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Trump e países do G7 se distanciam após cúpula crispada pelo comércio

Aliados chegam a comunicado genérico contra o protecionismo, mas se mantêm as tensões.

“Somos o cofrinho de que todo mundo rouba”, afirma o presidente dos EUA

Em imagem disponibilizada pelo Governo alemão, a chanceler Angela Merkel fala com o presidente Donald Trump.
Em imagem disponibilizada pelo Governo alemão, a chanceler Angela Merkel fala com o presidente Donald Trump. AP

A cúpula do G7 terminou em chamas neste sábado no Canadá. O grupo de países mais industrializados do mundo anunciou que tinha acordado em comunicado conjunto tratar de evitar uma escalada protecionista, depois de dois dias de reuniões muito difíceis pelo giro isolacionista dos Estados Unidos. A tensão estourou pouco depois. O primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, criticou a política de Trump em sua coletiva de imprensa de fechamento e o presidente se revoltou via Twitter pouco momento depois. Fiel a seu desejo, vulcânico, imprevisível, anunciou que ordenava a seus representantes que não subscrevessem o texto.

"Baseado nas falsas declarações de Justin em sua coletiva de imprensa, e no fato de que Canadá está cobrando tarifas massivas de nossos fazendeiros, trabalhadores e empresas, instruí nossos representantes para que não apoiem o comunicado enquanto olhamos nossas tarifas sobre os automóveis que inundam o mercado norte-americano", escreveu em sua conta da rede social.

A cúpula fracassou estrondosamente no objetivo de reduzir as tensões, começando como começou, já crispada, com censuras públicas de Trump à União Europeia e o primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, e a réplica do presidente francês, Emmanuel Macron, que advertiu ao nova-iorquino que ninguém é eterno e que o mercado dos seis países restantes superava o dos EUA. Na coletiva de imprensa de fechamento, Trudeau considerou "um sucesso" as conversas "francas" entre os países, mas seu enfado era evidente: "Os canadenses somos amáveis e razoáveis, mas não nos vão avassalar", enfatizou. De novo, qualificou como "insultante" que Washington use o argumento da segurança nacional para subir as tarifas de seus produtos, tendo em conta, ressaltou, que soldados de ambos países "lutaram ombro a ombro em terras longínquas em conflito desde a primeira guerra mundial".

O passo de Trump por Quebec foi turbulento e ciclotímico. Chegou tarde, se foi cedo, e durante sua estância combinou os elogios com ameaças de ruptura e frases grosseiras, marca da casa. “Somos o cofrinho de que todo mundo rouba”, lamentou em uma declaração diante da imprensa, logo antes de abandonar a cúpula. Contra prognóstico, EUA, Canadá, Reino Unido, França, Alemanha, Itália e Japão foram capazes de acordar um comunicado em que concordam em reduzir impostos, de forma genérica, e se comprometem a modernizar a Organização Mundial do Comércio (OMC), organismo que os Estados Unidos ajudaram a criar em 1995, mas que a nova ordem de Washington critica com dureza. 

Os EUA não subscreveu as referências do texto à luta contra a mudança climática, como ocorreu na última cúpula, já que deixou o Acordo de Paris. Mas o principal cavalo de batalha agora é o comércio. Trump declarou a guerra ao déficit comercial. Os EUA, a primeira potência econômica mundial, importam de outros países muito mais do que exportam, e este desequilíbrio, que somou 556 bilhões de dólares (472,5 bilhões de euros) no ano passado, foi sua fixação desde que começou sua caminhada para a Casa Branca. Ele o atribui a acordos comerciais injustos e lhe culpa pela perda de pujança fabril da economia. Neste contexto, ativou em junho uns tarifas ao aço (25%) e ao alumínio (10%) procedente do Canadá, México e a UE. Os afetados responderam com represálias equivalentes, alimentando uma escalada de tensão diplomática que marcou esta cúpula.

Na sexta-feira, surpreendeu pondo sobre a mesa a possibilidade de criar um espaço comercial comum. “Nem impostos nem barreiras, é assim que deveria ser. E sem subsídios”, resumiu neste sábado, sem ficar muito claro se tratava-se de uma posição meditada ou um rompante. Trump assegurou que “a relação com Angela [Merkel] e Emmanuel [Macron] é 10”. “Não lhes culpo, senão a meus predecessores, não só Barack Obama, isto leva 50 anos”, assegurou, mas ressaltou que terá de haver mudanças em material comercial. “Não têm alternativa, devem o fazer”, disse, porque, de outro modo, “não faremos comércio”. Ato contínuo, deu como exemplo o setor lácteo do Canadá e criticou o encargo de 270% que seu vizinho do norte aplica ao leite dos EUA.

A Administração de Trump abriu três frentes comerciais a um tempo: uma com Pequim, outra com a UE e o do Tratado de Livre Comércio da América do Norte (TLC) com Canadá e México. A China representa o grosso do desequilíbrio comercial norte-americano (375 bilhões de dólares), seguida da Europa (151 bilhões), mas Washington não distinguiu entre rivais e aliados.

Fontes do Governo francês citadas pela Bloomberg assinalaram que as conversas entre europeus e norte-americanos poderiam ser retomadas nos próximos dias. O chanceler Merkel propôs a criação de um mecanismo de avaliação para canalizar as negociações comerciais com a primeira potência.

Seu líder ausentou-se antes de tempo. Trump deicidiu encurtar sua estadia alegando a necessidade de preparar sua histórica cúpula com o líder norte-coreano Kim Jong-un, com quem espera pactuar a desnuclearização da península. Quanto lhe leva a crer que esse compromisso é crível?, perguntou-lhe um jornalista. “Vou sabê-lo no primeiro minuto”, respondeu. “É meu toque, minha sensação, é o que faço”. E partiu rumo a Cingapura.

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