Domingo Cavallo | Ex-ministro da Economia da Argentina

“Há uma grande coincidência entre a economia de Macri e a dos anos 90”

Domingo Cavallo, polêmico ministro da crise de 2001, comemora reviravolta econômica dada pela Argentina

Ex-ministro Domingo Cavallo
Ex-ministro Domingo CavalloS. Frydlewsky

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Em 22 de outubro, Mauricio Macri enfrenta seu primeiro grande teste: as eleições de meio de mandato, que renovam boa parte do Congresso. Sua grande rival é Cristina Fernández de Kirchner, que concorre a uma vaga de senadora em Buenos Aires. O EL PAÍS está realizando uma série de entrevistas com empresários, ativistas, intelectuais e artistas para analisar a situação da Argentina.

Domingo Cavallo (Córdoba, 1946) é uma figura-chave da recente história argentina e uma das mais polêmicas. Ele foi o pai da conversibilidade do peso com o dólar que, a partir de 1991, deu um fim à hiperinflação da Argentina. Fernando De la Rúa o chamou novamente em 2001, numa tentativa desesperada de salvar o modelo. Sete meses depois, a Argentina enfrentou a pior crise de sua história, que acabou no chamado corralito (restrição de saques). Desde então, Cavallo é odiado por milhões e até passou um período na cadeia. Dezesseis anos após o estouro da bolha, Cavallo aplaude a política econômica de Macri e sustenta que, em muitos aspectos, é uma continuação do que ele fez na década de noventa, prevê mudanças profundas após as eleições e garante que a história o absolverá.

Pergunta. Como você vê o governo de Macri?

Resposta. Eu o vejo muito orientado. A Argentina deve inserir-se na economia mundial e não tentar se isolar, como aconteceu entre 2002 e 2015 [com os Kirchner]. A primeira coisa que Macri fez foi anunciar que a Argentina estava voltando ao mundo. Agora, Macri herdou enormes desequilíbrios na economia, dos quais a população não era e não é consciente.

P. Macri está dando continuidade a essa linha iniciada por você na década de noventa?

R. Se você perguntar isso ao Governo, lhe dirá que absolutamente não. Mas há uma grande coincidência no sentido de que o Governo Macri quer voltar a ter uma moeda estável e uma economia com baixa inflação, como ocorreu na década de noventa, quando saímos de uma economia fechada, como a que Macri herdou, e a transformamos em uma economia aberta. É por isso que surgiram tantos investimentos e houve oito anos consecutivos de crescimento vigoroso, a taxas de 8% e 9%, com inflação praticamente zero.

P. Você se reuniu com o presidente do Banco Central, Federico Sturzenegger. Te consultam?

R. Não me consultam, mas escrevo um relatório todos os meses; mando para eles e sei que leem. Todos no Governo trabalharam em algum momento comigo, exceto aqueles que são muito jovens, naquela época eram crianças. Macri também teve muito contato comigo, ele como empresário e eu, como ministro.

P. Você os considera seus herdeiros?

R. O que acho é que estão bem orientados.

P. Poderia acabar tão mal quanto em 2001?

R. Aquilo terminou mal porque houve uma decisão política de pessoas que assumiram o poder por meio de um golpe institucional para reintroduzir todos os males da economia para beneficiar certos setores.

P. Muitas pessoas o culpam. Quando saiu do Governo a situação econômica era muito complicada.

R. Não saí, me deixaram. O grande desastre não ocorreu em 2001, e sim em 2002. Em 2001, tivemos uma recessão como a da Espanha ou a dos Estados Unidos em 2008. Foi uma crise bancária, porque havia pessoas que não pagavam suas dívidas. Mas uma crise não é resolvida destruindo todas as instituições, como as destruídas na Argentina.

P. Muitos argentinos o culpam e se perguntam como deixou o país no dia de sua partida, com o corralito.

R. O corralito não significou que as pessoas não podiam sacar dinheiro dos bancos. Não era permitido retirar dinheiro até um certo valor, mas era possível usar o cartão de débito, fazer transferências bancárias. A imagem que tenho entre os argentinos tem a ver com a campanha traiçoeira que fizeram em 2002, para me culpar por todas as barbaridades que estavam fazendo. Disseram: ‘Temos que encontrar um bode expiatório e vamos culpar Cavallo’. Até dezembro de 2001, eu era uma das pessoas com a imagem positiva mais ampla.

P. Por que você foi visto como o vilão que afundou tudo, e Eduardo Duhalde e Néstor Kirchner como os salvadores?

R. A população foi enganada. Em 2002, todos aqueles que estavam endividados em dólares, incluindo os grandes meios de comunicação, queriam a ‘pesificação’. Eu caí na armadilha. Um juiz que estava prestes a se aposentar me colocou na prisão por 60 dias, e isso foi divulgado em todo o mundo. Saí do país, porque aqui não podia trabalhar. Fui dar aulas em Harvard e Yale, até me cansar de passar os invernos lá. Mas sempre voltei à Argentina e continuei dando opinião.

P. Faria novamente as mesmas coisas?

R. As que fiz em minha primeira administração, entre 91 e 96, faria da mesma forma. A partir de março de 2001, ninguém poderia fazer nada diferente, mas, se eu pudesse reescrever a história, não teria aceitado [ser ministro da economia em 2001].

P. Você entende que, até hoje, há muitas pessoas que ouvem seu nome e têm medo?

R. Não acho que isso continue acontecendo. Mas, se for verdade, é uma pena, porque pode levar a erros como: ‘Não fazemos isso porque vão nos relacionar com os anos 90”.

P. Macri tem medo de estar associado a você?

R. São os estrategistas da campanha. [Jaime] Durán Barba [guru de Macri] diz: ‘Um Governo não deve fazer nenhum ajuste, não deve planejar nada que imediatamente signifique alguma perda de votos”. E diz a eles: ‘Cavallo levou Jamil Mahuad, no Equador, a fazer ajustes e por isso perdeu o Governo’. Durán Barba pode ser um bom estrategista de campanha, mas é um assessor de Governo muito ruim. É preciso fazer as coisas que devem ser feitas, porque, caso contrário, podem agravar os problemas para o futuro.

P. Você acha que Macri vai fazer isso depois das eleições?

R. Acho que sim. Se adiar, pode explodir em suas próprias mãos. Macri realmente quer resolver o problema dos argentinos, enquanto os Kirchner tinham como único objetivo o poder perpétuo e o dinheiro.

P. Como a história lembrará da política econômica de Macri?

R. Dirá que a de agora se conecta com a abertura dos anos 90. Se Macri se sair bem, e espero que sim, quando a história for escrita, os 14 anos dos Kirchner serão uma pausa em um processo de integração da Argentina ao mundo. Os macristas fazem bem em dizer que são completamente diferentes dos anos 70, 80 e 90; ninguém quer comprar as críticas do passado. Mas na Argentina há muitas pessoas inteligentes e, quando escreverem a história, valorizarão as contribuições que fiz e criticarão meus erros.

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