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Não se preocupe com o enorme iceberg antártico, mas com os glaciares que há atrás dele

A fratura na plataforma de gelo Larsen C pode desencadear efeitos colaterais que levariam décadas a se manifestar

A fenda na barreira de gelo Larsen C cresceu significativamente ao longo das últimas semanas.
A fenda na barreira de gelo Larsen C cresceu significativamente ao longo das últimas semanas. EPA/NASA

Os icebergs que se desprendem da Antártida, inclusive os mais volumosos, não costumam preocupar os estudiosos dos glaciares. O nascimento iminente de um novo iceberg gigante, por sua vez, pode ser algo fora do comum para o continente gelado.

A plataforma de gelo Larsen C, a quarta maior da Antártida, atraiu a atenção mundial na véspera do parto de um iceberg equivalente à décima parte de sua superfície, o que corresponde à área do Distrito Federal brasileiro. Ainda é difícil prever com precisão quando vai se soltar.

Mas o que deveria chamar a atenção não é o tamanho do iceberg. Essas massas de gelo se desprendem constantemente, inclusive algumas enormes de vez em quando, sem motivo para preocupação. Os icebergs só têm um efeito direto mínimo sobre o nível do mar.

O parto em si não representará mais do que o nascimento de outro grande iceberg, mas entre os cientistas existe um temor embasado de que toda a plataforma de gelo Larsen C possa se desestabilizar e acabar se rompendo, o que causaria efeitos colaterais que podem levar décadas para se manifestarem.

As plataformas de gelo funcionam, basicamente, como a rolha de uma garrafa. Os glaciares fluem da terra para o mar, e o gelo que transportavam acaba absorvido por essa barreira. Sua desaparição faz com que os glaciares fluam mais depressa, aumentando o ritmo de deslocamento do gelo da terra para o mar. Isso tem uma repercussão muito maior sobre o nível do mar do que o desprendimento dos icebergs.

Existe uma base física para a previsão de que a plataforma Larsen C poderá se desestabilizar, mas ela se apoia também em observações. Usando imagens aéreas e de satélite, os cientistas conseguiram rastrear plataformas extintas muito semelhantes. Em alguns casos, foi possível ver como retrocediam e vinham abaixo.

A morte de uma barreira de gelo

O mais espetacular colapso já observado numa plataforma de gelo foi o da imaginativamente chamada Larsen B, vizinha da Larsen C ao norte. Em 2002, a plataforma inteira se fraturou em dúzias de icebergs no transcurso de apenas seis semanas. Quase imediatamente, as geleiras que a alimentavam aceleraram seu deslocamento entre duas e seis vezes, e até hoje continuam fluindo mais depressa.

Série de fotos de satélite que mostram o colapso da barreira de gelo Larsen C entre junho e abril de 2002 ampliar foto
Série de fotos de satélite que mostram o colapso da barreira de gelo Larsen C entre junho e abril de 2002 NASA

Em nosso novo estudo, publicado na Earth and Planetary Science Letters, atrasamos ainda mais o relógio para observar a plataforma Wordie, na costa oeste da península antártica meridional, que começou a retroceder na década de 1960 e acabou desaparecendo em janeiro de 2017.

Ao longo dos últimos 20 anos, as observações mostraram que a principal geleira que alimentava a plataforma Wordie, a chamada geleira Fleming, se acelerou e diminuiu de espessura. Comparado com os glaciares que alimentam as plataformas Larsen B e C, a geleira Fleming é enorme. Mede 80 quilômetros de comprimento, 12 de largura, e 600 metros de espessura na frente.

Localização da plataforma Larsen C, da plataforma Wordie e do sistema glaciar Fleming com as posições das linhas de gelo desde 1947 até 2016 ampliar foto
Localização da plataforma Larsen C, da plataforma Wordie e do sistema glaciar Fleming com as posições das linhas de gelo desde 1947 até 2016

Usamos fotografias aéreas históricas desde 1966 para criar um mapa topográfico da geleira Fleming e o comparamos com as medidas desde 2002 até 2015. Entre 1966 e 2015, a geleira perdeu pelo menos 100 metros de espessura perto da parte frontal. A taxa de emagrecimento, que é a taxa pela qual sua altura se altera, aumentou rapidamente. Depois de 2008, essa velocidade mais do que dobra a que foi registrada entre 2002 e 2008, e que quadruplica a taxa média de 1966 a 2008.

Índice de redução da região do glaciar Fleming entre (a) 2002-2008 e (b) 2008-2015 ampliar foto
Índice de redução da região do glaciar Fleming entre (a) 2002-2008 e (b) 2008-2015

Desde 2008, a velocidade do fluxo de gelo na frente também aumentou em mais de 400 metros por ano. É a maior mudança de velocidade dos últimos anos em qualquer geleira da Antártida. Todas essas variações indicam que a causa é o colapso da plataforma de gelo.

Calculamos que, desde 1966, o volume total de gelo perdido pelas geleiras que alimentavam a plataforma Wordie seja de 179 quilômetros cúbicos, ou seja, mais de seis vezes a capacidade da represa de Itaipu. O peso desse gelo que se desloca da terra para o mar já fez o leito de rocha existente sob as geleiras se erguer mais de 50 milímetros.

Outro estudo indica que este levantamento poderia ter desacelerado o esvaziamento da geleira, mas está claro que a deformação do leito de pedra não conteve o deslocamento do gelo. Aparentemente, falta muito para que a geleira Fleming volte a um novo estado de estabilidade (em que as precipitações em forma de neve que alimentam a geleira igualem o gelo vertido no oceano).

Cinquenta anos após o início do colapso da plataforma Wordie, as principais geleiras que a alimentam continuam emagrecendo e fluem mais depressa do que antes.

Ainda não podemos prever as consequências do desprendimento da nova geleira da plataforma Larsen C, mas, se esta começar a encolher ou se estagnar, a história nos diz que é provável que as geleiras fluam mais depressa, o que tornará ainda mais inevitável a elevação do nível de mar.

Chen Zhao é doutorando em Ciências Antárticas da Universidade da Tasmânia.

Christopher Watson é professor de Ciências Espaciais e Topográficas da Escola do Solo e dos Alimentos da Universidade da Tasmânia.

Matt Kings é catedrático em Ciências Espaciais e Topográficas da Escola do Solo e dos Alimentos da Universidade da Tasmânia.

Cláusula de divulgação:

Chen Zhao é aluno de doutorado da Escola do Solo e dos Alimentos da Universidade da Tasmânia. Recebe financiamento do Programa de Formação de Pesquisadores do Governo australiano.

Christopher Watson recebe financiamento do Conselho Australiano de Pesquisa e do Departamento de Meio Ambiente.

Matt King recebe financiamento do Conselho Australiano de Pesquisa e do Departamento de Meio Ambiente.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site The Conversation.

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