Obsessão dos fãs e sexualização: nem tudo são flores para os garotos de ‘Stranger Things’

Assédio por parte de alguns admiradores da série faz que um de seus protagonistas, Finn Wolfhard, peça publicamente para que ele e seus conhecidos não sejam mais incomodados

Millie Bobby Brown (Eleven, na série) e Finn Wolfhard (Mike) numa festa da Netflix em janeiro.
Millie Bobby Brown (Eleven, na série) e Finn Wolfhard (Mike) numa festa da Netflix em janeiro.

Ninguém discute a popularidade de Stranger Things. Apenas nos EUA, 15,8 milhões de pessoas viram a segunda temporada da série da Netflix no primeiro fim de semana depois de seu lançamento, e é difícil encontrar alguém que não saiba o que acontece na ou sobre o que seja a obra ambientada nos anos oitenta na qual algumas crianças de uma cidadezinha de Indiana têm que lidar com acontecimentos paranormais, como experimentos do Governo ou a invasão do mundo invertido. Seu universo e iconografia estão por todo lado: foi anunciada turnê dos criadores da trilha sonora, foram criadas coleções retronostálgicas sobre a série para grifes como Topshop — a Louis Vuitton chegou a mostrar uma camiseta da série em seu desfile — e as empresas se desdobram para contar com seus atores como embaixadores da marca (Millie Bobbie Brown, Eleven (Onze) na série, protagonizou uma campanha da Calvin Klein by Appointment e foi indicada como uma das adolescentes mais influentes do planeta pela revista Time).

Millie Bobby Brown e Finn Wolfhard em cena da série.
Millie Bobby Brown e Finn Wolfhard em cena da série.

O que então levou um de seus astros, Finn Wolfhard — Mike Wheeler na série — a ter que pedir publicamente a seus fãs que deixem de assediá-lo e de incomodar seus conhecidos? Basicamente, ter uma parte dos admiradores mostrando uma obsessão que beira o doentio, na qual se sexualizam garotos que não têm mais que 14 anos. Um acúmulo de acontecimentos que começaram em novembro do ano passado, quando fãs da série criaram a hashtag #Mileven (no Instagram há perto de 250.000 posts com essa etiqueta), palavra que abrevia e une o nome dos personagens para enfatizar uma relação amorosa entre Mike e Eleven, os garotos da série — vamos lembrar, de 14 anos e 13 anos na vida real. Como disse a Vulture, “o problema é ver como alguns fãs não conseguem diferenciar entre os personagens e as estrelas e começaram a insuflar seu desejo de que haja uma relação romântica entre Millie Bobbie Brown e Finn Wolfhard”.

Wolfhard já mostrou seu desacordo e desgosto com tudo que cerca a #Mileven quando, segundo relata um usuário da Reddit, numa conversa com tuiteiros na conta de seu irmão, afirmou que “as pessoas não entendem que somos gente, e não os personagens da série... e até atacam meus amigos” (parece que um fã conseguiu o número de um amigo de Wolfhard e o assediou para poder conhecer o ator).

Em outubro deste ano, a polêmica sobre a sexualização dos atores da série atacou por dois flancos. De um lado, o Buzzfeed citou insinuações nas redes sociais sobre a orientação sexual de Wolfhard, porque fãs do filme It: A Coisa (também protagonizado pelo menino este ano) sugeriram que ele podia manter um relacionamento com outro ator do elenco (Jack Grazer), o que levou esse último a recorrer a suas redes sociais para desmentir as “irritantes” especulações e pedir que parassem. A modelo Ali Michael (27 anos), por sua vez, teve que pedir desculpas por ter subido no Instagram uma foto do ator em que ela perguntava se ele poderia lhe telefonar “em quatro anos” (quando o ator atingisse a maioridade). “Nunca foi minha intenção sexualizá-lo”, disse a modelo. Wolfhard disse à TMZ que o comentário dela havia sido “grosseiro” e afirmou que suas desculpas eram “incômodas”.

Na Espanha, também se discutiu muito sobre a sexualização de Millie Bobby Brown nas revistas de tendências durante a promoção da série. Deu muito o que falar a suposta inclusão da atriz, de 13 anos, numa “lista das atrizes mais sexy” de Hollywood, boato desmentido com o esclarecimento que numa edição da revista Wen ela estava incluída num especial sobre as razões para a televisão “ser mais sexy” do que nunca. Apesar do boato, é inegável que a atriz tenha aparecido em diversas publicações imitando poses de adultos e vestida como tal. “Estamos vendo uma normalização da sexualização em menores de idade nos últimos anos”, lamentou a esse respeito Anita Botwin no site Ctxt, criticando alem disso a venda durante o Halloween de uma fantasia “sexy” inspirada em sua personagem da série.

No início de novembro outro acontecimento foi a gota d’água para que Wolfhard pedisse para não ser mais assediado pelos fãs. Aparentemente o ator foi acusado de ser mal-educado com eles por não parar para cumprimentar os seguidores que estavam na porta de seu hotel. Diante das críticas, colegas de elenco saíram em sua defesa. Shannon Purser, Barb na série, tuitou “que nenhum ator tem a obrigação de parar para ninguém” e que “Finn é um ser humano incrível, mas como todo ser humano precisa de um tempo às vezes”. Noah Schnapp, Will Byers na série, também reclamou no Twitter “que trabalhamos muito duro e às vezes precisamos de descanso”. Até Sophie Turner (Sansa em Game of Thrones) apoiou o ator, dizendo: “que droga, ver adultos crescidos esperando as crianças de Stranger Things em seu hotel e depois se tornando abusadores porque não pararam para cumprimentá-los…”.

Depois desses incidentes, Wolfhard foi às redes sociais para pedir a seus “fãs de verdade” que “não assediem meus amigos e companheiros de trabalho”. Ele falou sobre essa atenção em sua entrevista à S Moda, do EL PAÍS: “Quando comecei como ator, eram sempre longos castings para conseguir fazer um papel em algo indie que ninguém conhecia, e agora me param na rua. Não me acostumo, é superlouco”. Aproveitou para deixar clara sua posição: “Continuo a ser um garoto de 14 anos, mas que agora trabalha de frente para o público”.