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COLUNA

Receita para sobreviver ao pior agosto

Em diálogo espiritual com o amigo Caio F., uma ideia de leveza para o mês do desgosto histórico

Caio F. Abreu
Caio F. Abreu

Atravessar agosto, caríssimo Caio Fernando Abreu (1948-1996), continua sendo uma arte que exige paciência e fé. A tua receita clássica, na crônica do dia 06/08/1995, no Estadão, segue imbatível. Voltei ao profilático texto por obra e graça do colega Vilmar Ledesma, que o relembrou nas redes sociais, com o recorte do jornal à mostra.

Não quero entrar numas de agostos comparados, Caio F., te juro, porém te digo: o da safra 2018 não será nada digerível. Se dizias, 23 anos, “FHC agrava agosto”, imagina o fim da feira pós-golpista, com um Temer fechando o ciclo de um inferno anunciado. Nem falemos da campanha eleitoral e seus augúrios, melhor bater três vezes aqui na fórmica do balcão do bar do Toninho, desce mais uma, amigo, xô uruca.

Não comparemos os agostos, afinal de contas, desde o estouro da Primeira Guerra Mundial, há motivos de sobra para debitar maldições históricas na conta do mês do cachorro louco. Abril é o pior dos meses somente para o amor, nobre T. S. Eliot, a folhinha oito do calendário é imbatível nas tragédias sociais. Toc-toc-toc mais uma vez, vade retro, belzebu, cão das costas ocas, febre do rato, istampô calango, cabrunco, besta fubana, misericórdia!

Para atravessar agosto, meu chapa, é preciso saber esperar a primavera como o menino Bandini; ler o livro novo do Lourenço Mutarelli —“O filho mais velho de Deus”— também ajuda, que livraço, é como se tomasse um porre ou um ácido (safra 1970) com o Kurt Vonnegut, careço dizer mais?

Se agosto teimar em doer no osso, juro que recito, em público, entre o Paraíso e a Consolação, as partes mais punks do “Morangos Mofados”, só para revelar, Caio F., que não és nada fofinho de citação de Facebook, és o eterno punk das cantadas literárias da editora Brasiliense.

Para sair vivo do outro lado de lá de agosto, pular setembro e cair direto na plateia do show de Nick Cave em outubro, bem depois do inferno astral de libra, ave, só resta a este avôhai —avô e pai—, brincar 24 horas com Irene e pedir bis, mesmo que depois chame o mestre Satoro para massagear do espinhaço ao mucumbuco. Pegar na mão da mãe no cinema, quanto tempo depois daquele “Blow-Up” no Belas Artes, faz uma cara, será também um refrigério d´alma, ufa, de preferência na sessão das cinco, a sessão Belchior —aquela de beijar a menina e sair com a camisa toda suja de batom.

Caro Caio F., para atravessar o agosto de hoje em paz, urge passar ao largo de muitas tretas nas redes sociais e se entregar a intermináveis sestas na mais cearense das redes ibéricas, a rede quadricolor entre os buritis na chapada do Araripe, com o bucho cheio de pequi e a mente prenha de todas as preguiças anticapitalistas.

Atravessar um agosto com tantas injustiças, julgamentos que atendem mais aos donos da mídia do que ao povo, ah, seus juízes ditos superiores, façam-me favores, um dia, quem sabe, só por um dia, como no Alcoólicos Anônimos, sejam neutros.

Passar por dentro do mês 8 no calendário da parede, através, mesmo, e sair vivo do outro lado. Tarefa para heróis, heroínas e todos os super trans. Prepare-se. A missão está apenas começando. Qual um garoto fodido tipo Bandini, o do livro do John Fante, esperemos a primavera. Como te esperei, Caio F., na porta daquele flat da rua Frei Caneca, SP, frio da porra, por um autógrafo no “Morangos Mofados”. Valeu deveras o conhaque no bar do santista da esquina com a Peixoto Gomide.

Que agosto nos seja leve.

Xico Sá, escritor e jornalista, é autor de “Sertão Japão” (Casa de Irene edições, 2018), entre outros livros.