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A cartada pragmática do PT deixa sequelas

Partido opta por rifar Marília Arraes para fortalecer Pimentel em Minas. Diretório petista em Pernambuco se rebela

Eleições 2018 Lula
Manifestante com máscara do ex-presidente. AP

De dentro de uma cela na sede da Polícia Federal em Curitiba foi costurada uma das negociações mais controversas destas eleições até o momento, com a anuência e participação direta do ex-presidente Lula. Em troca do apoio do PSB à candidatura do governador de Minas Gerais, o petista Fernando Pimentel - o principal palanque do partido no Sudeste -, a sigla se dispôs a abrir mão de lançar Marília Arraes na disputa para o Governo de Pernambuco. Ela era a petista mais competitiva no Estado em anos. Por um lado, além do ganho eleitoral em Minas, o compromisso dos socialistas – não de forma pública e oficial ainda - de manterem uma neutralidade no âmbito nacional deixa o pré-candidato Ciro Gomes (PDT) isolado e fortalece a posição do PT como o grande polo da esquerda na corrida para o Planalto. Por outro, no entanto, ao rifar Arraes, 34, a legenda reforça sua lulodependência e irrita apoiadores, especialmente em Pernambuco, e quadros ilustres, tanto históricos como neófitos. O diretório petista de Pernambuco cumpriu a promessa de se rebelar e vai exigir que o PT nacional discuta a questão.

O ex-governador do Rio Grande do Sul Tarso Genro, por exemplo, um crítico contumaz de um certo pragmatismo do PT e considerado à esquerda no partido, lamentou a manobra, e chamou a jovem Arraes de "o grande quadro renovador da esquerda do Nordeste". “Peço a Deus e às forças do além que eu não esteja entendendo bem que foi feito um acordo PT-PSB",  Um dos parlamentares mais próximos de Lula, o deputado federal Wadih Damous (RJ), que visita o ex-presidente com frequência em Curitiba, usou o Twitter para lamentar. “A decisão pró-PSB em Pernambuco dói na minha alma e na alma da militância. Em nome de um acordo regional, afasta-se uma liderança promissora como Marilia Arraes. Um grave erro político”, escreveu. Procurado pela reportagem, Damous afirmou que não iria mais se manifestar sobre o assunto. A petista pernambucana recebeu também o apoio de Marcia Tiburi, a filósofa candidata ao governo do Rio. "Declaro total apoio à . Acabei de falar com ela e estaremos juntas a partir do que ela decidir", escreveu no Twitter.

A movimentação do PT não foi, no entanto, uma surpresa. Há meses o PT negociava com o PSB. O pacto se soma a outros semelhantes feitas pelo partido este ano em Estados do Nordeste e Norte do país. Em Alagoas, por exemplo, o PT abriu mão de candidatura própria ao Senado e formalizou apoio à reeleição do senador Renan Calheiros (MDB), que votou de forma favorável ao impeachment da então presidenta Dilma Rousseff - o que lhe valeu o rótulo de "golpista" por parte dos petistas. No Ceará, Amazonas, Amapá e Piauí a legenda fez acordos similares em detrimento de seus próprios quadros.

“A decisão envolvendo Minas e Pernambuco é estrategicamente correta tendo em vista a disputa nacional”, afirma o cientista político da Unicamp Oswaldo Amaral, autor de um livro sobre o partido. “Nas eleições em que o PT se coligou com o PSB, a legenda do ex-presidente Lula já havia aberto mão de várias disputas nos Estados nordestinos em troca deste apoio nacional”. De acordo com Amaral, a aposta da legenda é, tendo em vista a articulação de Geraldo Alckmin com o Centrão, forçar a polarização entre esquerda e direita que tem se repetido nos últimos pleitos. “Neste cenário é preciso reduzir o número de oponentes, para isso servem as coligações, além do tempo de TV, claro. Se você tira estrutura de alguém que pode disputar seu eleitorado fica mais fácil”, completa, referindo-se à manobra petista para isolar Ciro. Assim, Arraes se tornou uma espécie de dano colateral do plano petista. "Felizmente ela é nova, terá outra oportunidade no próximo pleito", diz.

Do ponto de vista pragmático, Minas é um Estado-chave que representa o segundo maior colégio eleitoral do Brasil, com mais de 10% do total de eleitores, atrás apenas de São Paulo. Já Pernambuco concentra pouco menos que 5% dos votantes. “Com o acordo o PT reforça um Estado importante do ponto de vista nacional, mas também se fortalece regionalmente: Minas é um dos poucos do Sul e Sudeste onde a legenda tem chances de se manter no poder, tendo em vista que nestas regiões a crise de popularidade pela qual o partido passa é mais forte”, afirma o cientista político Rafael Cortez, da Tendências Consultoria.

"Não adianta mais tentar unir a esquerda por meio de chantagem"

Seja como for, a decisão deve demorar para decantar. Preterida em Pernambuco, Marilia Arraes, que ocupa a segunda colocação nas pesquisas mais recentes e é herdeira do legado político do ex-governador Miguel Arraes, foi referendada pelo PT de Pernambuco como candidata nesta quinta e haverá recurso. O senador petista Humberto Costa e o vice-presidente estadual da legenda, Osmar Barreto, foram recebidos aos gritos de "golpistas" no encontro estadual do PT, registrou em vídeo o jornal Diário de Pernambuco. Marília discursou e falou duro: "Não adianta mais tentar unir a esquerda por meio de chantagem. É o que o PSB Está fazendo. O PSB chantageia o PT", disse.

Em Minas Gerais Márcio Lacerda (PSB) também não viu com bons olhos ser rifado na negociação. Em nota o ex-prefeito disse que tomou conhecimento da decisão do PSB de apoiar o atual governador Pimentel com “indignação, perplexidade, revolta e desprezo”. Ele também afirmou que não pretende disputar o Senado pela legenda, opção sugerida pelo presidente nacional do partido Carlos Siqueira, e também sinalizou que deve recorrer.

Esta não foi a primeira vez que a cúpula do PT tomou decisão polêmica em Pernambuco. Nas eleições de 2012 a legenda desconsiderou a vitória nas prévias do então prefeito do Recife e candidato à reeleição, João da Costa, para impor a candidatura de Humberto Costa. A decisão, ungida por Lula, que participou ativamente da campanha de Costa, dividiu o partido e levou a uma vitória de Geraldo Júlio (PSB).

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