Honduras se divide ao reempossar Juan Orlando na presidência

Mandatário assumiu o cargo neste sábado em meio a violentas manifestações nas ruas de Tegucigalpa

Manifestantes enfrentam a polícia durante protesto enquanto Juan Orlando Hernandez assumia segundo mandato no sábado.
Manifestantes enfrentam a polícia durante protesto enquanto Juan Orlando Hernandez assumia segundo mandato no sábado.EDGARD GARRIDO (REUTERS)
Mais informações
OEA pede novas eleições em Honduras enquanto órgão eleitoral declara vitória do atual presidente
Dois candidatos declaram vitória nas eleições de Honduras

O presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández, assumiu no sábado o cargo de chefe de Estado para os próximos quatro anos. Orlando governará um país dividido em que a oposição não reconhece sua vitória eleitoral e onde crescem as vozes que apontam a guinada autoritária de sua gestão.

Enquanto prometia um futuro melhor para o país, milhares de pessoas chegadas de todas as partes até a capital, Tegucigalpa, protestavam contra o que consideram uma reeleição ilegítima e uma vitória obscura na eleição em novembro, que ele venceu por pouco mais de 50.000 votos. Foi justamente o medo dos protestos que marcou a cerimônia, e até poucas horas antes de sua posse se desconhecia a hora e o lugar onde juraria o cargo — com a mão sobre a Bíblia — e se dirigiria ao país, com a faixa presidencial cruzando o peito.

Somente quando apareceu no gramado, com a esposa ao lado e rodeado de guarda-costas, soube-se que a posse seria no Estádio Nacional. Apesar de ter capacidade para 35.000 espectadores, o mandatário definiu o ato como algo “simples”, distanciado da ostentação de outras vezes. Desta vez queriam evitar os distúrbios ante uma potencial mobilização de milhares de pessoas.

A oposição, liderada por Salvador Nasralla e Manuel Zelaya, não reconhece os resultados das eleições de 26 de novembro que deram a vitória ao político conservador por 50.000 votos. Até o momento os Estados Unidos consideraram aprovado o resultado, mas a Organização dos Estados Americanos (OEA) pediu novas eleições ao constatar graves irregularidades antes e depois do dia da votação. O conflito desencadeou uma onda de protestos em todo o país que deixou até o momento 34 mortos, segundo cifras de entidades de defesa dos direitos humanos, dezenas de feridos e lojas queimadas e saqueadas.

Distúrbios durante a posse de Juan Orlando em Honduras.
Distúrbios durante a posse de Juan Orlando em Honduras.EDGARD GARRIDO (REUTERS)

Consciente de seu escasso apoio popular, Orlando reconheceu a divisão que sua reeleição provocou. “Se uma casa está dividida não pode permanecer e eu estou ciente das diferenças políticas no país, mas não há diferenças que justifiquem a violência (,,,). Não é justo provocar esse temor”, afirmou.

Durante uma hora, defendeu sua gestão em três aspectos: a economia, a redução de homicídios e a luta contra a corrupção. “Reduzimos os homicídios e pusemos em ordem as finanças públicas. Somos o país que melhor fez isso na América Central”, se vangloriou. Sobre a corrupção, em um exercício acrobático despudorado o mandatário citou a Missão de Apoio Contra a Corrupção e a Impunidade em Honduras (Maccih) como exemplo de seu compromisso, somente alguns dias depois de o Congresso eliminar as principais atribuições dessa Comissão criada pela OEA para combater a impunidade.

Juan Orlando terá de governar um país de mais de nove milhões de pessoas do qual todos os anos 75.000 emigram e que produz anualmente cinco milhões de abacaxis.

No entanto, o energético advogado de 49 anos, que com 22 entrou na política, é hoje um mandatário sobre o qual recaem suspeitas de fraude eleitoral e que vem sendo acossado pela corrupção e pelo narcotráfico. O presidente do Congresso, de seu partido, foi acusado de se apropriar de recursos destinados a organizações não governamentais e o chefe da Polícia é acusado de encobrir o envio de uma tonelada de cocaína.

“Sou Juan Orlando Hernández e estou pronto para dar tudo por Honduras, por meu povo, por todos... o trabalha vence tudo”, terminou gritando enquanto agitava o punho para a multidão que o aplaudia. Quando se realizava a cerimônia ocorria uma batalha campal entre policiais e manifestantes nas ruas de Tegucigalpa.

A guinada autoritária de Juan Orlando

Jacobo García

Nos últimos anos o mandatário hondurenho foi se apropriando das instituições até conseguir uma polêmica reeleição que era proibida pela Constituição. A isso se soma o controle do Congresso, da Corte Suprema de Justiça e até da Defensoria do Povo. A única instituição que escapava a seu controle é a Missão de Apoio Contra a Corrupção e a Impunidade em Honduras (Maccih), criada à imagem e semelhança da Cicig da Guatemala e a primeira tentativa da OEA de combater a impunidade.

Mas uma recente reforma deixou a comissão sem competências para investigar casos de corrupção dos últimos 12 anos. Conhecido como o “pacto da impunidade”, graças a ele cinco deputados acusados de se apropriar de dinheiro público foram libertados e se suspendeu outra investigação em curso que envolvia outros 60 deputados, incluindo o presidente do Congresso, acusado de se apossar de milionários recursos dedicados a projetos sociais.

Com essa reforma também não poderão ser investigados escândalos como o que afeta a compra de remédios pelo Seguro Social ou os subornos da construtora Odebrecht a funcionários públicos dos governos de Zelaya, Roberto Micheletti e Porfirio Lobo.

Mais informações

Arquivado Em

Recomendaciones EL PAÍS
Recomendaciones EL PAÍS