Repensar o México

Necessidade de acabar com a desigualdade, a corrupção e a violência marcam a campanha presidencial, que começa nesta sexta-feira

Militares durante desfile por ocasião do Dia da Independência em 2017, no Zócalo, na Cidade do México.
Militares durante desfile por ocasião do Dia da Independência em 2017, no Zócalo, na Cidade do México.Henry Romero (Reuters)

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O México vive enclaustrado em um presente eterno. Imerso em um diagnóstico crônico das falhas do sistema, este evidencia a necessidade de rever as soluções e dar uma guinada para o país não continuar mergulhado em uma repetição incessante. O cansaço e o desencanto com a classe política que se expande sem cessar pelo mundo convivem com males antigos tão atuais: corrupção, impunidade, violência... No horizonte próximo, um cenário de catarse eleitoral que de novo provoca debates e a urgência de que alguma coisa mude.

Diante do compromisso de 1 de julho, em que o país elegerá um novo presidente e mais de 3.000 representantes públicos, as publicações mais recentes, sejam ensaios, compilações, romances ou manifestos, fazem um chamado para a busca de uma saída à atual situação, pela qual se dê o passo definitivo à modernidade em todos os âmbitos. Repensar o México que surgirá a partir da próxima eleição se tornou inescapável. “Nada do que deixa as pessoas irritadas tem remédio fácil ou rápido, e o cansaço não inclui a paciência. O antídoto mais à mão é propriamente as eleições”, opina o escritor e jornalista Héctor Aguillar Camín, coordenador de cerca de trinta ensaios que, agrupados sob o título de ¿Y ahora qué? México ante el 2018 (E Agora? O México Diante de 2018) (Nexos, Debate e Universidade de Guadalajara), indicam o diagnóstico e a doença”. O que temos que pensar com rigor é como transformar institucionalmente o país, como melhorá-lo em todos os campos com mudanças precisas”, especifica o diretor da revista Nexos.

No próximo mês de julho, 14 milhões de pessoas poderão votar pela primeira vez e um de cada três potenciais eleitores terá menos de 29 anos

Em seu texto, Aguilar Camín disseca o panorama atual sem rodeios: “O país que irá às eleições em 2018 é inferior ao que sonharam estes anos seus Governos e seus cidadãos, e que ambos poderiam ter construído com menos erros. A frustração e o desencanto dos últimos anos jogaram sobre nossos problemas um olhar crítico que impede que se tenha esperanças e obriga a encontrar respostas, porque somente o diagnóstico não basta: estamos também fatigados, irritados e até fartos de diagnósticos sem saída, de denúncias sem consequências e de soluções mágicas, demagógicas ou providenciais”

Os problemas são recorrentes. A corrupção, a impunidade, a violação dos direitos humanos são assuntos que percorrem as dezenas de ensaios publicados no último ano, e também os romances: o devastador Temporada de Huracanes (Temporada de Furacões), de Fernanda Melchor (Literatura Random House); o conjunto de relatos La Superficie más Honda (A Superfície Mais Funda), de Emiliano Monge (Literatura Random House), ou o mais recente Una Novela Criminal (Um Romance Criminal), de Jorge Volpi (Alfaguara), em que documenta a farsa da prisão de Florence Cassez, são apenas alguns exemplos.

Em nenhum caso se vislumbra um horizonte alentador, e se este se vislumbra, sempre é nebuloso. A particularidade, se houver, é que aquilo que em muitos lugares se tornaria um parecer hiperbólico, no México é encarado como uma sequência de adjetivos qualificativos da realidade atual. “O que mais se tem visto ultimamente é um México exaltado, irritado, encolerizado, convulsionado, que se sente enganado, injustiçado, ameaçado e perseguido”, escreve Juan Ramón de la Fuente em La Sociedad Dolida (A Sociedade Ferida) (Grijalbo), uma radiografia do momento, que o México compartilha com o mundo. “Não é tarefa fácil de examinar, com as luzes da razão, o que está acontecendo no país. Mas parece que o que predomina na esfera pública são as sombras de um discurso mal construído, com justificativas que não impactam porque não mitigam os danos”, prossegue o ex-reitor da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), a maior da América latina. De la Fuente, médico, adverte em seu diagnóstico que “a política já não é o que foi. O problema é que o descontentamento social não se esgota em uma reflexão nostálgica. O mal-estar sai às ruas e se expressa de muitas maneiras”. Com os consequentes riscos: “O pior cenário é, como sempre, despertar o México rude e depois querer domá-lo a pauladas. Isso não funciona. A violência não é criativa, é destrutiva. Não resolve nada”.

O medo de que tudo vá pelos ares quase sacode os textos. Um dos acadêmicos mais respeitados do México, José Woldenberg, alerta para isso em uma correspondência particular a uma jovem anônima, Cartas a una Joven Desencantada con la Democracia (Cartas a Uma Jovem Desencantada com a Democracia) (Sexto Piso). “Nossa democracia é jovem. Muito jovem, eu diria. Tem apenas 20 anos e já deixou um poderoso rastro de desencantamento”, admite Woldenberg. “Tomara que esse mal-estar ‘na’ democracia não se converta em um mal-estar ‘com’ a democracia.”

