Polícia e partidários do regime enfrentam os protestos em Teerã

Queixas contra a política econômica de Rohani se transformam em críticas ao sistema islâmico e ao líder supremo

Uma jovem ergue o punho durante os choques entre manifestantes e polícia na Universidade de Teerã.
Uma jovem ergue o punho durante os choques entre manifestantes e polícia na Universidade de Teerã.

A tensão tomou conta neste sábado, 30 de dezembro, do centro de Teerã ao emparelhar uma manifestação oficial de apoio ao sistema islâmico a uma nova convocação a protestos contra as políticas econômicas do Governo. Um enorme aparato policial impediu que os descontentes fizessem ouvir seus slogans na capital, como na véspera ocorreu em outras cidades iranianas. No entanto, o eco do mal-estar se propagou como pólvora pelas redes sociais, ao mesmo tempo em que os protestos adquiriam conotação política e chegavam até o líder supremo. Apesar de as autoridades terem advertido contra as concentrações ilegais, não conseguiram conter o efeito dominó.

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Desde o primeiro momento, as principais ruas e praças de Teerã foram tomadas pelas tropas antidistúrbios. Sua presença não desanimou, no entanto, os mais ousados. “Nem Gaza, nem Líbano, me sacrifico pelo Irã”, conseguiu gritar em coro um grupo na praça Enghelab, no centro da cidade, antes que a polícia dispersasse seus integrantes. Várias dezenas de alunos se reuniram em frente a Universidade de Teerã, mas foram calados aos gritos de “rebeldes” por centenas de basiyíes e agentes à paisana.

“Não é justo que os jovens profissionais tenham de sair do país em busca de trabalho e um futuro melhor, enquanto o sistema desperdiça dinheiro em conflitos como os do Iraque e da Síria”, declara Ramin, estudante de química da universidade Azad, que simpatiza com os protestos. “As pessoas têm razão, há muitos problemas econômicos, os salários são muito baixos, mas tenho medo de que essas manifestações se transformem em conflitos como os desses países”, afirma Vahid, um jovem atendente de uma loja de roupas que saiu para ver o que estava acontecendo.

Mas se em Teerã o destacamento policial e a mobilização de partidários do regime conseguiram conter as manifestações de descontentamento, o mesmo não ocorreu em Zanyan, no norte do Irã. A extensão do protesto a essa cidade confirma a amplitude do mal-estar.

As queixas começaram na quinta-feira, dia 28 de dezembro, em Mashhad, cidade de dois milhões de habitantes situada a noroeste. Duas mil pessoas foram às ruas contra a alta dos preços e a má situação econômica em geral. No dia seguinte, o exemplo se propagou por todo o país com manifestações em Teerã, Isfahan, Quermanxa, Resht, Qom, Sari, Hamedan e Ghazvin. Apesar de os participantes de cada uma delas não serem muito numerosos, trata-se da maior onda de protestos desde os que se seguiram à controversa reeleição de Mahmoud Ahmadinejad em 2009.

Significativamente, os gritos contra o presidente Hassan Rohani, reeleito em maio passado, se transformaram em seguida em críticas à política externa do Irã, especialmente sua intervenção na Síria e no Iraque, que representa grandes gastos para o país. “Deixe a Síria e pense em nossa situação”, gritavam em coro os manifestantes em Sari, cidade próxima ao mar Cáspio. Em outros casos, de “Morte a Rohani” passou-se a “Morte ao ditador”, um lema que se generalizou em 2009 em referência ao líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei.

Diante da situação, as autoridades reorientaram a convocatória anual para marcar o fim daquela insubmissão popular, prevista para hoje, em uma demonstração de apoio ao líder supremo. A mídia oficial destaca o respaldo “épico” dos iranianos ao sistema. Mas em Qom, cidade que abriga o alto clero xiita e se considera o centro espiritual da República Islâmica, os manifestantes renegavam o sistema e clamavam por uma “república iraniana”.

“Muitos perderam suas economias em instituições de crédito que quebraram, mas se as manifestações se intensificarem, as pessoas serão reprimidas com mão firme. Nisso reformistas e conservadores são iguais”, adverte Morteza, funcionário aposentado de um banco.

Em Mashhad, Quermanxa, Teerã e outras cidades houve dezenas de prisões, mas, segundo a emissora de rádio e televisão estatal (que não cobriu os protestos), a maioria já está em liberdade. Em vários casos, a polícia recorreu a gás lacrimogêneo e jatos de água para dispersar os concentrados.

“Ainda é muito cedo para dizer se são realmente motivos econômicos que provocaram essas manifestações”, adverte o economista Saeed Laylaz, conselheiro habitual dos presidentes reformistas. Em sua opinião, “as disputas internas foram o principal motivo do início dos protestos em Mashhad”. Também destaca que durante os últimos quatro anos a economia do Irã melhorou. “O Governo conseguiu reduzir o índice de inflação a menos de 10% pela primeira vez em meio século. Não descarto que os problemas econômicos tenham influído, mas não se deve esquecer que até alguns anos atrás Mashhad era a capital da lavagem de dinheiro, e agora o Governo fechou seus canais, privando-os de muitos benefícios que tinham antes, então é compreensível que tenham provocado esses protestos como forma de pressão”, explica.

É uma análise compartilhada por outros observadores, que viram a mão dos ultradireitistas por trás do protesto inicial em Mashhad a fim de enfraquecer o Governo. Ibrahim Raisi, o candidato que perdeu as últimas eleições para Rohani e que transformou a defesa dos pobres em sua bandeira contra as políticas reformistas, menciona o peso que essa cidade tem. Não ajudou o fato de ter publicado em seu canal do Telegram (uma rede social muito popular no Irã) uma mensagem questionando a crítica aos protestos. “Esse apoio tácito o delata”, denunciou Mohamed Ali Abtahi, que foi vice-presidente durante o mandato de Mohammad Khatami.

Por mais que os protestos políticos sejam incomuns no Irã (devido ao controle das forças de segurança), não é raro deparar com pequenas manifestações de trabalhadores demitidos ou pessoas que perderam suas economias em alguma instituição financeira. O que surpreendeu os analistas é a rapidez com que se espalharam, não só pelas redes sociais, mas nos meios de comunicação conservadores.

Se os ultradireitistas estão por trás de tudo, amplia-se a convicção de que o tiro saiu pela culatra. A reação do presidente dos EUA, Donald Trump, que aproveitou a ocasião para fustigar os dirigentes iranianos em seu Twitter, os coloca contra as cordas. Até o poderoso aiatolá Ahmad Alamolhoda, sogro e mentor de Raisi, se viu obrigado a intervir para esclarecer que as frases críticas foram coisa de um pequeno grupo infiltrado entre os manifestantes.