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Os silêncios de ‘A Forma da Água’

Que seja bem-vindo um singelo filme de amor, profundo como tudo o que é essencial. Um filme de coração grande para tempos de ódio e desencontros

Oscar 2018

Claro que não se deve buscar mensagens nas obras de arte. Elas nascem da criatividade entrelaçada com o subconsciente, e significam tudo e nada. Ou dizem o que cada um precisa escutar. Assim é o filme A Forma da Água, de Guillermo del Toro, ganhador do Oscar de melhor filme, que contém muitas leituras, talvez por ser considerado “simples”, quase um conto de fadas, uma pequena história de amor. Será só isso?

Eu, por exemplo, li a obra como um mundo de silêncios. Não só porque a protagonista é muda, mas sim porque parece ignorar a linguagem do nosso mundo atual. Ou será que ela quis justamente desmascarar a sociedade do ruído, da pós-verdade, das notícias falsas ou ambíguas, a sociedade do grito, do desencanto e do amor perdido, a sociedade que teme ou odeia o diferente? A Forma da Água parece querer desafiar uma sociedade que na superfície se revela ansiosa pelo complexo e ambíguo, pela hemorragia das palavras, pela violência gratuita, mas que ao mesmo tempo parece desejar a cada dia mais o fascínio do simples e do genuíno. Volta-se a fazer pão em casa, cresce a prática da meditação, do silêncio perdido. E, sobretudo, a busca por um pouco de amor que seja só amor.

É um paradoxo que uma sociedade que teme e despreza o diferente, que se embriaga com a ambiguidade, ao mesmo tempo premia e aplaude e se emociona com a singela história de amor de um filme no qual uma faxineira, muda, amiga de um gay, apaixona-se por uma criatura aquática, um monstro emblemático, que inspira temor, ânsia e amor, como tudo o que é diferente. O filme é ambientado nos tempos da Guerra Fria, o que representa uma provocação em sua trama, toda ela incendiada de sentimentos de calor humano entre seres diferentes. Uma provocação também para os dias de hoje, nos quais aqueles calafrios parecem reencarnar em novas guerras planetárias.

O criador de A Forma da Água diz que seu filme “tem um coração enorme”. Talvez um coração capaz de amar e abraçar tudo o que nossa sociedade parece excluir. Um coração que não infunde medo às crianças. Um coração acolhedor, que talvez estejamos também os adultos procurando, cansados de um excesso de cérebro, de frieza e irritação nas relações.

Que seja bem-vindo um singelo filme de amor, profundo como tudo o que é essencial. Um filme que acolhe em vez de desprezar. Um filme de coração grande para tempos de ódio e desencontros.

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