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16 normas não escritas respeitadas por cidades pequenas

A obrigatoriedade do cumprimento na rua, de tirar alguns dias livres para as festas, manter a rixa com as cidades vizinhas...

Onde se coloca as cadeiras para tomar a fresca é proibido estacionar.
Onde se coloca as cadeiras para tomar a fresca é proibido estacionar.Luis Davilla (Getty)

Nas cidades pequenas, alguns serviços funcionam de outra maneira, e algumas normas e costumes também. Além das leis aplicáveis a todo o território nacional, os povos têm um conjunto de normas não escritas respeitadas quase à risca. Não há multas nem penalidades se são desrespeitadas: são cumpridas porque sempre foi assim e são cumpridas em família, quase como se fossem da casa de alguém. Se você é daqueles que só volta à sua cidade nas férias e precisa recordar as normas mais comuns, nos atrevemos a escrever essas normas não escritas para que as senhoras que tomam a fresca na rua não olhem torto para você. Detalhe, se você é de um bairro de periferia de uma grande cidade, certamente também vai se identificar com algumas destas normas.

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TÍTULO 1. Normas de circulação

art. 1. É proibido estacionar onde as pessoas saem para tomar a fresca. Existe uma linha amarela imaginária nos locais em que os vizinhos colocam suas cadeiras quando cai a noite e começa a refrescar. Não há multa por estacionar ali, mas haverá consequências se você provocar uma migração de pessoas com suas cadeiras dobráveis.

art. 2. Os carros não têm prioridade... sobre nada. Há vezes em que duas tampas de bueiro estão na distância perfeita para ser as traves de um gol imaginário e nesse caso as crianças têm prioridade. Também as crianças-kamikase de bicicleta e os tratores têm prioridade sobre os automóveis. E para as pessoas com carrinhos de compras, a rua toda é considerada faixa de pedestre.

Os carrinhos de compras têm prioridade absoluta sobre qualquer veículo.
Os carrinhos de compras têm prioridade absoluta sobre qualquer veículo.Raquel Pagola (Getty)

TÍTULO 2. Das pessoas e do comércio

art. 3. Você deve saber situar todos os vizinhos em suas árvores genealógicas. Se alguém quiser contar algo sobre “João, o filho do Coruja”, antes de continuar o relato você deve acrescentar: “Sim, o que se casou com a Isa, da quitanda”. Se não, a conversa não flui. Depois, a outra pessoa pode continuar com o que ia contar sobre João, o filho do Coruja, ou acrescentar algo sobre Isa da quitanda: “Que é irmã da Virginia, da Associação de Moradores”. É bem possível que no final você nem fique sabendo o que iam contar sobre João.

art. 4. É preciso cumprimentar. Nem todo mundo, mas quase. E o “como vai?” não é mera formalidade. É preciso contar exatamente como você está. Você e sua família inteira.

art. 5. Os mais velhos sempre podem criticá-lo, mas a recíproca não é verdadeira. Alguém precisa avisar se suas calças estão compridas demais para serem curtas e curtas demais para serem compridas, ou se sua camisa parece uma cortina de banheiro.

art. 6. Da cidade é quem nasce na cidade. O resto são forasteiros. Assim como os que nascem ali podem sair e continuarão sendo da cidade desde que participem das festas (art. 11), com os de fora acontece o contrário: tanto faz se já mora na cidade há 30 anos, continuará sendo “o forasteiro”. Mas no terceiro mês vão gostar de você como um a mais, isso é verdade.

art. 7. É seu dever e obrigação conhecer os pontos com cobertura de celular. A cidade tem um número determinado de lugares em que se pode usar o celular. São os que são, e se você se afasta um passo deles, esqueça o WhatsApp. Isso é assim para que fique mais fácil ir à casa da pessoa para quem você quer telefonar do que telefonar para ela.

art. 8. Respeite os parentescos na hora de paquerar. Os familiares próximos, ex-namorados e parceiros de sua turma são intocáveis, então você for daqueles que vai sozinho à cidade de férias, melhor que um amigo o atualize. Sim, respeitar os parentescos nas pequenas cidades reduz a muito poucas as possibilidades de paquerar. Mas para isso existem as festas das cidades próximas.

art. 9. A porta permanecerá aberta. Com total tranquilidade. Quem vai roubar você, se todo mundo se conhece? Caso esteja muito frio ou haja corrente, existe a variante de deixar a porta fechada, mas com a chave embaixo do capacho ou de um vasinho.

