista com longa carreira no Rio Grande do Sul, onde atuou como comentarista política na TV Globo local, Ana Amélia foi eleita senadora em sua primeira disputa, em 2010, com forte discurso antipetista. Perdeu o pleito para governadora em 2014 para José Ivo Sartori (MDB) e, agora, estava com elevadas chances de reeleição para o Senado. Pesquisas a colocavam com até 40% das intenções de votos dos gaúchos. Ao decidir concorrer como vice, ela abriu mão de ser uma liderança de direita no seu Estado, que nos últimos anos tem se eleito políticos com esse perfil.

Se o ex-governador de São Paulo não tem como marca frases de efeito, nem mesmo contra os petistas, Ana Amelia tem potencial para ocupar esse papel na campanha. Com seus discursos, ela caiu nas graças do MBL, o grupo de direita ultraliberal na economia e conservador nos costumes que não embarcou na campanha de Alckmin. Em abril, por exemplo, ela subiu na tribuna do Senado para criticar uma entrevista da presidenta do PT, Gleisi Hoffmann, ao canal do Qatar TV Al Jazeera, falando sobre a prisão de Lula. Segundo ela, a entrevista atrairia um "exército islâmico" ao Brasil.

Ana Amélia também é uma das integrantes da bancada ruralista. Ela defende, por exemplo, ampliação do porte de armas no campo, uma proposta que Alckmin passou a ventilar recentemente - mais uma tentativa de aproximação com à liberação total proposta por Bolsonaro. No Senado, destacou-se como opositora ao Governo de Dilma Rousseff (PT) e, em alguns momentos, fez oposição ao governo Michel Temer (MDB), apesar de ter sido favorável à reforma trabalhista e já ter declarado apoio à reforma da Previdência. Em seus discursos também pediu o afastamento do senador Aécio Neves (PSDB) que, assim como Temer, foi citado na flagrado nos grampos da JBS.

Apesar do discurso contra a corrupção, a senadora não vê conflito em ser filiada ao PP, o partido campeão de investigações na Operação Lava Jato. Os próprios Alckmin e Ana Amélia já foram apontados como receptores de recursos ilícitos da empreiteira Odebrecht. Nas planilhas dos executivos da empreiteira, que concordaram em fazer delação, eles eram apelidados de Santo e de Velha. Ambos negam quaisquer irregularidades nos valores doados pela empresa, que assinou uma delação premiada e um acordo de leniência com as autoridades brasileiras. Contra ele há um processo aberto na Justiça por essa razão. Contra ela, o inquérito não foi conclusivo.

Seja como for, isso pode ser considerado leve no contexto da coalizão que dá suporte a Alckmin, que se destaca pelo número de siglas apoiadoras ( PSD, o PP, o PR, o PRB, o DEM, o PTB, SD e o PPS) assim como pelo envolvimento de boa parte de seus aliados em escândalos políticos como mensalão e a Lava Jato. Uma das figuras notórias da convenção foi Roberto Jeferson, do PTB, condenado pelo mensalão, e sua filha, Cristiane Brasil, defenestrada do Ministério do Trabalho antes de conseguir tomar posse. No campo das ausências, chamou a atenção a de Aécio Neves. Candidato derrotado por Rousseff, em 2014, Aécio foi convencido a não concorrer à reeleição para que não precisasse aparecer no mesmo palanque que o candidato a governador do partido em Minas Gerais, Antonio Anastasia, nem no do próprio Alckmin. Difícil que essa retirada de cena surta efeito sobre os adversários.

"Precisamos da ordem democrática, que dialoga, que não exclui, que tolera as diferenças, que não busca resolver tudo na pancadaria nem usa o ódio como combustível da manipulação eleitoral”, discursou Alckmin, em mais um sinalização que escolheu Bolsonaro como adversário a ter a imagem desconstruída, no jargão do marketing político.

Se, ao contrário do que parecia no começo de junho, Alckmin conseguiu chegar como candidato competitivo na campanha, agora com Ana Amélia, amuleto direitista, acredita ter ganhado forçar para enfrentar dois desafios. O primeiro é chegar ao segundo turno. E, uma vez nele, a prova será superar o trauma de 2006. Com um série de erros na campanha, naquele ano Alckmin perdeu para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no embate final com um raro recorde: recebeu menos votos no segundo turno do que no primeiro.

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