Crimes contra a imprensa

Ataque a jornalista em Rondônia expõe violência crescente à imprensa

Hamilton Alves sofreu ataque a tiros em abril, três meses depois do assassinato dos jornalistas Uelinton Brizon, também em Rondônia, e de Jefferson Pureza, em Goiás

 A picape Chevrolet S10 de Hamilton Alves foi alvejado com oito tiros.
A picape Chevrolet S10 de Hamilton Alves foi alvejado com oito tiros.Flávio Afonso (NotíciasMais)

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Com o impacto dos tiros, a picape Chevrolet S10 em que o apresentador viajava de volta do trabalho para casa, saiu da estrada e desceu uma ribanceira. “Só escapei por milagre”, afirma Hamilton. Ele é apresentador do programa Abrindo o Jogo, da Rádio Nova Jaru, em que faz denúncias de casos de corrupção de pessoas ligadas à administração pública e políticos.

Um dos tiros atingiu a boca do radialista, ferimento que o impede de retornar ao trabalho por causa do tratamento médico. Uma terceira bala ficou alojada no pescoço e não pôde ser retirada. Os ferimentos no braço esquerdo deixaram dois dedos paralisados.

Hamilton Alves é o segundo profissional da comunicação a sofrer atentado à liberdade de imprensa este ano, em Rondônia. Em 16 de janeiro de 2018, o jornalista Ueliton Brizon foi assassinado com quatro tiros, em Cacoal.

Organizações que defendem a liberdade de expressão e a liberdade de imprensa, cuja data foi celebrada no dia 3 de maio em várias partes do mundo, condenam os atentados aos profissionais de Rondônia. Entre elas está a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e a Artigo 19. Segundo a Abraji, só este ano foram registrados 56 casos de violência contra profissionais relacionados ao contexto político-eleitoral no país.

Tiros para calar

Com 28 anos de profissão, sendo cinco à frente do programa Abrindo o Jogo, Hamilton Alves disse acreditar que o motivo do atentado seja por denunciar casos de corrupção contra políticos e agentes públicos no programa da rádio. Na tentativa de homicídio contra ele há “digitais” de crime encomendado, com o envolvimento de pistoleiros, ação muito comum na Amazônia.

“Eu faço denúncias baseadas em mensagens do povo enviadas por áudios, vídeos e textos. São denúncias sobre problemas da cidade e dos cidadãos. É um jornalismo político”, diz o radialista. “Dou voz a quem não tem para quem apelar”, completa ele.

O atentado contra Hamilton Alves aconteceu a 14 quilômetros de sua casa, em Ouro Preto do Oeste, cidade distante 330 quilômetros de Porto Velho. Um homem, que estava na garupa de uma moto Honda Titan, de cor escura, atirou oito vezes contra a caminhonete do radialista. Ele foi atingido com cinco balas, sendo que duas o acertaram na boca, duas no braço e uma no ombro.

Ele conta que precisou se arrastar pela ribanceira até a estrada, onde foi avistado por um policial, que o socorreu. “Não sei identificar os atiradores. Eles usavam capacetes. Só vi os olhos deles”, afirma.

O policial que ajudou o radialista foi o soldado Flávio Batista de Andrade, da Polícia Militar de Rondônia. Ele estava viajando pela BR-364 quando percebeu a situação. Saiu do carro com uma arma na mão, assustando os atiradores, que fugiram do local. “Por sorte”, conta em depoimento o policial sobre estar a poucos metros de distância do carro do radialista.

Em outro veículo, que também trafegava na estrada, viajavam quatro médicos. Eles fizeram os primeiros atendimentos ao radialista, o que foi decisivo para mantê-lo vivo.

Hamilton Alves foi levado em seguida a um hospital local onde recebeu o segundo atendimento, em Jaru. Depois, o governo do Estado fez o deslocamento de avião do radialista para o Pronto Socorro João Paulo II, em Porto Velho.