As festas das cidades próximas podem ajudar a salvaguardar a norma dos parentescos. Na imagem, a festa do filme ‘Primos’
As festas das cidades próximas podem ajudar a salvaguardar a norma dos parentescos. Na imagem, a festa do filme ‘Primos’

art. 10. As compras devem ser compartilhadas entre as diferentes lojas. Sem favoritismos. Se há duas quitandas, você tentará dividir suas compras entre as duas. Se não, vão pensar que você tem algum problema com os donos de alguma delas.

TÍTULO 3. Das festas

art. 11. Se você mora fora, deve tirar uns dias livres para ir às festas. Mesmo que seja só um. Se não for, será deserdado. Pode morar 50 anos em outra cidade e continuar sempre sendo da cidade desde que volte para as festas, mas ai de ti se faltar. Não há qualquer desculpa perdoável para não participar dos festejos todo ano.

art. 12. É preciso carimbar o passaporte de festas regionais todo ano. As de sua cidade são obrigatórias — não esqueça o artigo 11 —, mas as das cidades em volta são opcionais e há que participar pelo menos de duas ou três por ano. Além de ser uma das melhores formas de se reunir com sua turma de infância, sempre se pode extrapolar um pouco mais do que nas da própria cidade. Mas nesse caso, sim, tenha cuidado: nelas, o forasteiro é você.

Quem falta às festas da própria cidade e não carimba o passaporte de festas em pelo menos duas cidades vizinhas é excomungado. Na imagem, a festa do filme ‘Kiki’.
Quem falta às festas da própria cidade e não carimba o passaporte de festas em pelo menos duas cidades vizinhas é excomungado. Na imagem, a festa do filme ‘Kiki’.

art. 13. Haverá uma banda ou orquestra fetiche. Quando o número de um grupo ou orquestra entra na agenda da Prefeitura, é provável que se repita ano sim e o outro também. E não é ruim, em absoluto. De fato, tocará na grande festa. Também há povoados em que, além das canções que tocam em todas as festas, há temas próprios.

TÍTULO 4. Do folclore e das tradições

art. 14. Alguém de sua família deve ser host de uma imagem de santo. É o que existe de mais parecido com o Airbnb em cidades pequenas: toda semana, é um vizinho que acolhe a Virgem ou o Santo, que ocupa um lugar privilegiado na casa à vista de todos. Diferentemente do Airbnb, é o host que paga a estadia, mas em troca não gera conflito nem com a Prefeitura nem com a vizinhança.

art. 15. É preciso manter a rivalidade com as cidades em volta. Mesmo que você vá às festas deles e aproveite muito, é preciso manter as rixas. Se a localidade vizinha é maior ou mais próspera, você vai chamá-los de “grande coisa” e se for menor, de “coisa nenhuma”. Se escolher como companheiro alguém de uma cidade rival, prepare-se para sofrer gozações ilimitadas.

art. 16. É seu dever conservar e divulgar as lendas urbanas próprias. Você sabe que aquela história surreal do que aconteceu a um famoso que foi à sua cidade para tocar nas festas tem tudo que precisa para ser falsa. Mas você vai continuar contando igual, e até exagerando. Também há as de terror, com preferência por casas e fábricas abandonadas, onde acontecem outras coisas exóticas, e amigos dos primos dos vizinhos que passaram por maus bocados depois de fazer a brincadeira do copo.