Não se preocupe com o enorme iceberg antártico, mas com os glaciares que há atrás dele

A fratura na plataforma de gelo Larsen C pode desencadear efeitos colaterais que levariam décadas a se manifestar

A fenda na barreira de gelo Larsen C cresceu significativamente ao longo das últimas semanas.
A fenda na barreira de gelo Larsen C cresceu significativamente ao longo das últimas semanas.John Sonntag (EPA/NASA)

Os icebergs que se desprendem da Antártida, inclusive os mais volumosos, não costumam preocupar os estudiosos dos glaciares. O nascimento iminente de um novo iceberg gigante, por sua vez, pode ser algo fora do comum para o continente gelado.

Mais informações

A plataforma de gelo Larsen C, a quarta maior da Antártida, atraiu a atenção mundial na véspera do parto de um iceberg equivalente à décima parte de sua superfície, o que corresponde à área do Distrito Federal brasileiro. Ainda é difícil prever com precisão quando vai se soltar.

Mas o que deveria chamar a atenção não é o tamanho do iceberg. Essas massas de gelo se desprendem constantemente, inclusive algumas enormes de vez em quando, sem motivo para preocupação. Os icebergs só têm um efeito direto mínimo sobre o nível do mar.

O parto em si não representará mais do que o nascimento de outro grande iceberg, mas entre os cientistas existe um temor embasado de que toda a plataforma de gelo Larsen C possa se desestabilizar e acabar se rompendo, o que causaria efeitos colaterais que podem levar décadas para se manifestarem.

As plataformas de gelo funcionam, basicamente, como a rolha de uma garrafa. Os glaciares fluem da terra para o mar, e o gelo que transportavam acaba absorvido por essa barreira. Sua desaparição faz com que os glaciares fluam mais depressa, aumentando o ritmo de deslocamento do gelo da terra para o mar. Isso tem uma repercussão muito maior sobre o nível do mar do que o desprendimento dos icebergs.

Existe uma base física para a previsão de que a plataforma Larsen C poderá se desestabilizar, mas ela se apoia também em observações. Usando imagens aéreas e de satélite, os cientistas conseguiram rastrear plataformas extintas muito semelhantes. Em alguns casos, foi possível ver como retrocediam e vinham abaixo.

A morte de uma barreira de gelo

O mais espetacular colapso já observado numa plataforma de gelo foi o da imaginativamente chamada Larsen B, vizinha da Larsen C ao norte. Em 2002, a plataforma inteira se fraturou em dúzias de icebergs no transcurso de apenas seis semanas. Quase imediatamente, as geleiras que a alimentavam aceleraram seu deslocamento entre duas e seis vezes, e até hoje continuam fluindo mais depressa.

Série de fotos de satélite que mostram o colapso da barreira de gelo Larsen C entre junho e abril de 2002
Série de fotos de satélite que mostram o colapso da barreira de gelo Larsen C entre junho e abril de 2002NASA

Em nosso novo estudo, publicado na Earth and Planetary Science Letters, atrasamos ainda mais o relógio para observar a plataforma Wordie, na costa oeste da península antártica meridional, que começou a retroceder na década de 1960 e acabou desaparecendo em janeiro de 2017.

Ao longo dos últimos 20 anos, as observações mostraram que a principal geleira que alimentava a plataforma Wordie, a chamada geleira Fleming, se acelerou e diminuiu de espessura. Comparado com os glaciares que alimentam as plataformas Larsen B e C, a geleira Fleming é enorme. Mede 80 quilômetros de comprimento, 12 de largura, e 600 metros de espessura na frente.

Localização da plataforma Larsen C, da plataforma Wordie e do sistema glaciar Fleming com as posições das linhas de gelo desde 1947 até 2016
Localização da plataforma Larsen C, da plataforma Wordie e do sistema glaciar Fleming com as posições das linhas de gelo desde 1947 até 2016Chen Zhao/Christopher Watson/Matt Kings

Usamos fotografias aéreas históricas desde 1966 para criar um mapa topográfico da geleira Fleming e o comparamos com as medidas desde 2002 até 2015. Entre 1966 e 2015, a geleira perdeu pelo menos 100 metros de espessura perto da parte frontal. A taxa de emagrecimento, que é a taxa pela qual sua altura se altera, aumentou rapidamente. Depois de 2008, essa velocidade mais do que dobra a que foi registrada entre 2002 e 2008, e que quadruplica a taxa média de 1966 a 2008.

Índice de redução da região do glaciar Fleming entre (a) 2002-2008 e (b) 2008-2015
Índice de redução da região do glaciar Fleming entre (a) 2002-2008 e (b) 2008-2015Chen Zao/Christopher Watson/Matt Kings

Desde 2008, a velocidade do fluxo de gelo na frente também aumentou em mais de 400 metros por ano. É a maior mudança de velocidade dos últimos anos em qualquer geleira da Antártida. Todas essas variações indicam que a causa é o colapso da plataforma de gelo.

Calculamos que, desde 1966, o volume total de gelo perdido pelas geleiras que alimentavam a plataforma Wordie seja de 179 quilômetros cúbicos, ou seja, mais de seis vezes a capacidade da represa de Itaipu. O peso desse gelo que se desloca da terra para o mar já fez o leito de rocha existente sob as geleiras se erguer mais de 50 milímetros.

Outro estudo indica que este levantamento poderia ter desacelerado o esvaziamento da geleira, mas está claro que a deformação do leito de pedra não conteve o deslocamento do gelo. Aparentemente, falta muito para que a geleira Fleming volte a um novo estado de estabilidade (em que as precipitações em forma de neve que alimentam a geleira igualem o gelo vertido no oceano).

Cinquenta anos após o início do colapso da plataforma Wordie, as principais geleiras que a alimentam continuam emagrecendo e fluem mais depressa do que antes.

Ainda não podemos prever as consequências do desprendimento da nova geleira da plataforma Larsen C, mas, se esta começar a encolher ou se estagnar, a história nos diz que é provável que as geleiras fluam mais depressa, o que tornará ainda mais inevitável a elevação do nível de mar.

Chen Zhao é doutorando em Ciências Antárticas da Universidade da Tasmânia.

Christopher Watson é professor de Ciências Espaciais e Topográficas da Escola do Solo e dos Alimentos da Universidade da Tasmânia.

Matt Kings é catedrático em Ciências Espaciais e Topográficas da Escola do Solo e dos Alimentos da Universidade da Tasmânia.

Cláusula de divulgação:

Chen Zhao é aluno de doutorado da Escola do Solo e dos Alimentos da Universidade da Tasmânia. Recebe financiamento do Programa de Formação de Pesquisadores do Governo australiano.

Christopher Watson recebe financiamento do Conselho Australiano de Pesquisa e do Departamento de Meio Ambiente.

Matt King recebe financiamento do Conselho Australiano de Pesquisa e do Departamento de Meio Ambiente.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site The Conversation.

Mais informações

Arquivado Em

Recomendaciones EL PAÍS
Recomendaciones EL PAÍS
Logo elpais

Você não pode ler mais textos gratuitos este mês.

Assine para continuar lendo

Aproveite o acesso ilimitado com a sua assinatura

ASSINAR

Já sou assinante

Se quiser acompanhar todas as notícias sem limite, assine o EL PAÍS por 30 dias por 1 US$
Assine agora
Siga-nos em: