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ANÁLISE

A perigosa missa fúnebre dos partidos em todo o mundo

Na Casa Branca e no Palácio do Eliseu governam 'outsiders' da política tradicional. O Brexit se impôs contra o desejo dos partidos. Agora, Putin se apresenta como candidato independente

Os presidentes da Rússia e dos EUA, Putin e Trump, se cumprimentam na cúpula do G20 de julho de 2017 na Alemanha.
Os presidentes da Rússia e dos EUA, Putin e Trump, se cumprimentam na cúpula do G20 de julho de 2017 na Alemanha. AFP

Na Casa Branca reside um outsider que conquistou a candidatura do Partido Republicano com base na mais radical heterodoxia política, e depois, com a mesma retórica, alcançou a presidência; no Eliseu habita uma figura antipódica, mas que também lançou seu projeto de conquista do poder desde fora do sistema tradicional de partidos, fundando seu próprio movimento para isso; em Downing Street trabalha uma política ortodoxa que, no entanto, tem de dedicar todos os seus esforços a administrar um incêndio, o Brexit, ateado contra a vontade unânime dos dirigentes dos partidos britânicos (conservadores, trabalhistas, liberal-democratas, verdes e nacionalistas escoceses defendiam a permanência na UE). Agora, no Kremlin, um lobo velho com muito olfato anuncia que, para continuar ali, competirá nas presidenciais do ano que vem como candidato independente.

Obviamente, o panorama político russo é muito diferente do estadunidense, francês e britânico. À margem de definições abstratas, o grau de pluralismo na Rússia é gravemente inferior, e a manobra de Putin é um giro meramente tático com o qual o líder tenta reforçar sua imagem de pai da pátria acima dos partidos. Na Rússia os partidos há muito tempo significam muito pouco.

Mas a pequena manobra tática de Putin diz muito. Lança nova luz sobre a grave crise dos sistemas de partidos em um grande número de países. No México, o PRI, totem da categoria dos partidos, acaba de escolher como candidato um homem com uma trajetória atípica, exógena a suas fileiras, e que foi ministro sob um presidente de outro partido. Na Itália, outrora canteiro de partidos formidáveis (e formidavelmente corruptos), ganha cada vez mais força a possibilidade de que depois das eleições do próximo semestre governe alguma figura alheia ao foro mais íntimo dos partidos. A lista poderia prosseguir.

Emmanuel Macron e Theresa May, em Paris em dezembro de 2017.
Emmanuel Macron e Theresa May, em Paris em dezembro de 2017.

O índice de confiança dos cidadãos nos partidos se encontra em níveis mínimos. O Eurobarômetro do primeiro semestre deste ano mostra dados demolidores. Os partidos são a instituição que obtém o menor grau de confiança dos cidadãos europeus, míseros 19%. Polícia e Exército têm média de 75%; a Justiça, 55%; e até outras instituições políticas alcançam marcas muito melhores: autoridades locais e regionais, 52%; governos, 37%; parlamentos, também 37%.

Não é de estranhar, portanto, que a capacidade dos partidos de atraírem os melhores talentos juvenis esteja profundamente reduzida.

Tudo isso representa um sério risco. Porque, embora os partidos tenham alcançado em muitos lugares do Ocidente níveis de corrupção, inépcia, mesquinhez partidária e mediocridade elevadíssimos, seu calvário, a falta de alternativas claras, representam uma lacuna no próprio centro do sistema de representação das democracias liberais. Que, por sua vez, na falta de serem inventados sistemas melhores, é o que produziu em termos comparativos os maiores níveis de progresso social, econômico e cultural. É urgente a renovação dos partidos antes do término da missa fúnebre.

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