Após dois dias de internação, o radialista disse que saiu “por conta própria” do hospital público. “Não estava sendo bem atendido, e fui internado em um hospital particular”, contou.

O radialista revelou que passou por duas cirurgias para retirar as balas alojadas em seu corpo: uma na região da boca e outra no tórax. Uma terceira ficou alojada no pescoço e não pôde ser retirada. Ele diz também que outros dois projéteis atingiram um braço esquerdo.

Hamilton ficou hospitalizado durante oito dias e permanece em Porto Velho, onde diz que tem mais segurança.

Investigação em sigilo

O jornalista Ueliton Brizon foi assassinado em janeiro.
O jornalista Ueliton Brizon foi assassinado em janeiro.Rondoniagora

A reportagem da Amazônia Real procurou a Delegacia de Jaru, onde um inquérito foi aberto para investigar o crime de tentativa de homicídio contra o radialista Hamilton Alves. Por meio da assessoria, o delegado Salomão de Matos Chaves disse que preferia não se manifestar sobre as investigações, que tramitam em sigilo.

Já Hamilton diz que confia na elucidação do crime pela polícia, mas reclama do fato de “não poder ter um porte de arma para se defender, enquanto os pistoleiros andam armados”.

Ele diz, ainda, que “esperava mais apoio” nesta hora difícil. “Recebi muitas mensagens, mas é tudo muito subjetivo. De concreto, mesmo, está sendo pouco”, considera.

Hamilton afirma que aguarda a recuperação dos ferimentos provocados pelas balas para retomar o programa “Abrindo o Jogo”, que diariamente vai ao ar pela Rádio Nova Jaru FM, das 12h às 13h30.

“Minha língua ainda está muito inchada, mas em 15 dias já posso retomar o microfone. Eu tenho que trabalhar. Nem que para isso a rádio tenha que ficar com as portas fechadas durante o programa”, afirma o radialista. Mas o programa continua no ar; o repórter Rangner Andrade substitui Hamilton Alves.

O programa Abrindo o Jogo tem audiência em cerca de 12 municípios e distritos da região de Ouro Preto d´Oeste e Jaru, disse Hamilton. Ele conta que já recebeu ameaças, por meio de avisos como “não mexa com isso que é perigoso”, e “cuidado com esta pessoa”.

Hamilton Alves nasceu em Palmares, município pernambucano. A paixão pelo rádio, segundo ele, vem de criança. Com 20 anos, ele se mudou para Rondônia. Iniciou a carreira em Porto Velho, na área de publicidade da Rádio Tropical. Em Ji-Paraná, trabalhou nas rádios Itapemirim (que atualmente se chama Planalto), Alvorada, Ji-Paraná e FM do Povo.

Em Jaru, comandou o programa Tribuna do Povo, com o mesmo formato do que apresenta atualmente, na rádio FM do Povo, durante oito anos. O Abrindo o Jogo tem cinco anos de existência. Para se aperfeiçoar, o radialista diz que frequentou uma escola técnica de radiojornalismo de São Paulo.

“A minha grande satisfação é atender à população, que não tem a quem apelar. Fico indignado com a corrupção e o roubo de dinheiro público, enquanto o povo sofre porque não tem acesso a exames médicos e medicamentos, entre outros problemas”, afirma Hamilton Alves.

Perito trabalha no veículo do radialista Hamilton Alves.
Perito trabalha no veículo do radialista Hamilton Alves.Flávio Afonso (NotíciasMais)

Reação internacional

O atentado contra o radialista Hamilton Alves provocou reações do Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ). Em 24 de abril, Carlos Martínez de la Serna, diretor de Programas do CPJ, em Nova York, emitiu comunicado dizendo que “as autoridades em Rondônia devem conduzir uma investigação completa sobre o ataque ao radialista e levar os responsáveis à Justiça”.

