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A dor de Barcelona, uma cidade multicultural e trabalhadora

Dói em mim essa Barcelona ultrajada por um terrorismo sem bússola, que mata gente inocente e indefesa

Zona turística vazia
Zona turística vazia REUTERS

Dói em mim essa Barcelona ensanguentada e ultrajada por um terrorismo sem bússola, que mata sem campo de batalha gente inocente e indefesa. Ainda muito jovem vivi e trabalhei em Barcelona, essa cidade que é difícil não amar porque é um luxo de arte e beleza. Tinha acabado de concluir em Roma meus estudos universitários e Barcelona meu primeiro campo de aprendizagem humana.

Onde hoje está localizada a redação da edição catalã do EL PAÍS existia a favela de La Bomba. Eu ensinava em uma escola de religiosos na calle Muntaner. Com um grupo de universitários voluntários começamos um trabalho social naquela favela. Foi ali então que descobri que é nas casas dos pobres onde sempre há lugar para mais um. Toda vez que nos deparávamos com uma pessoa que não tinha onde dormir, depois de telefonar em vão para os conhecidos das casas grandes do centro da cidade, que sempre estavam “cheias”, nós a levávamos à favela. Até mesmo de noite sempre encontrávamos lugar. Aquela gente juntava um pouco mais seus colchões e sem mais perguntas abria espaço para o desconhecido. Era então uma cidade sem violência.

Pode parecer uma nimiedade, mas hoje agradeço àquela cidade por ter me forjado. Barcelona é uma cidade onde talvez a metade de sua gente chegou de outras partes da Espanha. É multicultural, trabalhadora, séria e com um amor particular pelo desenho e a arte.

Hoje, Barcelona e a Catalunha, uma região que foi uma fortaleza contra a ditadura do general Francisco Franco, que lhe impedia de usar a própria língua – o catalão, diferente do espanhol –, vivem um momento político delicado em razão da tentativa do Governo regional de iniciar um processo para declarar sua independência da Espanha. Não seria impossível que os que urdiram a tela do sangrento atentado tenham usado este momento para feri-la duplamente. O atentado de Barcelona é assim uma agressão à Espanha como um todo. Uma forma de envenenar a convivência e por isso duplamente execrável. Nestas horas de horror terrorista, que Madri já viveu há 13 anos com um saldo então de 192 mortos e mais de mil feridos por uma série de bombas em quatro trens, estou certo de que a Espanha inteira abrirá um parêntesis na luta política para abraçar a dor dos catalães.

O novo terrorismo mundial vai cercando cada dia mais a Europa e o mundo. Existe o perigo de querer responder com nova violência, que só faria piorar a situação. Esta é mais a hora de refletir sobre a força da paz e do diálogo junto com a vigilância internacional, para evitar uma epidemia terrorista cujos limites podem ser catastróficos. O Brasil tem até agora a sorte de estar livre deste tipo de terror mundial. Não está, porém, livre da violência, muito vinculada ao tráfico de drogas, que acaba produzindo mais mortos que o próprio terrorismo. Também o Brasil, para manter distante o perigo de contágio do terrorismo, tem de apostar no diálogo e na convivência pacífica. Os incêndios começam com uma simples fagulha antes de se agigantar. O melhor caldo de cultivo da violência, de todas as violências, começa ao nosso lado, na família, no Congresso, nas redes sociais, na intemperança verbal, na incapacidade de dialogar com as diferenças, na aceitação do outro.

Que o atentado de Barcelona, uma cidade amada pelos brasileiros, ajude este país a refletir sobre a intemperança nas relações e o envenenamento na política. Comecemos a criar a tribo dos que rejeitam qualquer violência e intolerância. Só a paz cria sonhos tranquilos. A violência engendra sempre monstros e nos transforma neles, como na metamorfose de Kafka.

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