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COLUNA

A polícia é inimiga do povo?

O Brasil não vive o melhor momento para discutir o drama vivido hoje pela polícia, que conta em milhares suas mortes violentas e é vista mais como adversário do que como instrumento de segurança

Policial militar do Rio de Janeiro tira foto dos arredores da manifestação contra o assassinato da vereadora Marielle Franco, no dia 16 de março.
Policial militar do Rio de Janeiro tira foto dos arredores da manifestação contra o assassinato da vereadora Marielle Franco, no dia 16 de março. AFP

O bárbaro assassinato de Marielle, cujo eco libertador ressoa a cada hora com força cada vez maior por toda a pele do Brasil, também expôs o drama da polícia brasileira e a urgência de repensar uma instituição sem a qual não existe democracia. A polícia é instrumento de dominação de classe, inimiga do trabalhador ou parte do proletariado explorado? A magnífica entrevista do coronel da reserva Ibis Pereira, concedida a meu colega deste jornal Felipe Betim, trouxe-me à memória a manhã em que o cineasta e poeta italiano, autor de Teorema, Pier Paolo Pasolini, foi expulso do Partido Comunista por defender em um poema, publicado no maior jornal do país, Il Corriere della Sera, que os policiais pertenciam ao proletariado e os estudantes, à burguesia.

O ex-comandante da Polícia Militar Ibis Pereira, partidário do esquerdista PSOL, é um intelectual com vários diplomas universitários que, com a distância de meio século, lembra de algum modo Pasolini. Ambos apresentam uma visão clara e dramática da condição da polícia, apesar do meio século de distância. Polícia a serviço do conservadorismo e instrumento de dominação do poder da vez ou garantidora da segurança dos trabalhadores? Polícia de direita ou de esquerda, ou polícia simplesmente a serviço das pessoas? Não basta dizer que a polícia é corrupta, bandida, vendida ao tráfico, conivente com os piores políticos. O que urge é transformar uma polícia mal remunerada, mal preparada, com armas menos modernas que as dos inimigos, em uma instituição a serviço de toda a sociedade, que não precise se corromper e sinta orgulho de sua função social.

Para isso é urgente uma revisão, aqui no Brasil, do papel da polícia. Tema abordado pelo ex-comandante Pereira com grande isenção e lucidez quando diz: “O campo progressista está muito vinculado ao pensamento marxista de que a polícia é um instrumento de dominação de classe. Mas o policial é um trabalhador, dentro da polícia há gente querendo mudar. Esse policial está morrendo. Precisamos entender o seu drama humano.”

Sem dúvida, o Brasil não vive o melhor momento para procurar entender esse drama vivido hoje pela polícia, que conta em milhares suas mortes violentas e é vista mais como um inimigo do que como um instrumento de segurança. E, no entanto, todas as grandes democracias do mundo respeitam e se fazem respeitar por suas instituições de segurança. Só nas ditaduras a polícia deve meter medo nos cidadãos, não nas democracias. Quando jovem eu temia a polícia franquista na Espanha, que me seguia e vigiava até quando fui correspondente na Itália. E que surpresa tive quando fui pela primeira vez ao Reino Unido e pude observar que as pessoas se sentiam mais tranquilas quando viam aparecer um policial em seu caminho. O drama da polícia brasileira, como o da maior parte do continente, é que, como denunciou em seu tempo Pasolini e hoje o fazem no Brasil militares lúcidos como Pereira, os policiais pertencem ao proletariado, chegam ali por falta de opções melhores e estão, assim, expostos a todas as tentações.

O drama que Pasolini viveu com sua visão profética da polícia, vista por seu partido, o maior partido comunista da Europa, como inimiga dos estudantes e trabalhadores, culminou em Roma na tarde de 1º de março de 1968. Durante um confronto entre estudantes e polícia em Valle Giulia, 90 policiais foram feridos a pedradas com os paralelepípedos arrancados do calçamento. Na manhã seguinte, a publicação do poema do famoso cineasta causou comoção e o partido o expulsou. Sua tese rompia com todos os modelos da esquerda. Para Pasolini, os policiais são do proletariado. “Tornam-se policiais porque não podem estudar na Universidade por serem filhos de famílias pobres do pobre Sul da Itália. Os que os feriram são jovens, como eles, mas privilegiados, porque podem estudar e seus pais não precisam que eles trabalhem nem lhes ajudem”, afirmava. Pasolini foi um profeta. Tinha intuído, com antecedência de muitos anos, a degradação e a violência da periferia de Roma, da qual ele mesmo acabou sendo vítima mortal.

Eu vivi aquele momento que sacudiu a Itália e ainda guardo este fragmento daquele poema profético de Pasolini:

Quando ontem em Valle Giulia

vocês trocaram socos com os policiais,

eu simpatizei com os policiais,

porque os policiais são filhos de pobres,

provêm das periferias, rurais ou urbanas, que sejam.

Quanto a mim, conheço muito bem sua forma de ser meninos e moços,

a mãe calejada como um peão,

a sálvia vermelha (em terrenos de outrem, loteados).

Os esgotos ou os apartamentos nas moradias populares.

(...)

Em Valle Giulia, ontem,

teve-se, assim, uma amostra de luta de classes:

e vocês, amigos (embora do lado da razão)

eram os ricos,

enquanto os policiais (que estavam do lado errado)

eram os pobres.

Bela vitória, então, a de vocês

nestes caso, meus caros, aos policiais

oferecem-se flores.

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