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Exército começa a sair da ‘favela teste’ Vila Kennedy após um mês de intervenção e poucos resultados

Comunidade é considerada estabilizada pelo Exército, apesar de traficantes continuarem agindo

Intervenção Federal Militar no Rio de Janeiro
Exército patrulha a Vila Kennedy, no último dia 17. AFP

Após pouco mais de um mês de intervenção federal no Rio de Janeiro, o Exército começará nas próximas semanas a deixar a Vila Kennedy, uma comunidade da Zona Oeste da cidade considerada pelo interventor e general Walter Braga Netto como o "laboratório" para as ações das tropas até o fim do ano. Ela fora ocupada na sexta-feira do dia 23 de fevereiro em uma operação da Polícia Civil e das Forças Armadas que contou com 3.200 militares. Na ocasião, soldados tiraram fotos de pessoas e seus documentos de identidade, recebendo duras críticas de organizações de Direitos Humanos, da Defensoria Pública e da OAB-RJ por supostamente estarem fichando os moradores. Também destruíram blocos de concreto presos no chão que serviam de barricadas para impedir o avanço da polícia, uma ação repetida ao longo do último mês. A ação vem colhendo resultados duvidosos, uma vez que, segundo relatos de moradores, traficantes não deixaram de agir na área.

Hoje, a favela está ocupada por 300 militares que patrulham a favela durante o dia; à noite, o trabalho é feito por um efetivo similar de policiais militares. A retirada dessas tropas ocorrerá “ao longo das próximas semanas”, disse nesta terça-feira o Comando Militar do Leste ao EL PAÍS. "Essa redução progressiva dependerá da correspondente capacidade de a Polícia Militar assegurar a continuidade do patrulhamento ostensivo na área", acrescentou a assessoria do Comando em nota. "Por sua vez, essa capacitação da Polícia Militar depende de diferentes medidas de reestruturação, já em curso pelo Gabinete de Intervenção Federal. Em consequência, isso poderá implicar a continuidade do apoio das Forças Armadas por prazo superior ao inicialmente estimado", explicou.

O objetivo é que o Exército possa se dedicar a outras regiões do Rio que continuam apresentando dados alarmantes de mortes e tiroteios. Segundo um levantamento do site Fogo Cruzado publicado pelo jornal O Globo nesta terça, 29 tiroteios ocorreram entre às 10h45 da manhã de domingo e o mesmo horário de segunda-feira. Ao menos oito pessoas morreram e 11 ficaram feridas. Na última sexta-feira, um menino de dois anos e duas mulheres morreram no Complexo do Alemão durante uma troca de tiros.

No primeiro dia de ocupação na Vila Kennedy, no dia 23 de fevereiro, 27 pessoas foram encaminhadas para a delegacia. Duas pistolas e um fuzil foram apreendidos, além de carregadores de arma, munição, radiotransmissores e uma quantidade de drogas não especificada. Barricadas foram destruídas, carros foram revistados e moradores foram fotografados com seus documentos. Traficantes não demonstraram resistência e, segundo o relato de testemunhas locais, fugiram pelo mato. Os dias se seguiram sem que houvesse resistência armada, o que fez com que o Exército considerasse a área "estabilizada".

No entanto, nenhum chefe do tráfico foi detido e, conforme os militares retiravam barricadas, os criminosos as colocavam de volta. Uma reportagem do jornal Folha de S. Paulo publicada no último fim de semana conta que o patrulhamento no Exército não havia alcançado determinados pontos, nos quais barricadas nem sequer haviam sido retiradas. A Folha chegou a ver discretos pontos de venda de drogas sem traficantes armados. Um morador confirmou que se tratava de uma boca de fumo e que os traficantes continuavam agindo. Outros vizinhos também contaram que quando a noite cai e o patrulhamento fica sob responsabilidade da PM, a praça Miami, à beira da avenida Brasil, fica tomada por vendedores de drogas.