Carlos destacou que “repórteres nos Estados majoritariamente rurais do Brasil enfrentam ameaças fatais simplesmente por informar suas audiências, e as autoridades devem agir para mostrar que tais tentativas de silenciar jornalistas não serão toleradas”.

Elucidar crimes não é um problema para Rondônia. O Estado foi classificado positivamente pelo Índice Global da Paz, que faz a lista mundial de países com maior segurança. Os municípios Pimenta Bueno, Primavera de Rondônia e São Felipe do Oeste – com população de 50.000 pessoas – têm os melhores índices de sucesso em investigações de crimes. Nos últimos oito anos, apenas um dos 83 assassinatos cometidos não foi resolvido – o que dá quase 99% de sucesso nas investigações. O Brasil está na 105º posição no ranking.

No entanto, a investigação sobre a morte do jornalista Ueliton Brizon ainda não foi elucidada pela Delegacia de Cacoal.

Segundo a Abraji, o jornalista Brizon foi assassinado no dia 16 de janeiro de 2018, em Cacoal, a 479 quilômetros de Porto Velho. O profissional era proprietário e editor do Jornal de Rondônia, e também presidente municipal do Partido Humanista da Solidariedade (PHS) e suplente de vereador na Câmara de Cacoal.

“O jornalista estava acompanhado de sua esposa em uma motocicleta e foi atingido por quatro tiros disparados por outro motociclista. Brizon, de 35 anos, foi socorrido com vida, mas morreu ao dar entrada no hospital. Segundo a Polícia Civil de Cacoal, as investigações sobre o assassinato estão no início e nenhuma hipótese é descartada”, diz nota da Abraji.

Em Roraima, a Abraji também registrou que o jornalista e apresentador da rádio 93 FM de Boa Vista, Marcelo Ribeiro, teve sua casa e carros revistados sem mandado judicial no dia 28 de fevereiro. De acordo com a associação, o caso teria sido motivado por uma ameaça feita pelo empresário Renan Bekel Filho, que esteve presente na ação policial em busca de uma suposta arma de fogo de propriedade do jornalista.

Graves violações

No Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, 3 de maio, a organização Artigo 19 lançou o relatório Violações à Liberdade de Expressão – 2017.

O Dia Mundial da Liberdade de Imprensa foi proclamado pela Organização das Nações unidas (ONU) em 1993, como uma resposta a pedidos de jornalistas africanos. A data tem como objetivo informar os cidadãos sobre as violações à liberdade de imprensa e desenvolver ações que favoreçam a liberdade de imprensa em todo o mundo.

O radialista Hamilton Alves, que  faz denúncias de casos de corrupção contra agentes públicos e políticos, sofreu um ataque a tiros em abril.
O radialista Hamilton Alves, que faz denúncias de casos de corrupção contra agentes públicos e políticos, sofreu um ataque a tiros em abril.

O estudo anual da Artigo 19 registra e analisa as graves violações cometidas contra comunicadores no Brasil. Segundo o relatório, as principais tendências que marcam o cenário de hostilidade à liberdade de expressão no país seguem basicamente as mesmas.

Em 2017, conforme os dados da Artigo 19, a maioria dos comunicadores alvo de violações contra a vida (homicídios, tentativas de assassinato e ameaças de morte) tinham exatamente esse perfil: radialistas em cidades pequenas. Foram 10 casos desse tipo (3 tentativas de assassinato e 7 ameaças de morte), de um total de 27 violações contra comunicadores que integraram o relatório. Veja os dados de 2016 aqui.

A agência Amazônia Real entrevistou Júlia Lima, do Programa de Proteção e Segurança da Artigo 19. Ela disse que o atentado contra Hamilton Alves é precisamente o tipo de situação de atentado à liberdade de imprensa. “No caso deste crime, ainda temos poucas informações. Entretanto, do que levantamos, o crime tem muitos traços comuns com violações à liberdade de expressão que apuramos”, diz.

