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MANIFESTO DE MULHERES na FRANÇA

Um tsunami de verdade e fastio

O patriarcado está nervoso porque seus crimes chegam aos milhões em todo o mundo

Marcha do movimento #Metoo em Hollywood.
Marcha do movimento #Metoo em Hollywood. AFP

Cem mulheres francesas da área cultural assinam um manifesto em favor do patriarcado na França e seu eco tem ressonância em todo o mundo. É a estratégia habitual, quando as demandas feministas calam em boa parte da sociedade e se evidencia não só que suas reivindicações são justas, como que são necessárias e urgentes. Então procura-se rapidamente mulheres que façam o trabalho sujo, ou seja, que enfrentem essas reivindicações para ganhar um pouco de tempo. O patriarcado procura mulheres para fazer o trabalho sujo quando este não é aceitável para os homens, ou seja, quando os homens têm medo de fazê-lo porque isso evidenciaria demais sua situação de poder ou porque simplesmente seus argumentos são inconsistentes. A história tem milhões de exemplos. Na Espanha, provavelmente, o paradigma seja o enfrentamento entre Victoria Kent e Clara Campoamor quando esta defendia o direito ao voto para as mulheres. O partido de Kent só tinha uma deputada e foi ela exatamente a escolhida para defender o indefensável: a rejeição ao sufrágio universal. Os franceses fizeram o mesmo: esconderam-se atrás de cem mulheres para defender o indefensável: a violência masculina, especialmente sexual, que nós, mulheres, sofremos em todo o mundo.

Uma estratégia tão velha e frágil como o resto dos argumentos do manifesto francês. Somos mais de três bilhões de mulheres no mundo, só faltaria que fôssemos todas iguais. O patriarcado não é um ente abstrato, tem os nomes e sobrenomes de todos aqueles homens que se beneficiam da desigualdade, de quem não respeita as mulheres, de quem as despreza, as agride, as anula, as insulta, as estupra e as mata, e também os de todas as mulheres que acreditam que é melhor ter algumas migalhas desse poder do que enfrentá-lo.

Mas dessa vez receio que a jogada não lhes trará bons resultados. O silêncio é a palavra de ordem patriarcal por excelência. Durante séculos se manteve a expressa proibição às mulheres de ter conhecimento, ler, escrever, criar, falar em público... Esse pacto de silêncio forjado sobre o medo delas, a violência deles e a indiferença da maioria foi capaz de normalizar o abuso, os maus-tratos e até de gerar a cultura do estupro em que vivemos. O patriarcado reage com seus velhos truques porque o silêncio se quebrou. Ana Orantes, Malala, o movimento #metoo... milhares de vozes de mulheres em todo o mundo estão despedaçando-o com uma força desconhecida até agora. É o fruto do bom trabalho que o feminismo vem fazendo, sem descanso, nos últimos três séculos. Milhões de mulheres em todo o mundo disseram: chega. Não porque o feminismo tenha vitimizado as mulheres e as tenha transformado em “vítimas eternas e coitadinhas sob a influência de demoníacos falocratas”, como dizem as francesas em seu manifesto, cheio de erros conceituais e invenções, mas exatamente pelo contrário. Milhares de mulheres deixaram de ter medo e estão dispostas a falar alto e claro nas redes sociais, diante das câmeras e dos tribunais. Milhares de mulheres em todo o mundo sabem que o silêncio e a submissão, longe de nos proteger, amparam os perpetradores e alimentam a impunidade, combustível da violência.

O patriarcado está nervoso porque seus crimes são contados aos milhões em todo o mundo e já não é possível escondê-los sob os tapetes. “Abram as janelas. Que entre a nevasca e o ar se renove”, escrevia Carmen Martín Gaite. O patriarcado está nervoso porque enfrenta um tsunami de verdade e fastio, de cansaço infinito, de asco e indignação. Não será com manifestos e velhas artimanhas que vai parar. As bases estão colocadas, a consciência ampliada, as lideranças, numerosas e consolidadas, as vozes afinadas, o objetivo claro e, pela primeira vez, toda uma indústria e seus tremendos benefícios econômicos balançam. Isso já começou e ninguém vai segurar.

Nuria Varela é escritora. Seu último livro se intitula Cansadas: una reacción feminista ante la nueva misoginia

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