Algo similar ocorrera na favela Kelson's, Zona Norte do Rio, na primeira semana da intervenção federal. Na terça-feira do dia 20 de fevereiro, as Forças Armadas fizeram uma operação na comunidade e foram criticados por revistar as mochilas de meninos e meninas de que iam para a escola. Dois dias depois, na quinta, o EL PAÍS esteve no local para ver o que havia acontecido após a operação. Apesar de estar ao lado de uma área militar, não havia nem polícia nem Exército nas ruas. Meninos de entre 12 e 15 anos com bermudas e sem camisa andavam mostrando pistolas. As barricadas haviam sido destruídas, mas todo o resto seguia igual. Acontecerá o mesmo na Vila Kennedy após a saída dos militares?

Uma ocupação por forças do Estado não é novidade para os moradores da Vila Kennedy. Em 2014, o Governo do Rio instalou uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), mas ela não impediu, por exemplo, a constante troca de tiros entre facções rivais. Durante a operação do dia 23 de fevereiro, moradores relataram ao EL PAÍS que traficantes circulavam pelas ruas mostrando pistolas e fuzis, inclusive ao lado da base da UPP. Muitos moradores se mostraram aliviados com a presença do Exército, mas ao mesmo tempo céticos. "A abordagem do Exército foi bem mais educada. Mas daqui a pouco eles vão sair e volta tudo ao normal. A gente vive do portão para dentro, porque é sempre tiroteio", disse uma vizinha na ocasião. "Não tem que resolver só a parte de violência, tem que resolver o social. Tem que dar escola e saúde boas pra criançada", disse outro.

O bairro, que possui ruas largas e casas simples, foi inaugurado como um conjunto habitacional em 1964 pelo governador Carlos Lacerda para reassentar famílias que viviam em favelas da nobre Zona Sul. A 40 quilômetros do centro e pouco integrado com o restante da cidade, conta com serviços públicos considerados precários por seus moradores — mais de 41.000, segundo o censo de 2010 —, apesar de possuir uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) para emergências, duas clínicas de saúde básica, duas escolas estaduais e uma vila olímpica — além de uma escola técnica que nunca funcionou. As atividades não raro são interrompidas por conta de tiroteios. 

A Prefeitura se fez presente recentemente, mas acabou gerando dor de cabeça para moradores. No último dia 9, uma operação de ordenamento urbano derrubou quiosques de comerciantes, mesmo sob protestos. Depois disso, o prefeito Marcelo Crivella explicou que havia pontos de venda irregulares, mas criticou o que chamou de "excessos". Anunciou a abertura de uma linha de crédito de 15.000 reais para aqueles que foram afetados pelas ações de sua gestão e garantiu que realizaria um sorteio de licenças para os comerciantes interessados. No último sábado, dia 17 de março, a Prefeitura e o Governo do Estado fizeram um mutirão de prestação de serviços públicos.

As contas não fecham

A intervenção federal decretada pelo presidente Michel Temer (MDB) cumpriu um mês na última sexta-feira pressionada pela execução da vereadora Marielle Franco (PSOL). O general Braga Netto até agora não se pronunciou publicamente sobre o caso, tendo apenas emitido uma nota no dia do assassinato. Nesta segunda-feira, o general anunciou que a intervenção precisa de 3,1 bilhões de reais para colocar as contas da Segurança Pública em dia. O Governo Temer anunciou em um primeiro momento o envio de apenas 800 milhões. Nesta terça, voltou atrás e prometeu um bilhão, apenas um terço do cobrado pelo general.

O Comandante Geral do Exército, o general Eduardo Villas Bôas, esclareceu nesta terça que Braga Netto vai apresentar uma demanda imediata de 1,5 bilhão para realizar a intervenção no Rio, mas que ainda faltarão 1,6 bilhão para quitar dívidas passadas. "Estou otimista e muito preocupado, devido à incerteza de que vamos atingir todos os objetivos. Nossa determinação é, ao sair, deixar como legado uma mudança nas estruturas, de forma que elas tenham condições de seguir por si só", disse durante evento no BNDES. "Isso inclui todo o sistema de segurança pública e o sistema prisional. A nossa lei de execução penal tem que se adequar de maneira efetiva, para atingir essas estruturas do crime organizado. Isso tudo não será solucionado em dez meses", acrescentou.

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