Inspirado em Cartas a Um Jovem Contestador, de Christopher Hitchens, o livro é o resultado de um encontro com seu editor, Eduardo Rabasa, de 40 anos, e uma das poucas obras que põem a ênfase em uma geração que sente a política como algo alheio a seu cotidiano, um fenômeno universal que no México este ano se acentua. Em julho, 14 milhões de pessoas poderão votar pela primeira vez e um de cada três potenciais eleitores terá menos de 29 anos. Woldenberg, de 65 anos, defende perante essas gerações a necessidade de reforçar o sistema atual, enquanto a não participação política se torna um ato político per se. “Contra aqueles que acreditam que entre o Estado e a sociedade civil existe uma espécie de jogo de soma zero, ou seja, que o que um ganha o outro perde, a verdade é que entre Estado democrático e sociedade civil (os cidadãos organizados) se dá, em princípio, um jogo de mútuo fortalecimento: para que exista uma sociedade civil forte e expressiva se requer um Estado democrático assentado, e este será mais dinâmico se estiver estruturado em um contexto de exigência marcado por uma robusta sociedade civil.”

“Ter um Estado fraco é uma das razões pelas quais as elites vivem tão bem no México. Essa debilidade permite fazerem o que quiserem, já que lhes permite comprar tudo, ou quase tudo”, opina o cientista político Carlos Elizondo

Ante a carência de alternativas, imaginação. Inventar o possível é a premissa de Manifiestos Mexicanos Contemporáneos (Manifestos Mexicanos Contemporâneos) (Taurus), em que dezenas de criadores de diversas disciplinas –escritores, poetas, artistas, jornalistas, ativistas, chefs– lançam ideias criativamente, por meio de uma série de projetos compilados por Luciano Concheiro, um futuro coletivo.

Essa urgência de um divisor de águas que os manifestos propões se reflete também em outros ensaios, como Pensar México (Taurus). Nele, Maruan Soto Antaki questiona um país que deu tantas soluções a si mesmo. Um debate que deve estender-se além da conjuntura eleitoral. “É preciso revisar as coisas fora de seus sintomas”, considera o autor, que destaca, entre elas, a corrupção. “É causa ou consequência?”, observa. “Repensamos esses fundamentos ou continuamos, como até agora em muitos dos livros dos quais falamos, dando soluções baseadas no convencimento da própria razão? Quando começa o exercício solucionológico, nós nos arriscamos a descansar no meramente pragmático. Não. Equilibremos dando um passo atrás e combinemos com isso que parece ocioso, quase filosófico: enquanto não reduzirmos a imensa desigualdade deste país, não poderemos falar de futuros compartilhados. E tampouco de cidadãos iguais. Se a inequidade não for nossa principal preocupação, estamos sendo verdadeiros irresponsáveis”, opina Soto, para quem o México carece de espaços de discussão que incomodem. “Aqui os que mais têm falado ao país são as elites. Não só as políticas ou financeiras, também as jornalísticas, acadêmicas e culturais. Todas, que relativizamos nossas responsabilidades ao infinito.”

“Enquanto não reduzirmos a imensa desigualdade não poderemos falar de futuros compartilhados nem de cidadãos iguais”, diz Maruan Soto Antaki

Entre corrupção, impunidade e violência, a desigualdade que permeia tudo e que complica qualquer mudança imediata. Em Los de Adelante Corren Mucho (Os da Frente Correm Muito) (Debate) o cientista político Carlos Elizondo Mayer-Serra traça uma radiografia dos privilégios das elites na América Latina, com clara aterrissagem em seu país. “No México, o poder político tem sido um mecanismo para se tornar rico. Isso não só é ilegal e imoral, mas torna o governante menos capaz de atender aos assuntos públicos a seu cargo”, escreve Elizondo. “Ter um Estado fraco é uma das razões pelas quais as elites vivem tão bem no México e em outros países da região. Essa debilidade lhes permite fazer praticamente o que quiserem. Uma das coisas que mais querem é manter esse Estado fraco, já que lhes permite comprar tudo, ou quase tudo”

Traçar um horizonte meridianamente claro se tornou imperioso, embora para muitos seja quimérico. “É preciso projetar com clareza o futuro possível, torná-lo um lugar não só desejável, mas alcançável, prático e utópico ao mesmo tempo”, argumenta Aguilar Camín. Ou acrescentar, como recorda Woldenberg em uma de suas cartas, o que escrevia Jorge Ibargüengoitia em 1976: “Para perceber mudanças com clareza, nada como se afastar por um tempo e depois regressar”.

Leituras para a mudança

¿Y ahora qué? México ante el 2018 (E Agora? O México Diante de 2018). Héctor Aguilar Camín, Luis de la Calle, María Amparo Casar, Jorge G. Castañeda, José Ramón Cossío Díaz, Eduardo Guerrero, Santiago Levy e José Woldenberg (editores). Nexos / Debate / Universidade de Guadalajara.

La Sociedad Dolida. El Malestar Ciudadano (A Sociedade Ferida. O Mal-estar dos Cidadãos). Juan Ramón de la Fuente. Prólogo de Elena Poniatowska. Grijalbo.

Cartas a una Joven Desencantada con la Democracia (Cartas a uma Jovem Desencantada com a Democracia). José Woldenberg. Sexto Piso.

Inventar lo Posible. Manifiestos Mexicanos Contemporáneos. (Inventar o Possível. Manifestos Mexicanos Contemporâneos). Compilação de Luciano Concheiro. Taurus.

Pensar México. Maruan Soto Antaki. Taurus.

Los de Adelante Corren Mucho. Desigualdad, Privilegios y Democracia (Os da Frente Correm Muito. Desigualdade, Privilégios e Democracia). Carlos Elizondo. Debate.

Temporada de Huracanes (Temporada de Furacões). Fernanda Melchor. Literatura Random House.

La Superficie más Honda (A Superfície Mais Funda). Emiliano Monge. Literatura Random House.

Una novela criminal (Um Romance Criminal). Jorge Volpi. Alfaguara.