Segundo Júlia Lima, o radialista Hamilton destaca-se por sua cobertura crítica em relação ao poder público e a políticos locais. “E é radialista com atuação centrada numa cidade de menos de 100 mil habitantes. Esse é um perfil especialmente vulnerável de comunicadores.”

“Vale lembrar que, de acordo com nossa apuração, agentes públicos são justamente os principais atores por trás dessas violações. Em 2017 foram responsáveis por 74% dos casos”, disse Júlia.

Para a organização Artigo 19, o ano de 2018 começou especialmente violento, com o assassinato de dois comunicadores: Jefferson Pureza, em Goiás, e Ueliton Brizon, em Rondônia, em circunstâncias onde há suspeita de motivação relativa à profissão. É o mesmo número de assassinatos registrados em todo o ano passado.

“O caso de Hamilton soma-se também a outras ocorrências de tentativa de homicídio a comunicadores que estamos apurando esse ano. Se em 2017 notamos uma leve queda no número de violações contra a vida de comunicadores, o ano de 2018 não traz um cenário otimista. Consideramos que o crime contra Hamilton deve ser investigado com o maior rigor e celeridade, e que as autoridades reconheçam a violação à liberdade de expressão como uma linha investigativa”, disse Júlia Lima, da Artigo 19.

Já a Abraji levantou 56 casos de violência contra profissionais relacionados ao contexto político-eleitoral e 16 de naturezas variadas no Brasil. Nos dados, que são parciais, há registros de dois assassinatos em 2018, um deles de Ueliton Brizon, em Rondônia.

Atentado contra o radialista Hamilton Alves.
Atentado contra o radialista Hamilton Alves.Flávio Afonso (NotíciasMais)

A reportagem da Amazônia Real enviou perguntas para a diretora-executiva da Abraji, Marina Iemini Atoji, para falar sofre os indícios de mortes de jornalistas ligadas ao exercício da profissão no Brasil. Os crimes classificados como atentados contra a liberdade de imprensa, a liberdade de expressão e à democracia. Leia a seguir:

Pergunta. Quantos jornalistas sofreram violência este ano no Brasil?

Resposta. Além dos três casos que você menciona, a Abraji compilou outros 56 casos em contexto político-eleitoral e outros 16 de naturezas variadas. Os números são parciais, dada a dificuldade de monitorar todas as ocorrências.

P. Quantos foram assassinados?

R. A Abraji registrou dois casos de assassinatos com provável ligação com a atividade jornalística/de comunicação exercida pela vítima em 2018. O que você cita, em Rondônia (Ueliton Brizon), e o de Jefferson Pureza, em Goiás.

P. Como podemos estimar o grau de violência contra jornalistas, comunicadores, etc… no Brasil atual?

P. Há alguns indicadores (sempre imprecisos, dada a dimensão e a diversidade do país) que podem ser usados. Para a violência física, a quantidade de agressões e assassinatos de comunicadores em virtude de sua atividade. Também há a quantidade de outros tipos de ações que, embora não constituam violência no termo estrito, podem oferecer risco à liberdade de expressão: processos judiciais contra comunicadores, em especial os criminais (por calúnia e difamação, por exemplo); os cíveis que impõem indenizações desproporcionais e aqueles que buscam a retirada de conteúdos da web. Ambos podem inviabilizar a atividade do comunicador, provocando autocensura ou deixando-o sem condições financeiras de exercer o ofício. Há ainda casos de ofensas/assédio via redes sociais, intensificadas do ano passado para cá. A depender da intensidade e frequência com que acontecem, tais casos servem de termômetro para a liberdade de imprensa.

P. Como você classifica as atuais violações no exercício da profissão no Brasil?

R. Quaisquer violações ao exercício da liberdade de expressão são inaceitáveis. Agressões físicas a jornalistas, impedimento do exercício da atividade, condenações na esfera criminal por ofensa à honra, processos cíveis em massa, tudo que comprometa o trabalho de comunicadores é um atentado direto à democracia.

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